O que Joe Biden (e todos os católicos estadunidenses) devem ao jesuíta John Courtney Murray. Artigo de Massimo Faggioli

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21 Janeiro 2021

A relação entre Igreja e Estado em todo o mundo hoje é muito diferente daquela dos tempos do Vaticano II, mas Murray tem algo a dizer a uma comunidade católica cujo foco na questão da cultura – muitas vezes moldada como “guerras culturais” – não uniu, mas dividiu tanto a nação quanto a Igreja de uma forma que muitas vezes parecem ser irreparáveis.

A opinião é de Massimo Faggioli, historiador italiano e professor da Villanova University, nos EUA. O artigo foi publicado por America, 19-01-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Não é por acaso que um importante jesuíta dos Estados Unidos, o Pe. Leo J. O’Donovan, ex-reitor da Georgetown University, fez a invocação na posse do presidente Joseph R. B iden Jr., o segundo presidente católico na história dos Estados Unidos.

Nos últimos anos, particularmente durante o pontificado do Papa Francisco, a Companhia de Jesus tem sido a reserva mais importante e visível de poder intelectual e espiritual para o catolicismo global.

Mas esse também pode ser visto como um momento de déjà vu na história presidencial estadunidense. John F. Kennedy, o primeiro presidente católico, recebeu uma ajuda crucial do mais importante jesuíta estadunidense do século XX, John Courtney Murray, a fim de superar o “dedo da suspeita” contra os católicos na política – como Kennedy afirmou em seu discurso a um grupo de ministros protestantes em Houston, no dia 12 de setembro de 1960.

Neste contexto histórico, a eleição de Biden deve algo a Murray, assim como toda a Igreja Católica – nos Estados Unidos e em outros lugares.

Mas Murray e a sua obra não são mais tão conhecidos ou populares entre os católicos como costumavam ser.

Murray foi submetido a uma narrativa tradicionalista polêmica que vê nos tumultuados anos 1960 – incluindo o Concílio Vaticano II – o início da adaptação da Igreja ao liberalismo secular e o fim da verdadeira Igreja Católica. Mas também não devemos fingir que as críticas contra Murray vêm exclusivamente de círculos reacionários extremistas.

Sobretudo nas últimas duas décadas, houve outras vozes, intelectual e eclesialmente mais responsáveis do que as tradicionalistas, que criticaram a teologia pública de Murray .

Para alguns, o Murray que ainda vale a pena ser lido não é o teólogo do Vaticano II sobre a liberdade religiosa, mas sim o Murray dos anos 1940 – sobre a “cultura cristã”, como disse Charles Chaput, OFMCap, em um discurso em 2019, quando era arcebispo da Filadélfia.

Nesta conjuntura da história política e religiosa estadunidense, quando os perigos para a ordem pública da fusão entre a ideologia religiosa e o etnonacionalismo se tornaram aparentes, Murray tem algo a dizer para a Igreja Católica, que tenta recuperar um sentido de si mesma na praça pública.

No outono de 1964, Murray foi chamado – após quase uma década de silêncio imposto pelo Vaticano por causa dos seus estudos sobre a relação entre a Igreja e o Estado – a aconselhar o Concílio Vaticano II como um perito na redação daquela que se tornou em dezembro de 1965 a declaração conciliar Dignitatis Humanae (“Declaração sobre a liberdade religiosa”).

A mudança conciliar dos ensinamentos do “Sílabo dos Erros” (1864) de Pio IX e da Immortale Dei de Leão XIII (1885) para o ensino do Vaticano II em favor da liberdade religiosa não teria sido possível sem Murray e o catolicismo estadunidense. A obra de Murray mostrou o valor de uma abordagem indutiva ao status da Igreja em um mundo de pluralismo religioso e moral.

Murray entendeu a importância de enquadrar a recepção católica da Constituição estadunidense e as relações entre Igreja, Estado e sociedade em termos de paz. Em seu livro mais importante, “We Hold These Truths” (1960), o ano da eleição de Kennedy, Murray afirmou que o ensino da Igreja Católica sobre a liberdade religiosa é compatível com o modelo estadunidense de liberdade religiosa, que não faz distinção entre religião verdadeira e falsa, boa e má: “Não se pode, sem culpa moral, agir contra esses artigos de paz”, escreveu ele. A solução estadunidense não é um artigo de fé, mas sim “artigos de paz em uma sociedade pluralista”.

Uma das contribuições mais importantes de Murray que se perdeu nos defensores de um novo integralismo é o princípio da distinção entre Estado e sociedade, e a convicção de que o Estado é limitado no seu papel para com a sociedade. “O Estado é distinto da sociedade”, afirmou, e “o governo se submete ao julgamento por parte da verdade da sociedade; ele não é em si um juiz da verdade na sociedade”.

No momento presente, a suposição de Murray deve ser revisada: as nossas sociedades se tornaram mais pluralistas e mais seculares, enquanto as identidades políticas frequentemente se tornaram mais fortemente ligadas à crença religiosa. Ao mesmo tempo, a distinção de Murray entre governo e sociedade ainda é fundamental para a sobrevivência da Igreja em um mundo pluralista. O integralismo pressupõe a eficácia de uma religião oficial patrocinada pelo Estado na sociedade; mas as nossas sociedades estão se tornando mais pluralistas – um fato, não importa se se considera essa situação como ótima, subótima ou catastrófica.

