A pobreza é um mal quando não é um estilo de vida. Entrevista com Erio Castellucci

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14 Dezembro 2020

Na segunda-feira, 7 de dezembro, o Papa Francisco também o nomeou bispo da Diocese de Carpi, na Itália. Até aquele dia, Erio Castellucci era “apenas” arcebispo de Modena-Nonantola, presidente da Comissão Episcopal para a Fé, o Anúncio e a Catequese, consultor da Congregação para o Clero da Santa Sé.

A entrevista é de Annachiara Sacchi, publicada no caderno La Lettura, do jornal Corriere della Sera, 12-12-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Além de tudo isso, Dom Erio – que prefere ser chamado de Pe. Erio – é autor de um livro que provoca e provocará discussão, que chega em um momento em que a Igreja é sacudida por escândalos econômicos e financeiros, em que a pandemia tirou de muitos o trabalho, os meios de sobrevivência, a dignidade. Ele se intitula “Benedetta povertà?” [Bendita pobreza?], publicado pela Emi.

Eis a entrevista.

Por que bendita?

Eu poderia tê-lo intitulado de “Maldita pobreza?”, e o sentido não mudaria. É uma provocação sobre Igreja e dinheiro.

Como nasceu a ideia do livro?

Por ocasião da beatificação de Olinto Marella (1882-1969), no dia 4 de outubro passado. Quem o viu mendigando no centro de Bolonha, não imaginava que, debaixo das vestes miseráveis daquele padre, escondia-se um plurigraduado, ex-professor, tradutor de latim e grego, empenhado em socorrer os pobres e os abandonados, principalmente os jovens. Quando se fala de pobreza, tende-se a confundir, enquanto ele dizia: “Amar a pobreza em nós e nos outros; não temê-la, não fugir dela nos outros e em si; não fazê-la desertar, mas socorrê-la”.

Então, esclareçamos: a pobreza deve ser amada ou socorrida?

Há uma pobreza a ser escolhida, há uma a ser combatida e há outra a ser resgatada. Escolhe-se a pobreza como estilo de vida, a sobriedade contra a prepotente necessidade de acumular bens. Combate-se a indigência que impede de viver com dignidade, como disse Bento XVI, que ofende a igualdade e ameaça a convivência pacífica. E, depois, luta-se pela fraternidade, no sinal do resgate. Assim como faz Jesus, que encontra os ricos e não os convida simplesmente a abandonar os seus bens, mas sim a transformá-los em ajuda aos pobres.

Qual pobreza lhe assusta mais?

Recuar diante da injustiça, a indiferença em todos os níveis: são atitudes que derivam da pobreza do coração. E levam àquele que parece ser o pecado mais grave do Evangelho, a falta de partilha.

De quê?

Dos bens primários, materiais, relacionais e, portanto, também espirituais: do alimento com quem tem fome, da água com quem tem sede, da casa com quem é estrangeiro, da roupa com quem está nu, do cuidado com quem está doente, do tempo com quem está encarcerado. É preciso mais partilha, não mais pobreza. Se prestarmos atenção no mundo hoje, não há carência de bens, mas sim de uma justa distribuição deles.

Você não teme que o seu livro seja lido e visto como um manifesto político, senão populista?

Por trás da palavra populismo, há muitos conteúdos, que ao longo dos anos se desenvolveram de forma diferente, passando pelo “nós” da ideologia ao “eu” de hoje. Mas acredito que, na base, sempre está a mesma coisa, isto é, a busca do consenso. Portanto, o populismo, seja de direita ou de esquerda, velho ou novo, é sempre igual. Além disso, o papa também é acusado de populismo, quando, em vez disso, ele segue o Evangelho: Jesus pede para se desapegar dos bens para ajudar os pobres.

No entanto, o cristianismo não condena os bens.

Os bens são o meio, nunca o fim. Como na parábola do jovem rico: “Vai, vende o que tens e dá aos pobres”. Como em São Francisco: o seu chamado não é à pobreza radical, mas um serviço à Igreja. Ele aplica o conceito de fraternidade, dá origem à ideia de “Monte de Piedade”, um microempréstimo em contraste com a usura. Repito: o inimigo não é o bem em si mesmo. Os discípulos de Jesus são incitados não a se tornarem miseráveis, mas sóbrios. A questão é abraçar o essencial.

É difícil de fazer, especialmente com a explosão da pandemia que empobreceu os italianos, também a classe média.

Sim, na diocese, estamos estudando as consequências da Covid. Os sinais não são bons: nos agarramos aos bens materiais, tememos perder o emprego e os subsídios, assistimos a um novo encurvamento sobre as nossas necessidades, o “eu” se torna o centro de tudo, em vez do “nós”.

Maldita pobreza, então. Ou não?

Ou sim, aquela que expressa miséria, que se mistura com a material e se torna afetiva, espiritual e rebaixa o nível de humanidade. Por isso, além dos recursos materiais, tentamos dar também os recursos pastorais.

Em vista do Natal?

Para estas festas, teremos que conseguir apreciar o essencial. Essa é a mensagem de um Natal diferente dos outros.

Qual foi a parte do livro mais difícil de escrever?

A primeira, que invoca a sobriedade: precisamente eu, que moro em um palácio do século XV, falo de pobreza? O risco é o de se deixa tomar pelo privilégio: tem alguém que abastece o meu carro para mim, posso me deslocar em um período de restrições. Se não estou atento, corro o risco de dizer e escrever coisas diferentes daquelas que eu vivo.

Você fala de uma Igreja pobre para os pobres. Há algo gritante nesse sentido? Principalmente neste período?

Os escândalos, de Judas em diante, sempre existiram. Eles evidenciam a dificuldade humana de ser fiel ao Evangelho. E fazem esquecer o bem feito. Mas acredito que, de algum modo, são experiências que purificam.

Como é possível administrar grandes riquezas, permanecendo pobre?

Dando prioridade aos fins: a evangelização, o culto, a caridade. Como nas primeiras comunidades cristãs. Lutando contra quem lucra, quem ganha. Controlando a proveniência das ofertas.

Lavagem de dinheiro: isso já aconteceu com você?

Sim, duas vezes em cinco anos. Com a ajuda de especialistas, verificamos a procedência de doações duvidosas. E eu as recusei.

É o modelo da Igreja de Francisco?

Definido também por Ratzinger. Uma Igreja na qual eu não sou um rebatedor livre, mas sou ajudado e apoiado por muitos bispos. Existe uma rede. E, além da fumaça dos escândalos, alguns sinais começam a ser vistos. Eu sou otimista.

 

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