O vínculo entre os ministérios diaconais e as religiosas. Artigo de Phyllis Zagano

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15 Janeiro 2021

Já que as religiosas desempenham tantas tarefas e deveres diaconais, por que elas não podem ser ordenadas diáconas? A vocação específica para o diaconato ordenado não é uma substituição para a vida religiosa, nem é uma substituição para o sacerdócio. Mas, assim como com o sacerdócio, o diaconato ordenado pode coexistir com a vida religiosa.

O comentário é da teóloga estadunidense Phyllis Zagano, pesquisadora associada da Universidade Hofstra, em Hempstead, Nova York. É autora, em português, de “Mulheres diáconas: passado, presente, futuro” (Paulinas, 2019).

O artigo foi publicado em National Catholic Reporter, 14-01-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.

Em maio de 2016, o Papa Francisco respondeu a uma pergunta feita na assembleia trienal da União Internacional das Superioras Gerais (UISG): se as religiosas já desempenham os vários ministérios dos diáconos, por que não formar uma comissão para estudar a restauração das mulheres ao diaconato?

O papa respondeu imediatamente, nomeando 12 estudiosos no mês de agosto seguinte para a Comissão para o Estudo do Diaconato das Mulheres, que se reuniu em Roma quatro vezes e devolveu um relatório em junho de 2018. O papa entregou uma parte do relatório à liderança da UISG em sua assembleia em maio de 2019. Até agora, ele não foi publicado.

Depois, em outubro de 2019, surgiu a mesma pergunta, desta vez no Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazônica. Se quase dois terços dos grupos paroquiais são administrados por religiosas lá, por que não instalar mulheres como leitoras e acólitas, e compartilhar o apoio do Sínodo às diáconas com a comissão?

Mais uma vez, Francisco concordou, dizendo que reconvocaria a comissão, talvez acrescentando dois ou três novos membros. Depois, em abril de 2020, ele nomeou um grupo inteiramente novo para estudar a questão. Esta segunda comissão ainda não se reuniu, mas se espera que ela comece seus trabalhos em algum momento em 2021. Será a quarta ou quinta iteração da comissão de estudos sobre o mesmo tema desde o início dos anos 1970. Nenhuma delas recomendou algo contrário às diáconas.

Questões específicas surgem quando se consideram as religiosas no diaconato ordenado. Embora nas Igrejas ortodoxas a questão das diáconas não seja debatida – as mulheres, e especialmente as mulheres monásticas, são e foram ordenadas diáconas –, o Ocidente de rito latino debateu a questão por centenas de anos. O estudo acadêmico é um acréscimo às quatro ou cinco comissões modernas que concordaram uniformemente que as diáconas existiam na Igreja primitiva, no Oriente e no Ocidente.

Algumas diáconas eram religiosas, algumas eram casadas, algumas eram solteiras, algumas eram viúvas. Mas foi a UISG quem levou a questão diretamente ao papa. Mesmo assim, nem todas as religiosas buscam a ordenação como diáconas, e com razão. A vocação específica para o diaconato ordenado não é uma substituição para a vida religiosa, nem é uma substituição para o sacerdócio. Mas, assim como com o sacerdócio, o diaconato ordenado pode coexistir com a vida religiosa.

Embora não haja nenhuma garantia de que Francisco mudará o direito canônico para permitir que as mulheres sejam restauradas a esse ministério ordenado, esta série de artigos procura examinar as questões mais frequentemente levantadas pelas religiosas sobre a possibilidade de elas serem ordenadas diáconas ou sobre a possibilidade de as diáconas ingressarem em institutos e ordens religiosos.

Por que religiosas como diáconas?

Por que a UISG pediu um estudo sobre as diáconas? As religiosas não são diáconas, mas muitas religiosas assumem as tarefas e os deveres do diaconato. As irmãs da UISG indicaram isso claramente a Francisco quando pediram o estudo (e, consequentemente, a consideração dele) sobre as diáconas em 2016, e os comentários delas foram apoiados pelo Sínodo para a Amazônia em 2019.

Membros, observadores e peritos do Sínodo dos Bispos para a Amazônia se reúnem em um grupo de trabalho no dia 10 de outubro de 2019, na Sala do Sínodo no Vaticano. Alguns dos grupos propuseram a ordenação de homens casados ao sacerdócio e o desenvolvimento de ministérios oficiais para as mulheres na Igreja, possivelmente incluindo o diaconato (NCR/CNS/Vaticano Media)

Se olharmos para a história, podemos localizar épocas e culturas específicas em que se formaram institutos religiosos para atender às necessidades urgentes (e claramente diaconais) do povo de Deus. Por quê? Durante a Idade Média, o diaconato se tornou cada vez mais cerimonial à medida que a classe presbiteral assumia a administração do tesouro da Igreja. O ministério ao povo gradualmente, mas crescentemente, centrou-se no sacramento e na cerimônia. O diaconato esmaeceu e, exceto como ofício cerimonial, praticamente desapareceu no século XII.

O Concílio de Trento (1543-1563) tentou sem sucesso restaurar o diaconato como uma vocação ministerial permanente. Ao longo dos séculos que se seguiram, a ausência de um diaconato em funcionamento contribuiu para o desenvolvimento da vida religiosa apostólica para atender às necessidades dos pobres e dos desfavorecidos.

O crescimento exponencial das ordens e institutos religiosos ao longo dos séculos entre Trento e o Concílio Vaticano II demonstra as necessidades contínuas do povo de Deus. Os institutos apostólicos femininos se formaram especialmente para atender a necessidades específicas em tempos específicos em territórios específicos, embora muitos deles tenham se expandido para além dos seus locais de fundação, para assumir trabalhos em lugares distantes.

