“A ética? É cultivada como uma planta”

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09 Fevereiro 2021

“Bom dia, desculpe pela planta. Eu acidentalmente a acertei com uma bola de futebol. Aqui estão 5 pelo estrago”. Tudo começa com um pequeno pedaço de papel, uma mensagem e uma assinatura. “Um vizinho nos mostra (feliz) este bilhete, que encontrou ao lado de uma planta amassada. Um amigo do nosso filho (11 anos) o deixou. Meu próximo curso de ética pública na universidade só poderá começar disso”.

Giovanni Grandi, filósofo moral da Universidade de Trieste, jamais poderia imaginar que seu tweet seria compartilhado de forma "viral" em poucas horas, coletando mais de 15 mil curtidas. E depois vieram artigos, reportagens de TV, tornando-se um case midiático. "Por que um fato simples, aparentemente insignificante, despertou tanto interesse?" O filósofo não podia deixar de pensar, tentando entender. É assim que nascem as “Nove lezioni di etica publica”, reunidas em Scusi per la pianta (Noves lições de ética pública, em Desculpe pela planta, em tradução livre, Utet, p.128, 12,00 euros).

Um breviário para ler o tempo que vivemos e nos questionarmos sobre o nosso progresso, sobre as pequenas ações que podem realmente mudar a nossa sociedade. Aquela real e a "virtual" da web, aos quais Grandi dedica particular atenção com a associação Parole O_ Stili, enquanto lança um curso universitário sobre "Ética Pública e Comunicação" que terá início em abril.

Scusi per la pianta. Nove lezioni di etica pubblica

A entrevista com Giovanni Grandi é editada por Giuseppe Matarazzo, publicada por Avvenire, 06-02-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Professor, estamos realmente tão mal se um bilhete de desculpas de uma criança gera tanto alarde?

Talvez sim, mas também podemos inverter a perspectiva e dizer que estamos bem se episódios como este nos impressionam. Isso significa que ainda há atenção moral, há um terreno receptivo sobre o qual semear.

Mas por que isso nos afeta?

Porque o gesto, por si só simples, desperta o desejo por um mundo melhor, principalmente em nós adultos. Sentimos a saudade daquela prontidão de quando éramos pequenos, daquela disponibilidade para com os outros que talvez tenhamos perdido com o tempo porque a vida nos feriu, tornando-nos mais cínicos. Então, uma coisa tão pequena chega de forma inesperada e pode nos surpreender.

O que acontece depois?

Pois bem, a pergunta é: podemos ir além do episódio? Conseguimos passar da reação emocional à elaboração reflexiva? Se pensarmos na pandemia e na nossa reação inicial, dizemos a nós mesmos: "Nada será como antes". Diante do medo coletivo, foram acionados mecanismos de solidariedade, as varandas, #andràtuttobene, a atenção ao vizinho. Depois a situação lentamente se normalizou até o ressurgimento de formas mais usuais de sentir e pensar. A raiva ressurgiu, a discussão irritada sobre as prioridades, a ideia de estar em competição uns contra os outros. No esforço do prolongamento do estado de exceção, a solidariedade da primeira hora se desfaz. Estamos agora no tempo da dissolução, e é um momento muito delicado.

A magia desaparece ...

Sim, e todos tendemos a voltar aos hábitos anteriores. É por isso que não podemos desperdiçar o resto de memória, o tempo em que a impressão inicial não está totalmente apagada e as formas habituais de pensar ou de fazer ainda não estão completamente restauradas. Este, pensando na macro parábola da pandemia, é o tempo em que estamos vivendo.

Se ampliarmos o olhar, do nosso “condomínio” ao estado, o escândalo está sempre à espreita. Podemos diferenciar entre ética pública e privada?

Hoje, a fronteira entre a vida privada e a pública está desaparecendo. Especialmente nas redes sociais, todos nós temos uma “audiência” e constantemente a convidamos a saber sobre a nossa vida privada: não devemos depois nos surpreender se aqueles com que precisam ter relações de trabalho conosco tentarem ter uma ideia de quem somos observando-nos em todos esses aspectos. Mas justamente esse tipo de indagação revela a intuição antropológica: vícios e virtudes nos acompanham do privado ao público sem solução de continuidade. Não pode haver uma "dupla" moral.

