Sobre o populismo papal. Artigo de Austen Ivereigh

Foto: Vatican News

12 Fevereiro 2021

O tipo de consciência política que o papa está pedindo reflete uma atenção às necessidades dos outros, quaisquer que sejam suas lealdades, e uma disposição a organizar a nossa economia de uma forma que atenda a essas necessidades.

 

O comentário é de Austen Ivereigh, escritor e jornalista britânico e pesquisador em História da Igreja Contemporânea no Campion Hall, na Universidade de Oxford. Seu livro mais recente é “Vamos sonhar juntos: o caminho para um futuro melhor” (Ed. Intrínseca, 2020), uma entrevista com o Papa Francisco.

 

O artigo foi publicado em La Croix International, 11-02-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

 

Quando o apresentador do The Late Show perguntou a Joe Biden, pouco antes do Natal, como o segundo presidente católico dos Estados Unidos receberia suas ordens do papa sobre como governar, Biden não entendeu a piada.

 

“Ele me telefonou pessoalmente para me dar os parabéns”, disse ele com toda a seriedade a Stephen Colbert, acrescentando que acabara de falar ao telefone com o arcebispo de Washington, Wilton Gregory, que lhe disse que Francisco havia autografado um livro que queria que o presidente tivesse.

 

Esse livro, que eu ajudei a escrever, se chama “Vamos sonhar juntos: o caminho para um futuro melhor”.

 

É a reflexão de Francisco sobre a pandemia e as possibilidades de mudança que a crise oferece à humanidade.

 

Ele termina com a visão de um novo tipo de política que parecia oportuna o suficiente na corrida às eleições de novembro de 2020, contra o pano de fundo dos comícios de campanha de Trump e os protestos do movimento Black Lives Matter.

 

Agora, depois da “Marcha de Jericó” [marcha de oração pró-Trump] e a invasão do Capitólio pelos apoiadores de Trump no dia 6 de janeiro, a poderosa crítica de Francisco ao populismo nacionalista cristão e àquilo que ele chama de “gerencialismo tecnocrático” não poderia ser mais relevante.

 

Assim como a encíclica Fratelli tutti, “Vamos sonhar juntos” abre um espaço para além da polarização atual na política ocidental.

 

Francisco está fazendo pela nossa época aquilo que Pio XI tentou fazer com a sua encíclica Quadragesimo anno de 1931 – em outra era de crise democrática e populismo autoritário.

 

 

Ambos nos exortam a não nos contentarmos com o status quo, mas a olharmos para um tipo diferente de política, que reconheça a dignidade humana de todas as pessoas e construa a sociedade e a economia sobre essa base.

 

Embora ambas as encíclicas se voltem para o povo, há um grande abismo separando seu “populismo inclusivo”, como Angus Ritchie o chama em um livro recente com esse nome, e o populismo exclusivista do ódio e da divisão fomentado por Trump e outros demagogos.

 

O dilema de Babel: pessoas ou tijolos

 

Compreender essa diferença e os contrastantes movimentos espirituais envolvidos é vital, se quisermos encontrar uma saída para a atual crise política.

 

Para Francisco, a raiz da crise na democracia liberal é uma ideologia de mercado neodarwinista que trata as pessoas como mercadorias.

 

Em “Vamos sonhar juntos”, ele aponta que o fato de sem-teto morrerem de frio atrás de hotéis vazios quase não gera nenhuma reação em comparação com o choque que acompanha uma queda acentuada no mercado de ações.

 

 

Voltando novamente à interpretação de um rabino medieval sobre a Torre de Babel, na qual os tijolos eram considerados mais valiosos do que os escravos, Francisco aponta que uma economia obcecada com o crescimento e o consumo é essencialmente uma economia do sacrifício humano. “Pessoas ou tijolos”, diz ele. “É hora de escolher.”

 

Francisco entende a dor e a desilusão política por trás da ascensão do populismo, “a disjunção entre a consciência dos direitos sociais de um lado e a distribuição de oportunidades reais de outro”, assim como a raiva daqueles que são “deixados de lado pelo implacável rolo compressor da tecnocracia globalizada”.

 

Raiva com a perda de oportunidades e agência, uma sensação de deslocamento que leva as pessoas a se agarrarem às suas identidades – isso oferece um solo fértil para líderes autoritários dispostos a alimentar medos e um sentimento de vitimização.

 

Em “Vamos sonhar juntos”, Francisco lamenta “a retórica muitas vezes cruel de líderes populistas que difamam o ‘outro’ a fim de defender uma identidade nacional ou de grupo”.

 

 

Em declarações transmitidas pela televisão italiana no dia 9 de janeiro, Francisco disse que o ataque ao Capitólio dos EUA mostrou que, quando as pessoas agem “contra a comunidade, contra a democracia, contra o bem comum”, é um sinal das forças espirituais em jogo.

 

“Graças a Deus, isso eclodiu, e tivemos a chance de ver bem”, acrescentou ele, “porque agora você pode tentar curar isso.”

