EUA: bispos jogam balde de água fria na posse mais católica da história

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22 Janeiro 2021

Esta quarta-feira, 20 de janeiro, foi um dia muito católico. Tudo começou com o presidente eleito levando as lideranças políticas da nação para a missa. Joe Biden entrou em minha antiga paróquia, a Catedral de São Mateus Apóstolo, em Washington, seguido pela vice-presidente eleita, a presidente da Câmara e os líderes das maiorias e das minorias de ambas as câmaras do Congresso.

O comentário é de Michael Sean Winters, publicado por National Catholic Reporter, 21-01-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Depois de quatro anos de um presidente incapaz de não dar tapinhas nas próprias costas em todos os momentos públicos, foi uma mudança muito bem-vinda ver um presidente que não tem medo de ir à missa, na qual começamos pedindo perdão e terminamos recebendo o dom da graça eucarística.

Na noite anterior, o Sr. Biden liderou o país em um curto, mas pungente rito de rememoração dos mortos pelo vírus da Covid-19. O cardeal Wilton Gregory, de Washington, novo pastor de Biden, ofereceu uma bela oração para iniciar a cerimônia. Ele rezou, em parte: “Com um só coração, encomendemos aqueles que morreram por causa desse vírus e todos os seus entes queridos ao cuidado providencial d’Aquele que é a fonte última da paz, da unidade e da concórdia”.

Depois daquilo que o país testemunhou nas últimas semanas, como é revigorante ser lembrado de que Deus oferece “paz, unidade e concórdia”.

A cerimônia oficial de posse começou com uma oração do padre jesuíta Leo O'Donovan. Ele não começou, como o cardeal Richard Cushing fez há 60 anos e como os católicos normalmente começam suas orações, com o sinal da cruz e as palavras: “Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”. Mas, por cima do ombro direito de O'Donovan, você podia ver Biden fazendo o sinal da cruz de qualquer maneira. Mais tarde, quando Biden concluiu um momento de silêncio por aqueles que morreram de Covid-19, foi possível ver um membro da Guarda Nacional fazer o sinal da cruz.

Depois de fazer o juramento de posse, o novo presidente fez um discurso repleto de temas encontrados em todas as páginas do ensino social católico: a dignidade da pessoa humana, a comissão de servir ao bem comum como primeira justificativa de governo, o valor da democracia na proteção da dignidade humana e, ao mesmo tempo, em exigir e evidenciar a igualdade, a virtude da solidariedade.

Quão diferente do discurso inaugural distópico que ouvimos quatro anos atrás, para não falar do discurso que incitou a turba a invadir o Capitólio dos Estados Unidos há duas semanas.

E Biden citou Santo Agostinho!

O dia todo foi muito católico, carregado de simbolismo e de ritual. Grande parte dele foi diferente das normas inaugurais habituais por causa da Covid-19 e porque o presidente cessante decidiu dar um chilique e pular a cerimônia. E tudo isso falava de valores mais pronunciados no pensamento católico do que no liberalismo clássico dos pais fundadores.

No entanto, isso também me fez lembrar de como Biden é diferente de muitos liberais, católicos ou não, que não fazem nada a não ser ridicularizar os Estados Unidos e denunciar os pecados do país. Biden reconhece esses pecados, com certeza, mas ele sabe que os Estados Unidos são mais do que isso.

“Nossa história tem sido uma luta constante entre o ideal estadunidense de que todos fomos criados iguais e a dura e horrível realidade de que o racismo, o nativismo, o medo e a demonização há muito tempo nos separaram”, disse o novo presidente.

“A batalha é perene. A vitória nunca está garantida. Durante a Guerra Civil, a Grande Depressão, a Guerra Mundial, o 11 de setembro, através de lutas, sacrifícios e reveses, nossos melhores anjos sempre prevaleceram.”

Então, em uma frase que parecia algo que o Papa Francisco diria, Biden acrescentou: “Em cada um desses momentos, muitos de nós, muitos de nós nos unimos para carregar todos nós para a frente”.

Aparentemente, a liderança da Conferência dos Bispos dos Estados Unidos, antes mesmo de ouvir o discurso, optou por se colocar entre aqueles que não querem “se unir para carregar todos nós para a frente”.

O arcebispo de Los Angeles, José Gomez, presidente da Conferência, emitiu uma declaração grosseira . Ele reconheceu que haveria áreas onde os bispos poderiam trabalhar com o novo governo, mas também advertiu que Biden havia “prometido seguir certas políticas que promoveriam males morais e ameaçariam a vida e a dignidade humanas, mais seriamente nas áreas do aborto, da contracepção, do casamento e do gênero”.

Gomez acrescentou: “Uma preocupação profunda é a liberdade da Igreja e a liberdade dos fiéis de viverem de acordo com as suas consciências”.

Os dias de posse não são um momento para declarações adversativas.

A declaração continha duas grandes mentiras em seu cerne. Gomez declarou: “Estou ansioso para trabalhar com o presidente Biden e o seu governo e com o novo Congresso”. Desculpe-me , mas essa declaração não foi elaborada para construir uma relação com o novo governo. Foi elaborada para sabotá-la.

A esse respeito, como um bispo me explicou, a declaração foi um ataque a Francisco, que deixou claro que ele realmente deseja trabalhar com o novo governo.

A pior mentira veio quando Gomez disse: “Os bispos católicos não são atores partidários na política da nossa nação. Somos pastores responsáveis pelas almas de milhões de estadunidenses e defendemos as necessidades de todos os nossos vizinhos”.