No entanto, à medida que os institutos apostólicos se desenvolveram e cresceram, eles se tornaram amplamente distintos da estrutura diocesana e especialmente separados das finanças diocesanas. De fato, os institutos religiosos apostólicos (papais e diocesanos) são basicamente autofinanciados.

Essas ordens e institutos masculinos, que incluem clérigos, encontram oportunidades de emprego para seus membros nas estruturas diocesanas, especialmente nas paróquias, além das suas obras de educação, serviço social e empreendimentos de caridade por iniciativa própria.

No entanto, os institutos apostólicos femininos frequentemente desenvolvem e administram seus ministérios de forma independente. Embora muitas religiosas possam encontrar emprego em entidades diocesanas, elas são empregadas sem qualquer ligação ministerial ou faculdade recebida do bispo. Elas podem trabalhar dentro das estruturas diocesanas, especialmente dentro dos sistemas escolares, mas sua remuneração em muitos países é frequentemente mínima e, ao contrário dos párocos, elas não recebem moradia e alimentação gratuitas. Seja como membros de institutos diocesanos ou papais, as mulheres também não têm garantias em relação a qualquer forma de apoio do bispo.

O Direito Canônico afirma que os diáconos casados “que se entregarem plenamente ao ministério eclesiástico, merecem uma remuneração com que possam prover à sua sustentação e à da família” (cânone 281.3). As palavras-chave aqui são “plenamente ao ministério eclesiástico”. Espera-se que os diáconos que são empregados de meio turno ou voluntários em uma dada entidade diocesana ou paróquia sustentem a si mesmos e a suas famílias por meio do seu emprego pessoal.

Diferentes dioceses apresentam diferentes esquemas de remuneração para os diáconos, mas muitas oferecem retiros e encontros educacionais, além do reembolso das suas despesas ministeriais. Em muitas dioceses, as “taxas religiosas” recebidas por testemunhar casamentos, realizar batismos e oficiar funerais devem ser devolvidas à paróquia.

Mas as religiosas provêm seu próprio dinheiro para seus retiros e reuniões educacionais, assim como para suas necessidades pessoais e para as necessidades das suas comunidades.

Urgência da restauração das mulheres ao diaconato

Para além da questão da remuneração, ao pedirem uma consideração sobre a restauração das mulheres ao diaconato ordenado, os membros da UISG reconheceram que o status clerical carrega consigo a conexão mais formal com a vida sacramental e ministerial da Igreja. Ministras seculares, associadas pastorais, catequistas e empregadas diocesanas, inclusive as de várias Igrejas ortodoxas, têm reconhecido o mesmo. Consequentemente, os apelos pela restauração das mulheres ao diaconato ordenado se tornaram cada vez mais urgentes durante os últimos 50 anos ou mais.

Coincidentemente, os últimos 50 anos viram uma combinação de sínodos locais e universais que discutiram a questão das diáconas, junto com repetidas iterações de comissões papais e de subcomissões da Comissão Teológica Internacional.

Portanto, o pedido da UISG de maio de 2016 de uma comissão para estudar as diáconas deve ser visto no contexto da trajetória crescente de discussão formal e informal moldada por questões de justiça para aqueles que ministram, assim como para aqueles que são ministrados. A discussão nunca se centrou diretamente nas religiosas, ou nas religiosas que se tornaram diáconas, até que os membros da UISG apresentaram a ideia a Francisco.

A pergunta mais urgente apresentada pela UISG está enraizada no seguinte fato: já que as religiosas desempenham tantas tarefas e deveres diaconais, por que elas não podem ser ordenadas diáconas? A lógica delas é a mesma dos Círculos Diaconais formados na Alemanha após a Segunda Guerra Mundial, que acabaram se tornando o ímpeto para restaurar o diaconato como vocação permanente para homens seculares, casados ou celibatários.

Em 1951, um grupo de jovens assistentes sociais se uniu para formar o primeiro Círculo Diaconal em Friburgo, na Alemanha. Eles publicaram seus “documentos de trabalho” de 1952 até 1966, época em que o Concílio Vaticano II estava avaliando seriamente a restauração do diaconato como vocação permanente.

Durante os anos seguintes, outros Círculos Diaconais cresceram na Alemanha, França, Áustria e América Latina, que se uniram para formar o Círculo Diaconal Internacional, com sede em Friburgo. Em 1962, eles fizeram um abaixo-assinado aos bispos do Vaticano II, pedindo que o diaconato fosse restaurado como vocação permanente.

Quando surgiu a questão da restauração do diaconato como vocação permanente, alguns membros do Concílio manifestaram objeções semelhantes àquelas expressadas agora contra a restauração das mulheres ao diaconato. Dois cardeais, o arcebispo de Colônia Josef Frings (1887-1978) e o cardeal francês André-Damien-Ferdinand Jullien (1882-1964), então decano emérito da Rota Romana, a “Suprema Corte” da Igreja, expressaram preocupação sobre como a restauração poderia afetar o apostolado leigo. Tal como acontece com a questão das mulheres no diaconato hoje, o fato de que muitas funções diaconais eram então desempenhadas por leigos foi apresentado como uma razão para não ordenar homens à vocação permanente de diácono.

Mas então como agora, o fato de muitos leigos estarem desempenhando o ministério diaconal é uma razão suficiente para identificar mais pessoas – homens e mulheres – que possam ter vocações para a ordem diaconal. Como observou o Vaticano II, esses ministros seriam fortalecidos pela graça e pelo carisma da ordenação diaconal, um ponto que foi enfatizado pelo cardeal Leo Joseph Suenens (1904-1996), então arcebispo de Mechelen-Bruxelas, e que permanece como parte da atual discussão.

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