Injustiças socioambientais na travessia do ano de 2020 para 2021. Artigo de Vilmar Alves Pereira

Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real

06 Janeiro 2021

"Desejo um 2021 com maior confiança e fé na justiça socioambiental, muita força em nossas lutas, resistência e esperança permanente, o desenvolvimento de práticas em favor da vida e alternativas com investimento em Pedagogias e Éticas do cuidado. Quem sabe com isso possamos estar realizando uma Transição Ambiental rumo a um mundo com mais vida", escreve Vilmar Alves Pereira, filósofo, doutor em Educação pela Universidade do Rio Grande do Sul, professor Colaborador da Universidade Internacional do Cuanza – Angola.

 

Eis o artigo.

 

O final do ano chegou sem que a pandemia da Covid19 desse trégua. Desse modo, atingimos novamente a marca de 1.000 mortes por dia no Brasil num dezembro onde tive a impressão de que não queria mais acabar. No esforço hermenêutico compreensivo do tempo presente dediquei algumas horas para fazer uma breve avaliação do ano de 2020 e elejo a temática geradora das injustiças socioambientais como uma das mais recorrentes no ano que findou.

 

A noção de injustiças socioambientais toma por referência o conceito de Justiça Ambiental de ACSELRAD (2005, p.223) quando afirma que:

 

A Justiça Ambiental é uma noção emergente que integra o processo histórico de construção subjetiva da cultura dos direitos no bojo de um movimento de expansão semântica dos direitos humanos, sociais, econômicos, culturais e ambientais. Na experiência recente, a justiça ambiental surgiu da criatividade estratégica dos movimentos sociais, alterando a configuração de forças sociais envolvidas nas lutas ambientais e, em determinadas circunstâncias, produzindo mudanças no aparelho estatal e regulatório responsável pela proteção ambiental.

 

Capa do livro O que é justiça ambiental, de Henri Acselrad (Foto: Divulgação/Amazon)

 

De modo geral trata-se de uma concepção mobilizadora na luta pela defesa radical da vida e todas as opressões que buscam de algum modo mitigar e ameaçar as potencialidades da existência humana e não humana. Desse modo, em minha retrospectiva retrocedo a eventos do contexto Pré-Covid19 que desde muito já são causadores de muitas injustiças socioambientais, mas que, no entanto, são agravadas nesse contexto da pandemia e do governo Bolsonaro a saber: o acirramento da crise socioecológica, o aumento da exploração humanidade-natureza pelas inúmeras práticas predatórias com destaque a mineração, liberação de agrotóxicos, mudanças na legislação fundiária visando fatiar não apenas a Amazônia mas também os demais territórios, conivência com a práticas de grilagem, culpabilização dos povos das florestas, caboclos, indígenas, quilombolas, pescadores artesanais, comunidades ribeirinhas, povos das periferias, aumento do feminicídio, racismo ambiental e institucional, encolhimento democrático e negacionismo. Todas essas injustiças no contexto de um sistema capitalista de descuido e de destruição da vida.

 

 

As injustiças socioambientais vêm sendo mais gritantes nos últimos anos em diferentes espaços institucionais. Fizemos essa denúncia coletiva na obra Ontologia da Esperança: a Educação Ambiental em tempos de crise publicada em fevereiro de 2020. Posteriormente, a reforcei, num ensaio Educação Ambiental e Luta por Justiça Socioambiental na América Latina: Tempos Extremos que integra o primeiro capítulo da obra O que será o Amanhã? A Educação Ambiental na América Latina e Caribe, a Justiça Ambiental e o Covid-19.

 

Em aspectos amplos, as injustiças socioambientais vêm cotejadas por outros motores mobilizadores que por vezes ameaçam, por outras aniquilam a vida. Estou falando das opressões de todos os matizes que estão na raiz das injustiças socioambientais. Durante esse ano, me preocupei em investigar melhor como funcionam as ontologias opressoras. São modos de ser necrófilos que buscam roubar nossa humanidade. Quanto as suas estratégias, possuem orientação a partir da mesma racionalidade denunciada por Weber e Adorno, como Racionalidade Instrumental Estratégica em cujo horizonte está o aumento do lucro e o aumento do poder. Nessa sede de manutenção do poder, o opressor (a) utiliza-se com muita frieza de estratégias onde se almeja esvaziar o oprimido do seu sentido existencial, como nos ensinou Paulo Freire. É por isso que essas ontologias não sabem lidar bem com as potencialidades vitais e se configuram em modos de ser orientados por práticas necrófilas.

 

 

Esses movimentos podem ser percebidos no racismo estrutural e institucional onde incomodado com a presença do diferente, o opressor não o aniquila, mas busca esvaziar o seu sentido. O racismo cada vez mais explícito e brutal para com pessoas negras, o aumento de violência contra mulheres, os ataques constantes a população LGBTTQI+, a poluição das águas, a fragilização da agricultura familiar e demais expressões da questão socioambiental, onde é percebível que a covid-19 é apenas mais uma das patologias socioambientais desta crise socioecológica.