Murray não era um relativista ingênuo. Em um ensaio de 1961, “O que pode unir uma nação dividida religiosamente?” (republicado em janeiro de 1962 no periódico The Catholic Mind com o título “O retorno ao tribalismo”), Murray falou sobre a necessidade de a igreja “se completar, não eclesiasticamente, veja bem, mas socialmente, criando uma ambiência, um ambiente que poderia ser chamado de sociedade cristã”.

Para Murray, não há como negar que uma sociedade política é normalmente incompleta sem algum vínculo espiritual de unidade: “A sociedade secular deve ter alguma substância espiritual que esteja por trás da ordem da lei, da ordem da moralidade pública e de todas as outras ordens e processos dentro da sociedade. E, se não houver tal substância espiritual na sociedade, então a sociedade está fundada sobre um vácuo; e a sociedade, assim como a própria natureza, abomina o vácuo e não pode tolerá-lo”.

Murray pedia uma cultura estadunidense que respeitasse as diferenças religiosas. Essas diferenças “não devem ser transcendidas em nome de alguma fé democrática secular comum e não devem ser reduzidas a algum denominador comum religioso”.

Ao mesmo tempo, Murray via, ainda no início dos anos 1960, a ameaça do tribalismo – um tribalismo criado pela necessidade de enfrentar o comunismo: “A tribo não pode lidar com o estrangeiro em quaisquer outros termos ou por quaisquer outros meios senão pelos da força e da violência. O ideal da tribo, é claro, é o ideal do guerreiro. A tribo é essencialmente um grupo fazedor de guerras”. Murray advertia que “o verdadeiro inimigo dentro dos portões da cidade não é o comunista, mas o idiota”.

Aqui, há ecos notáveis do conceito do Papa Francisco de um “paradigma tecnocrático” na encíclica Laudato sì'. Murray definia a “idiotice contemporânea” como “secularismo tecnológico”: “O idiota hoje é o secularista tecnológico que sabe tudo. Ele é o homem que sabe tudo sobre a organização de todos os instrumentos e técnicas de poder que estão disponíveis no mundo contemporâneo e que, ao mesmo tempo, não entende nada da natureza do ser humano ou da natureza da verdadeira civilização”.

Em seu ensaio de 1961 contra o tribalismo, Murray chamava a nação a se elevar “acima do nível de uma unidade tribal, acima da unidade do grupo fazedor de guerras”. Como fazer isso? Com os recursos de uma paideia moderna:

“Se todos esses recursos da razão forem reunidos e empregados, juntos eles serão capazes de elevar a nossa nação acima do nível de uma unidade tribal, acima da unidade do grupo fazedor de guerras. Eles serão capazes de elevá-lo acima do nível da unidade puramente mecânica, a unidade de uma ordem puramente tecnológica, e ao mesmo tempo, não terão a pretensão de formar entre nós uma unidade religiosa. Seu objetivo será simplesmente uma unidade civil; seu objetivo, se se quiser usar a outra expressão clássica, será simplesmente a criação da paz cívica. Mas eles serão capazes de nos constituir na nossa própria identidade como povo temporal, existente dentro da tradição liberal do Ocidente, uma tradição que é ao mesmo tempo racional e liberal, e liberal porque racional. Esse, meus amigos, não é um objetivo fácil.”

A relação entre Igreja e Estado em todo o mundo hoje é muito diferente daquela dos tempos do Vaticano II, mas Murray tem algo a dizer a uma comunidade católica cujo foco na questão da cultura – muitas vezes moldada como “guerras culturais” – não uniu, mas dividiu tanto a nação quanto a Igreja de uma forma que muitas vezes parecem ser irreparáveis.

Pode ser verdade que “o Pe. Murray entendeu errado a história dos católicos estadunidenses”, como afirmou o Dr. Michael Baxter na America em 2014. Afinal, descobrimos muitas coisas desagradáveis sobre a nossa identidade nacional e religiosa nos últimos anos. Também é possível que os críticos de Murray entendam errado a atual compreensão católica da relação entre Igreja e Estado.

Os acontecimentos dos últimos meses mostram que os católicos estadunidenses devem contribuir para reconstruir – inclusive dentro da Igreja Católica – um ethos e uma teologia da participação na praça pública. As guerras culturais surgiram de questões contenciosas da vida nas décadas de 1970 e 1980, mas, com o passar do tempo, elas também encorajaram um ataque à própria ideia de que a Igreja pode viver em uma sociedade multicultural e multirreligiosa.

Os apelos aos católicos para se unirem na democracia nem sempre encontram muito terreno fértil agora, depois de anos de ceticismo barato sobre as cuidadosas distinções exigidas dos católicos em uma democracia constitucional.

Uma geração de católicos foi treinada para pensar exclusivamente em termos de “valores inegociáveis” – uma noção que foi intelectual e espiritualmente um desastre e, às vezes, um estímulo ao extremismo. A Igreja Católica nos Estados Unidos começará a se curar quando aceitar a necessidade de pensar em termos de secularidade saudável – não apenas na relação entre Igreja e Estado, mas também na relação entre a ideologia religiosa e a realidade de um mundo que é e permanecerá plural.

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