O contraste persistente de Roma com as mulheres

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05 Janeiro 2021

"A sociedade civil admite, promove, incentiva as mulheres em todas as funções: chefe de Estado, ministro, parlamentar, juiz, médico, advogado, engenheiro, executivo de empresa e até oficial. O sexismo é condenado na sociedade, assim como o racismo e a homofobia", escreve Jacques Neirynck, professor emérito da École Polytechnique Fédérale de Lausanne e ex-conselheiro nacional do Partido Democrata Cristão, da Suíça, em artigo publicado por Baptisés, 03-01-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Entre as questões que dividem os católicos, o Papa Francisco operou uma abertura prudente em três temas de contestação: homossexualidade, ordenação de homens casados, acolhimento de divorciados novamente casados. Por outro lado, seu fechamento sobre a situação das mulheres é absoluto. Concorda com as mulheres "ativas" na Igreja Católica, mas absolutamente não com as mulheres sacerdotes. O papa compara o recurso do aborto como um assassinato a pagamento. A abertura para a vida das relações sexuais é uma condição do sacramento do matrimônio. Essas três posições têm uma mesma base: as mulheres não têm direito à distinção entre sexualidade e reprodução, não são senhoras de seu corpo, não dispõem dos mesmos direitos que os homens.

A continuidade das posições dos últimos papas sobre este tema particular é impressionante. O que o Papa Francisco realmente pensa? Nunca se saberá, porque a motivação permanente no tema consiste em não desautorizar os antecessores. Sem invocar expressamente a infalibilidade, a tendência consiste em acreditar-se um pouco infalível em tudo. Significa acreditar que, se um papa questionasse o que foi dito antes dele, provavelmente toda a credibilidade do Magistério entraria em colapso. Em vez disso, é o contrário: a força de uma instituição está no reconhecimento dos erros do passado, porque toda instituição humana comete erros e a Igreja Católica não possui garantia celestial de verdade absoluta.

Ainda assim, o terceiro tema, a contracepção, poderia ter sido facilmente corrigido sem escandalizar. Para a contracepção, não há envolvimento de dogma, nem de moral, nem das Escrituras, mas de uma certa concepção sacralizada da Natureza. Conhecemos as circunstâncias da promulgação da encíclica Humanae Vitae por Paulo VI em 25 de julho de 1968, contra a opinião da maioria da comissão designada para seu estudo. “É absolutamente de excluir, como via legítima para a regulação dos nascimentos, [...] toda ação que, em previsão do ato conjugal, ou no desenvolvimento das suas consequências naturais, se proponha [...] impedir a procriação". A encíclica Humanae Vitae, reduzida à mera proibição da pílula, não foi compreendida e foi rejeitada pela maioria dos casais católicos e até mesmo pelo clero, que nunca a menciona. Tornou-se letra morta porque o sensus fidei a rejeita, por razões muito concretas, quase práticas: numa cidade grande é difícil criar mais de dois ou três filhos, nem que seja pelo preço das moradias. A contracepção não é uma perversão, mas uma necessidade. É igualmente utópico explicar a uma população que continua a consumir pílulas, que uma delas constituiria ocasião de pecado.

A condenação do aborto, sem exceção, alinha o Vaticano com a posição de Donald Trump e em relação aos regimes polonês e maltês, cuja orientação política deixa a desejar. Essa coabitação coloca a condenação sob uma luz sulfurosa.

Mas é a recusa obstinada em ordenar mulheres que causa o maior escândalo. A sociedade civil admite, promove, incentiva as mulheres em todas as funções: chefe de Estado, ministro, parlamentar, juiz, médico, advogado, engenheiro, executivo de empresa e até oficial. O sexismo é condenado na sociedade, assim como o racismo e a homofobia. As igrejas reformadas e anglicanas conferem o ministério pastoral, e até mesmo episcopal, às mulheres. E elas desempenham todas essas funções muito bem.

A recusa das Igrejas Católica e Ortodoxa se deve mais à tradição do que ao pragmatismo. Manifesta uma falha machista peculiar aos latinos e eslavos, ao contrário dos germânicos e anglo-saxões. Tem estreita relação com a sacralização dos ritos, conferidos ao padre como "figura de Cristo" e "portanto" do sexo masculino. Em última análise, é uma manifestação abusiva daquele clericalismo tão estigmatizado pelo Papa Francisco.

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