 

Percebo também no negacionismo que não se sensibiliza pelo valor da vida e coloca a economia como um a priori numa competição desigual pois é a vida que está em jogo. Vivenciamos isso cotidianamente nesses dez meses de pandemia. Também vivenciamos nas tentativas de liberação de legislação com intuito de “passar a boiada” em garantias conquistadas com muitos anos de luta. As queimadas, as culpabilizações de professores (as), a diminuição de recursos em editais para o campo de pesquisa das ciências humanas, a protelação de uma política clara para vacinar a população são apenas algumas das faces das injustiças socioambientais.

 

 

Outra grande expressão das referidas injustiças na conjuntura da Pandemia da Covid19 está no aumento da exclusão e da miséria. A experiência até aqui demonstrou o agravamento desse quadro. Os dados da Comissão Econômica para América Latina e Caribe (CEPAL) apontam para o número de pobres próximo a 300 milhões na América Latina e Caribe. Os estudos (SATO, et, al, 2020) também demonstraram a injustiça de um sistema onde os mais excluídos estão sofrendo mais na pandemia.

 

dados da Comissão Econômica para América Latina e Caribe (CEPAL) apontam para o número de pobres próximo a 300 milhões na América Latina e Caribe (Foto: Agência Brasil/Macello Casal)

 

A questão que emerge consiste em perguntar como podemos enfrentar as injustiças socioambientais? Nesse sentido vislumbro o caminho da resistência e esperança. Resistência no sentido de muita luta em pegarmos de volta a humanidade e dignidade que as ontologias opressoras buscam nos roubar. Trata-se de um esforço e luta permanente em não permitir que o opressor (a) esvazie de sentido a nossa existência. Existência essa que está para além das instituições. Ou seja, vivemos e convivemos para além desses embates. A categoria resistência se pauta numa outra escala valorativa, diferente do opressor (a), se faz num movimento potencializador da vida, humanizador e libertador. Se reforça na busca da verdade e da justiça socioambiental, na defesa dos excluídos de todos os matizes.

 

Entendo que essa resistência, crítica, militante abre possibilidades de conscientização e luta cujo horizonte está na busca de uma Ontologia da Esperança. Essa ontologia, busca preencher esse vazio existencial criado pelo opressor (a). Essa esperança militante, amplia o sentido de nossa ação e papel no mundo, da nossa vocação existencial, que não deve ceder ao pessimismo e a desesperança.

 

Desse modo, também entendo que temos muitas lutas de resistência e esperança no 2021 que se aproxima. Algumas frestas de esperança podem ser vislumbradas em nossa janela da vida. Destaco aqui a mudança de governo na Bolívia e nos Estados Unidos, aprovação da constituinte no Chile, o êxito do Uruguai e de Cuba em salvar vidas no contexto da Pandemia, o despertar de muitos brasileiros para a necessidade de maior cuidado com a vida, o convite do Papa Francisco para o reconhecimento da Fraternidade Universal e a chegada da vacina em países vizinhos.

 

Assim desejo um 2021 com maior confiança e fé na justiça socioambiental, muita força em nossas lutas, resistência e esperança permanente, o desenvolvimento de práticas em favor da vida e alternativas com investimento em Pedagogias e Éticas do cuidado. Quem sabe com isso possamos estar realizando uma Transição Ambiental rumo a um mundo com mais vida.

 

Referências

ACSELRAD, Henri. Justiça Ambiental: Narrativas de Resistência ao Risco Social Adquirido In.:_____. Encontros e Caminhos: Formação de Educadoras (es) Ambientais e Coletivos Educadores. Brasília: MMA. (2005).

CEPAL, Comissão Econômica para América Latina. A região tem subestimado a desigualdade. Disponível em: https://www.cepal.org/pt-br/comunicados/cepal-regiao-tem-subestimado-desigualdade. Acesso em novembro de 2020.

PEREIRA, Vilmar Alves. Como está sendo o agora: aprendizagens na travessia da pandemia da COVID-19. 1. ed. Campina Grande: AMPLLA, 2020. v. 1. 96p. PEREIRA, Vilmar Alves. ¿Qué será mañana?: Educación ambiental en américa latina y caribe, justicia ambiental y covid-19. 1. ed. Juiz de Fora: Garcia, 2020. v. 1.

PEREIRA, Vilmar Alves. O que será o amanhã? Educação ambiental na América Latina e Caribe, justiça Ambiental e COVID-19. 1. ed. Juiz de Fora: Garcia, 2020. v.1. 119p.

PEREIRA, Vilmar Alves; MADEIRA MALTA, Márcia Cristina Souza (Org.). Ontologia da Esperança: a Educação Ambiental em tempos de crise. 1. ed. Juiz de Fora: Editora Garcia, 2020. v. 1. 183p.

SATO, MICHELE AMORIM, A. G. SILVA JUNIOR, A. A. MELLADO, B. Y. FERREIRA, C. R. SOUZA, C. F. S. PEDROTTI-MANSILLA, D. E. SANTOS, D. L. M. S. AMORIM, D. A. R. WILLMS, E. E. VALLES, E. A. BERTIER, F. L. NORA, G. GOMES, G. R. N. S. TAMAIO, Irineu SOUZA, J. P. T. REIS, K. F. M. SILVA, M. L. AMORIM, P. M. RAMOS, R. B. SILVA, Regina SIMIONE, R. M. JALES SENRA, Ronaldo Eustáquio Feitosa NARDI, T. C., et al. Os condenados da pandemia. 1. ed. Cuiabá: GPEA Sustentável, 2020. v. 1. 157p

 

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