 

A “consciência isolada”

 

O espírito por trás do populismo trumpiano é capturado na Parte II de “Vamos sonhar juntos”, que contém um excelente ensino sobre o discernimento espiritual: como podemos detectar o que é de Deus e o que se opõe a Ele, desmascarando o mau espírito quando ele aparece sub angelo lucis – disfarçado como um anjo de luz.

 

O nacionalismo cristão está cheio de apelos ao bem e a Deus, a Jesus e à justiça, mas seu verdadeiro espírito é fácil de detectar.

 

Ele explora medos e suspeitas, culpa os outros e esfrega sal nas feridas da dor. Ele polariza e divide o mundo entre nós (bons) e eles (maus), “fechando-nos em nossos próprios interesses e pontos de vista por meio de suspeitas e suposições”.

 

Francisco descreve esse espírito de oposição ao bem comum e à unidade como uma “consciência isolada”, uma tentação que leva a um sentimento de superioridade alienada do corpo (neste caso, da sociedade democrática) e que transforma as pessoas em pessoas “sitiadas, ‘eus’ queixosos que desdenham os outros, acreditando que só ‘nós’ sabemos a verdade”.

 

Há poucas descrições melhores do que essa sobre a turba que Trump enviou ao Capitólio – pessoas cheias de hipocrisia irada e um sentimento de traição, cuspindo acusações bizarras de eleições roubadas e reivindicando sanções divinas para as suas ações (“Quando Deus lhe dá uma visão, você não precisa saber de mais nada”, disse o mestre de cerimônias da “Marcha de Jericó”, Eric Metaxas).

 

Na raiz da consciência isolada, diz Francisco, está sempre aquilo que Santo Inácio de Loyola chamou de “coisa adquirida” (cosa adquisita), ou algum sentimento de direito ou privilégio.

 

O medo de perder essa coisa adquirida leva as pessoas a se apegar a ela com mais firmeza, enquanto “o espírito de suspeita e suposição fornece razões para me conter, ocultando meus apegos enquanto os justifica por meio dos defeitos dos outros”, escreve Francisco.

 

Aqueles que estão dominados por esse espírito podem vir a acreditar em quase tudo que ouvem das pessoas que compartilham suas queixas e desconfiam das evidências ou argumentos apresentados por aqueles que consideram como inimigos. Daí a Stop the Steal [campanha da extrema-direita estadunidense contra a suposta “fraude eleitoral” na derrota de Trump].

 

No discurso abertamente racista e cheio de queixas de Trump e de sua turba, nas armas e nas bandeiras confederadas que eles carregavam, a “coisa adquirida” está à vista: é a mitologia da Causa Perdida, o mito nacionalista cristão do Sul [dos EUA] como preservador do excepcionalismo e da superioridade moral estadunidenses.

 

Tudo isso está ligado a um sentimento de vitimização e de traição ao qual apela a retórica MAGA [“Make America Great Again”] de Trump. Construir um muro para impedir a entrada de “mexicanos”, atacar o Capitólio para reverter uma eleição “roubada” que ele perdeu – Trump atiça as queixas e a superioridade da consciência isolada como nenhum outro, alheio a qualquer noção de bem comum ou fraternidade.

 

Entre Jonas e Zaqueu

 

Se Jonas é o ícone bíblico da consciência isolada, diz Francisco, então Zaqueu – o diminuto cobrador de impostos transformado pela misericórdia de Deus – é o grande exemplo bíblico de quem renuncia ao isolamento para servir ao povo.

 

O catalisador da sua transformação é sua resposta a Cristo: em vez de acusar os outros, ele acusa a si mesmo. A humildade, como diz Francisco, é o antídoto para a consciência oculta.

 

Ao nos rebaixarmos – não em relação aos outros, mas por temor a Deus –, abrimos espaço para que o bom espírito atue em nós. Então, “em vez de encontrar defeitos no meu irmão ou irmã, vejo nele alguém que também está lutando e precisando de ajuda, e me ofereço para servi-los”.

 

A humildade é a base da fraternidade imaginada na Fratelli tutti. Vemos isso na parábola do Bom Samaritano, cuja identidade não é ameaçada por um companheiro humano em necessidade.

 

 

O tipo de consciência política que o papa está pedindo reflete essa atenção às necessidades dos outros, quaisquer que sejam suas lealdades, e uma disposição a organizar a nossa economia de uma forma que atenda a essas necessidades.

 

É uma forma de fazer política que se mantém acima da rixa da polarização, ciente do contagiante poder de acusação.

 

Em vez de alimentar essa fera, ela permite que ela se revele e murche – como fez Biden em resposta a Trump. “Assim como o coronavírus, se o vírus da polarização não puder se transferir de um hospedeiro para outro, ele gradualmente desaparece”, observa Francisco.

 

Mas o papa não quer que fujamos do conflito. A Parte II de “Vamos sonhar juntos” descreve uma realidade dinâmica criada por Deus, repleta de forças que se opõem e tensões que exigem resolução, as quais o papa chama de “polaridades vivas” ou “contraposições”.