Mas nas redes sociais você pode mostrar uma outra face de você mesmo, uma máscara...

O virtual e o real são dois aspectos espelhados da nossa existência. Esses dois mundos, mais cedo ou mais tarde, se conectam. E se os dois perfis não corresponderem, isso eventualmente ficará evidente. É por isso que as mídias sociais devem ser usadas com cuidado, sem ceder à tentação de se mostrar de forma exagerada.

Em seu livro, você combina ética pública e espiritualidade, como elas estão ligadas?

Os antigos prestavam muita atenção à relação com o dinheiro e o poder. Pelágio apontava que o desejo por essas duas coisas não conhece ponto de saturação. Isso significa que se pode acabar sendo capturado de um modo abrangente. Portanto, sabendo que temos que lidar com recursos públicos e, portanto, que estaremos constantemente expostos ao fascínio do poder e da riqueza, devemos prestar atenção especial às dinâmicas da luta interior. Até Max Weber, em seu famoso discurso sobre a Política como profissão, chega basicamente à mesma conclusão: sem um cuidado constante com a vida espiritual é difícil cumprir as tarefas públicas com responsabilidade ou, como escreve nossa Constituição, "com disciplina e honra".

Também existe uma ética na comunicação. A web parece um faroeste, fake news, haters, hackers ... Como se chegou a tal degeneração aconteceu?

A qualidade dos espaços digitais depende de como as pessoas os frequentam, justamente como na dimensão offline: por isso há lugares esplêndidos e outros degradados. Mas é verdade que online percebemos menos a dimensão pública e aberta desses contextos: muitas vezes nos expressamos com raiva e tons inflamados como se estivéssemos desabafando cara a cara com um confidente. E, em vez disso, estamos no centro da praça, e cada palavra - especialmente as mais violentas e desdenhosas - pode desencadear ou alimentar dinâmicas de agressividade e ofensa com crescimento exponencial. Com isso quero dizer que estamos muito preocupados com os "poluidores" profissionais, mas que, em vez disso, deveríamos primeiro nos equipar para não sermos poluidores ingênuos ou involuntários.

Com a associação Parole O_Stili vocês elaboraram um manifesto para melhorar a comunicação online.

Nós nos perguntamos justamente como apoiar o amadurecimento de uma forma consciente e eticamente atenta de habitar espaços digitais. O manifesto não faz prescrições, propõe princípios, pontos sobre os quais se pode fazer uma pausa e questionar: "o virtual é real", "as palavras são uma ponte", "os insultos não são argumentos", "as palavras nos representam" ... e assim por diante até o fim, "até o silêncio comunica". São ideias a partir das quais se pode iniciar uma reflexão, oficinas e, certamente, também atividades formativas, como vem fazendo Parole O_Stili com as Fichas para a Educação Cívica para as escolas.

Agora também está lançando um curso universitário. Qual é o objetivo?

Articula três dimensões: ética nas instituições; o mundo da comunicação entendido não apenas como recurso de instrumentos, mas também como mundo de relações; a gestão de conflitos. Ofereceremos elementos para compreender o panorama sociológico e antropológico, para escolher palavras de qualidade, mas também para nos responsabilizarmos por situações comprometidas justamente por mal-entendidos e excessos de interação uns com os outros.

O bilhete da criança torna-se assim uma lição. Nascemos éticos, mas depois nos tornamos?

Nascemos éticos porque a sensibilidade para o bem nos pertence. Mas essa intuição para o bem precisa depois ser traduzida em gestos possíveis, apesar das feridas, das decepções, das derrotas. E às vezes precisa ser renovada, deixando-nos surpreendidos até pelos pequenos episódios. A responsabilidade deve ser cultivada. Como uma pequena planta, da qual é preciso tomar conta.

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