Notas de uma viagem trinitária

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23 Janeiro 2021

“Sua longa reflexão sobre a Trindade é, portanto, antes de tudo uma contemplação paciente e maravilhada do mistério mais que uma investigação especulativa. Querendo estudar Deus de forma científica ou com categorias aristotélicas, corre-se o risco de reduzi-lo a um ... cadáver a ser dissecado”, escreve Bruno Scapin, em artigo publicado por Settimana News, 16-01-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Antonio Rranzolin, Verso Emmaus. Appunti di un viaggio trinitario, coll. Le Belle Lettere 53, Asterios Editore, Trieste 2020, pp. 620, € 26,00, ISBN 9-788893-131735.


627 páginas. Um número considerável para um livro como o que Antonio Ranzolin - durante muitos anos professor de religião e cultor da teologia ortodoxa - publicou com a editora Asterios. E é um texto exigente como já fica claro pelo subtítulo “Notas de uma viagem trinitária [em tradução livre]”. Porém ... quem começa a lê-lo, e o faz com a devida atenção, dado o tema, fica fascinado por uma abordagem inédita sobre o tema da Trindade. Não é um texto escolástico dedicado à dogmática, mas uma fascinante jornada pela teologia e espiritualidade da patrística grega antiga e contemporânea.
O autor define como “Notas” o conteúdo dos 19 capítulos do livro. Mas é uma definição decididamente modesta que não faz justiça à riqueza dessas páginas. Mais de seiscentas, como já lembramos. No entanto, o texto real, o texto básico, teria dimensões muito menores se ignorássemos a surpreendente abundância de notas. Sim, se poderia proceder à leitura sem se deter nas referências biográficas e bibliográficas e passar por cima das citações, mas se perderia a oportunidade de encontrar a preciosidade e a beleza dos textos que o Oriente teológico nos entregou.

Por que Antonio Ranzolin se empenhou em uma obra tão árdua que requer uma paixão pela verdade teológica, um excelente domínio da língua grega, uma paciente coletânea de escritos e documentos e uma busca meticulosa por citações apropriadas?

Ele explica isso no capítulo I, que começa com uma citação de Voltaire, que zombava do dogma trinitário. Seguido por Immanuel Kant, pelo qual a doutrina trinitária é "completamente inútil"; Corrado Augias, que considera a Trindade "um argumento muito complicado e bastante enfadonho ... um resíduo da teologia medieval"; Piergiorgio Odifreddi, segundo o qual "não se pode acreditar no que não se entende" e o dogma trinitário é de uma "irracionalidade literalmente incrível ... um delírio"; Richard Dawkins que lembra que “rios de tinta e sangue medievais foram desperdiçados para definir o 'mistério' da Trindade”; Thomas Jefferson que acredita que o ridículo seja a única arma contra as proposições ininteligíveis, e a Trindade é uma delas, ou seja, um "mero abracadabra".

O medo do autor é que mesmo um certo número de cristãos considerem "capciosa e complicada ... toda a problemática trinitária". Ele então cita o teólogo grego Giovanni Romanidis, que escreve em resposta a leituras similares: “Numa perspectiva filosófica, não há maior tolice do que falar de três hipóstases e uma única substância. Trata-se absolutamente de uma bobagem do ponto de vista da razão e da filosofia. Puro absurdo. Mas não do ponto de vista teológico”, isto é, da fé.

E para aqueles que pensam "sacudir a poeira do Deus inexistente da dogmática, para emigrar para a cidade do Deus da Bíblia", o autor lembra a afirmação peremptória de Romanidis: "Não há e não pode haver distinção entre teologia patrística (e, portanto, dogmática) e teologia bíblica ou hermenêutica: a teologia bíblica é a teologia patrística e a teologia patrística é a teologia bíblica”.

Antonio Ranzolin diz estar certo de que se podem encontrar termos “vitais” para falar da Trindade, “aquele mistério adorável que sempre permanecerá um mistério”, porque a Trindade é “a vida da nossa vida. Fomos criados pelo Deus trinitário e para o Deus trinitário: a Trindade se inscreve, assim, no DNA do nosso ser homens”. Sem esquecer que, na pátria trinitária, também reencontraremos a nós mesmos: a glória de ser homens. Ou seja, a glória de finalmente termos nos tornado o que somos: deiformes”.