 

Tais tensões – entre aquilo que é e aquilo que deveria ser, entre diferentes pontos de vista e interesses – são o conteúdo da política. Fugir delas, buscando a paz a qualquer preço, significa recusar-se a aceitar a realidade.

 

Mas o diabólico é a tentativa de explorar essas tensões transformando-as em contradições, reduzindo realidades complicadas a binários simples (por exemplo, o povo contra os inimigos do povo) e exigindo que escolhamos um lado para derrotar o outro.

 

Para além da busca incessante de crescimento

 

Ao invés disso, Francisco pede que “suportemos” a tensão da diferença, encarando-a de frente e abrindo as pessoas envolvidas a uma nova forma de ver que preserve o que há de bom em cada lado, transcendendo a ambos.

 

Essas descobertas acontecem “como um dom no diálogo, quando as pessoas confiam umas nas outras e buscam humildemente o bem juntas”, diz ele.

 

Essa é apenas uma dimensão de uma política do serviço, que não trata apenas de administrar o aparato do Estado e de fazer campanha pela reeleição, mas que cultiva a virtude e cria laços.

 

Essa “Política com P maiúsculo”, como ele a chama, é “uma vocação sobretudo para os incomodados com o estado da sociedade”, para aqueles que “ardem com a missão” de assegurar ao seu povo o acesso à terra, ao trabalho e ao teto. Esses políticos – ou líderes comunitários – “carregam consigo o cheiro dos bairros aos quais servem”.

 

São homens e mulheres de compaixão que respeitam a cultura e a dignidade daqueles e daqueles aos quais representam.

 

Aqui está o elemento crucial na regeneração da política que o papa está pedindo. Assim como na Laudato si’, em “Vamos sonhar juntos” Francisco tem muito a dizer sobre a necessidade de o governo definir novas metas para a economia para além da busca incessante de crescimento, políticas que ampliem o acesso ao trabalho e protejam o planeta.

 

Há muito que o governo pode fazer. No entanto, o radicalismo dessa política papal está na fé que ela coloca nos movimentos populares para desafiar e moldar aquilo que o governo faz.

 

“No mundo pós-Covid”, diz ele, “nem o gerencialismo tecnocrático nem o populismo serão suficientes. Somente uma política enraizada no povo, aberta à própria organização do povo, poderá mudar o futuro.”

 

 

Em 1931, diante da polarização do liberalismo e do coletivismo em uma era de colapso democrático, Pio XI também clamou pela regeneração da sociedade civil a partir de baixo, para que “as próprias instituições dos povos e, em particular, de toda a vida da sociedade” sustentassem “uma ordem jurídica e social à qual toda a economia se conforme” (Quadragesimo anno).

 

A Igreja e os movimentos populares

 

Mas nenhum papa antes de Francisco deu tanta ênfase àquilo que ele chama de “movimentos populares”, compostos por pessoas marginalizadas.

 

Na Parte III de “Vamos sonhar juntos”, ele escreve sobre movimentos sociais com raízes em escolas e paróquias em bairros pobres que ajudam as pessoas a se organizar para defender salários dignos, ruas seguras e moradia digna.

 

Nos EUA, isso é chamado de organização comunitária de base ampla ou com base na fé, do tipo promovido e financiado pela Campanha Católica para o Desenvolvimento Humano (CCHD, na sigla em inglês).

 

O próprio papa acolheu e encorajou encontros desses “movimentos populares” em Roma e em outros lugares, e conclama a Igreja a “abrir as suas portas” para eles – não para liderá-los ou controlá-los, mas para acompanhá-los e encorajá-los.

 

Isso, diz ele, é o oposto da forma como as elites pensam, para as quais, zomba o papa, é “tudo pelo povo, mas nunca com o povo”.

 

Relembrando seu próprio envolvimento com tais movimentos em Buenos Aires – especialmente os cartoneros, catadores de papel – Francisco descreve a celebração de uma grande missa ao ar livre todos os anos em uma das grandes praças da cidade, que com o tempo se tornou um ponto de encontro para milhares de excluídos.

 

As pessoas vinham “pedir a Deus as coisas de que precisavam”, trazendo à sua mente a multidão que seguia Jesus, “não uma massa de indivíduos hipnotizados por algum orador hábil, mas um povo com uma história, com uma esperança, que salvaguardava uma promessa”.

 

A multidão no Evangelho seguia Jesus, diz Francisco, porque sua pregação evocava neles a consciência que eles portavam nas entranhas da proximidade de Deus e da sua própria dignidade.

 

Francisco via nas multidões da Praça Constitución e nos movimentos populares o mesmo espírito. “Na mobilização pela mudança, na sua busca pela dignidade, eu vejo uma fonte de energia moral, uma reserva de paixão cívica, capaz de revitalizar a nossa democracia e de reorientar a economia”, escreve.

 

 

Essa é uma política que se volta para o povo, não para esfregar sal nas suas feridas, mas para ajudá-lo a recuperar a dignidade que é sua; que vê os párias não como uma arma, mas como um recurso; que não vem para impor, mas para servir; que não divide a partir de cima, mas constrói unidade a partir de baixo.

 

É a política de que precisamos urgentemente.

 

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