Para ser claro, a declaração foi política, e não pastoral, e, além disso, Biden tem um pastor, e o seu nome é cardeal Wilton Gregory. Seu outro pastor é o bispo Francis Malooly, de Wilmington, Delaware. A Conferência não tem autoridade pastoral canônica em relação a Biden. O fato de Gomez se esconder atrás dessa fachada é uma tentativa de parecer apolítico, mas não foi convincente.

É impossível não detectar a influência do arcebispo Charles Chaput, o Viganò estadunidense, na declaração de Gomez. Em novembro, Chaput atacou Gregory sobre a questão de negar a Comunhão a Biden. Ele também tenta esconder seus ataques partidários por trás de uma cortina de solicitude pastoral. Ele também ignorou as grosseiras depredações de Donald Trump e cerca de 90% do ensino social da Igreja, só porque o ex-presidente concordava com os bispos sobre o aborto.

Na melhor das hipóteses, a declaração foi surda.

Acontece que alguns dos bispos também acharam a declaração destoante. Em um raro afastamento de uma frente episcopal unida, o cardeal Blase Cupich, de Chicago, emitiu a sua própria declaração:

“Hoje, a Conferência dos Bispos dos Estados Unidos emitiu uma declaração imprudente sobre o dia da posse do presidente Biden. Além do fato de que aparentemente não há precedentes nesse sentido, a declaração crítica ao presidente Biden veio como uma surpresa para muitos bispos, que a receberam poucas horas antes de ela ser divulgada”.

Palavras de combate. Cupich também disse que a declaração não havia sido discutida pela comissão administrativa da Conferência, que seria “a via normal para declarações que representem e tenham o devido endosso dos bispos estadunidenses”.

Eu tinha certeza de que a liderança da Conferência Episcopal trataria qualquer democrata de forma mesquinha. Mas eu acho que o que os deixa realmente loucos é o fato de perceberem, em algum nível inconsciente profundo, que Biden fez mais em 24 horas para lembrar ao povo estadunidense que a Igreja Católica pode ser uma força para o bem do nosso país do que a Conferência Episcopal em 10 anos.

Seu serviço memorial pelas vítimas da Covid-19 foi mais pastoral do que a repugnante declaração deles. O discurso inaugural de Biden foi uma articulação melhor das ideias católicas sobre governança do que qualquer documento recente da Conferência. Ele citou Agostinho para ajudar a unir o nosso país brutalmente dividido. Eles recorrem a citações que exacerbam a divisão. Biden se deixou enriquecer pela fé de outros, católicos e não católicos. Gomez parece preso em seu manual do Opus Dei.

Desejo encerrar minhas reflexões sobre a posse com um ovação a três coadjuvantes do drama do dia: um deles, uma católica; a outra, uma nova estrela; e o outro, um novo herói estadunidense. Se os bispos tivessem esperado para fazer a sua declaração ofensiva, eles poderiam ter moderado a sua indecência com o exemplo destes três estadunidenses.

Lady Gaga, que é católica, cantou o hino nacional e alcançou lugares bem distantes do parque. Quando ela chegou às palavras “nossa bandeira ainda estava lá”, ela se virou e olhou para a bandeira no topo do Capitólio dos Estados Unidos. Duas semanas antes, os insurrecionistas haviam invadido exatamente o local onde Lady Gaga estava cantando. Uma das batalhas mais acirradas entre a turba e a Polícia do Capitólio dos Estados Unidos aconteceu na porta arcada por onde os convidados da posse caminharam até os seus assentos. A turba queria destruir a democracia quando invadiram o Capitólio. Ele havia sido atacado pela última vez por tropas britânicas cujo ataque a Baltimore inspirou a redação do nosso hino nacional. No entanto, a bandeira ainda estava lá. Foi um momento poderoso, um momento redentor.

Amanda Gorman, a Poeta Juvenil Laureada Nacional, declamou um poema impressionante em sua energia e beleza. A postura de alguém tão jovem não poderia ter contrastado mais nitidamente com as imagens dos rudes e grosseiros apoiadores de Trump que contaminaram o Capitólio durante a insurreição. As palavras dela falavam de cura e, como um sacramento, realizavam aquilo que significavam. Gorman é uma estrela, e a sua performance na posse será lembrada por muitos anos, quando seus futuros esforços artísticos capturarem os nossos corações novamente. Ela pode não ser católica, mas agora penso nela como uma católica honorária.

No início da cerimônia, a vice-presidente, Harris, foi escoltada por Eugene Goodman, o oficial da Polícia do Capitólio cujo raciocínio rápido levou a multidão para longe da câmara do Senado no dia 6 de janeiro. Agora sabemos que a turba estava apenas a alguns metros e a alguns segundos do vice-presidente, Mike Pence, e sua família. Eles gritavam a sua intenção de enforcá-lo. A presença deste novo herói na posse também tinha uma qualidade redentora.

Para milhões de estadunidenses, a quarta-feira teve a sensação de uma grande libertação, o encerramento de um feio capítulo da história estadunidense, o feliz virar de uma página. Gaga, Gorman e Goodman ajudaram a recuperar o prédio que, há duas semanas, foi a cena de um crime. Mas Biden é o homem do momento, e a sua fé católica ficou evidente na forma como ele se levantou para enfrentar o momento. Os bispos podem não ter percebido isso. Eles podem ir procurar alguma coisa para fazer. A maioria de nós está profundamente grata porque esse homem bom e decente é agora o nosso presidente.

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