Começa assim um longo percurso em torno do mistério do "Deus trissolar", em que o autor imagina estar a caminho de Emaús na companhia de Cléofas, um dos dois discípulos lembrados pelo evangelista Lucas, e junto com o misterioso Viajante capaz de iluminar o coração. E é com Cléofas que o autor compartilha suas emoções interiores a cada oportunidade, muitas vezes no final de cada capítulo, para enfatizar a superabundância de luzes que vêm do mistério contemplado.

O autor nos oferece uma agradável surpresa no início de cada capítulo, apresentando algumas figuras proeminentes da teologia dos primeiros séculos da Igreja que atuam como uma overture para a reflexão sucessiva: assim Gregório Palamas nos introduz ao capítulo 2, onde claramente parece que a especulação teológica deve brotar de uma atitude de profunda oração.

Máximo, o Confessor, apresentado no início do capítulo 3, é apontado como ferrenho defensor da ortodoxia, disposto a sacrificar sua vida para não renegar a verdade.

Mais tarde, conheceremos Basílio de Iviron, João Crisóstomo, Nikolaos Loudovikos, Melitão de Sardis, Justino, Clemente de Alexandria, Atanásio, Basílio o Grande, Irineu, Gregório de Nazianzo, Giovanni Romanidis.

Atenção especial é dedicada a São João Damasceno porque ele aplicou o termo "pericorese" à teologia trinitária. O autor coloca como subtítulo do capítulo XV "A dança triádica". A "pericorese" indica de fato a interpenetração mútua e necessária das três pessoas divinas com base na única essência divina. O Pai, o Filho e o Espírito Santo "movem-se um no outro", isto é, eles se pertencem um ao outro.

Os capítulos fundamentais em que se reflete expressamente sobre as três pessoas divinas (o Pai, o Filho e o Espírito Santo) são introduzidos respectivamente por Dionísio o Areopagita, Justin Popović e Simão o Novo Teólogo.

É a maior parte do texto e é escrita com lirismo apaixonado. As notas transbordam de citações de rara beleza.

O Pai é invocado como "seio fecundo", "causa eterna de hipóstases eternas". Ele é "incausado", "imprincipiado”, "ingerado".

O Filho, é de "inprincipiada Raiz o inefável Germe", é chamado e reza-se a ele como o "Logos consubstancial".

O Espírito Santo, "o companheiro indiviso do Logos" e com ele "conatural", "consubstancial", "co-imprincipiado", "co-reinante", "co-adorato" e "co-glorificado" ocupa (e não poderia ser de outra forma) uma parte conspícua do toda a abordagem.

Além de se rezar a ele como "divino Pneuma", é o Paráclito que santifica, fala, comanda, decide, tem vontade, avisa, co-testemunha, intercede, distribui e avalia. O Espírito é indissociável do Pai e do Filho e procede do Pai como por uma única causa.
O autor está ciente de que “vamos enlouquecer se quisermos espreitar os mistérios de Deus” (Gregório de Nazianzo) e que Efrém, o Sírio, tem razão quando diz: “Ama a bondade do Pai, mas não investigues a sua essência. Ama e aprecia a mansidão do Filho, mas não investigue sua geração. Ama o sopro do Espírito Santo, mas não tente sondá-lo ... Seu nome pondera, portanto, mas não investigue suas personalidades. Se você quer espreitar sua essência, você estará perdido”.

Sua longa reflexão sobre a Trindade é, portanto, antes de tudo uma contemplação paciente e maravilhada do mistério mais que uma investigação especulativa. Querendo estudar Deus de forma científica ou com categorias aristotélicas, corre-se o risco de reduzi-lo a um ... cadáver a ser dissecado. A visão ortodoxa privilegia a teologia como vida mais do que "ciência". Nikos Nissiotis afirma que a verdadeira teologia começa quando a teologia como ciência é superada e abandonada. Nesse ponto, a teologia se torna visão, confissão, doxologia, eucaristia, martyria; numa palavra: vida, porque "teologar em torno de Deus" significa viver com Deus, para Deus e segundo Deus. É a convicção dos Padres que "se oras realmente, és teólogo" (Nilo Asceta). O teólogo - escreve G.S. Romanidis - não é “aquele que se forma em teologia, mas sim aquele que é julgado digno de ver Deus”. É por isso que a teologia ortodoxa é caracterizada por fortes acentos místicos.

Um aplauso merecido ao autor e editor desse livro.

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