Diante da crise da pandemia, “o Papa nos pediu que fôssemos às raízes”, afirma Augusto Zampini

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23 Novembro 2020

O Papa Francisco pode ser considerado um dos grandes líderes mundiais na luta contra a pandemia da Covid-19. Desde o primeiro momento ele se posicionou em defesa dos mais vulneráveis e na busca de soluções, criando uma Comissão Vaticana sobre o assunto. Na América Latina, o continente com maior impacto da pandemia, algo que muitos veem como consequência das graves desigualdades existentes, a Igreja se estabeleceu como um ator fundamental na luta contra a pandemia.

A reportagem é de Luis Miguel Modino.

Refletir sobre tudo isso foi o objetivo do seminário virtual que durante os dias 19 e 20 de novembro abordou o tema "América Latina: Igreja, Papa Francisco e Cenários da Pandemia". Organizado pela Pontifícia Comissão para a América Latina (CAL), pela Pontifícia Academia de Ciências Sociais (PASS) e pelo Conselho Episcopal Latino-americano (CELAM), contou com a presença de representantes do mundo eclesial, econômico e político, focalizando suas reflexões na realidade latino-americana, especialmente em tudo o que diz respeito às causas e consequências da pandemia.

Foto: Captura de tela, de Luis Miguel Modino

A pandemia expôs a vulnerabilidade e interconexão das crises, especialmente na América Latina, algo em que Augusto Zampini insistiu, mostrando alguns dados presentes na realidade latino-americana, como a grande desigualdade, a dívida externa, as frágeis cadeias de abastecimento e o fato de que as finanças dominam a economia, em vez de servi-la. Na opinião do padre argentino, um problema grave é a crise do multilateralismo, o que significa que os problemas globais não são enfrentados juntos. Pelo contrário, os países estão competindo entre si, o que exige a necessidade de recuperar os laços como nações.

A América Latina é marcada pela superexploração dos recursos naturais, o que levou à destruição da biodiversidade, consequência da mercantilização dos dons naturais de Deus, que, segundo Zampini, "ameaça nosso presente e nosso futuro". A isto se acrescenta a falta de respeito aos direitos humanos, especialmente para os povos originários. A crise da pandemia, de fato, exacerbou todas essas crises. É por isso que o Papa pediu aos membros da Comissão Covid-19 do Vaticano, da qual Augusto Zampini é membro, que vão até as raízes humanas destas crises, pois é aí que a cura deve estar centrada.

Ao se perguntar sobre as raízes, Zampini fala de uma crise ecológica, por trás da qual existe uma mentalidade extrativista e tecnocrática, uma crise econômica, que gera uma cultura de produção e consumo de bens que não precisamos e depois os descarta, uma crise social, que globalizou a indiferença aos gritos dos pobres e da terra, e uma crise política, que provocou um mundo fragmentado, um mundo que constrói muros e não pontes, onde os extremistas são ouvidos, tornando impossível o diálogo.

A crise deve ser vista como uma oportunidade, que quebra algo e permite que algo novo seja criado, diz o membro do Dicastério para o Serviço de Desenvolvimento Humano Integral. É necessário, portanto, seguindo as indicações do Papa Francisco, tirar proveito desta crise "para preparar o futuro", para descobrir que "juntos podemos fazer algo novo". Como um desafio transcendental, é algo que vai além do imediato, o que deve levar a visualizar o futuro que queremos preparar, de modo a não voltar ao que era antes. É uma realidade que precisa de diálogo, é algo urgente, "precisamos refletir, mas também responder com urgência, sem desespero", afirma Zampini, utilizando a imagem evangélica que diz que, para o vinho novo, novos odres.

Trata-se de promover uma nova solidariedade universal, começando pelos últimos, de restaurar os sistemas sociais, de aproveitar o legado espiritual, algo muito presente na América Latina, que deve motivar a mudança e promover o bem viver das pessoas, das instituições e do Planeta. Zampini apresentou o trabalho que está sendo realizado pela Comissão do Vaticano, que às vezes tem sido vista como utópica, mas que na realidade age a partir do realismo evangélico, um trabalho dividido em cinco grupos, que procuram "ser capazes de ter mais impacto e gerar mudanças a partir de baixo e de cima", e que levou ao nascimento das Forças-Tarefa locais na África, América Latina e Ásia.

Na tentativa de superar as falsas dicotomias entre economia, saúde, segurança e ecologia, o que se busca é dignidade no mundo do trabalho, gerar novas estruturas para o bem comum, buscar uma nova solidariedade global que torne possível a governança, a paz e a segurança, harmonizar os sistemas sociais com os ecossistemas. Tudo isso deve ser feito com uma visão de longo prazo. Isto pode ser concretizado na questão das vacinas, que apresenta muitas questões e deve ser considerado de um ponto de vista ético e holístico. Na realidade, "a vacina será um teste para o novo multilateralismo exigido pelo Papa e para a solidariedade universal", segundo Zampini, que vê a vacina como "uma oportunidade para um novo mundo, para chegar a 2030 com o cumprimento dos objetivos do desenvolvimento sustentável".

Jeffrey Sachs
(Foto: Captura de tela, de Luis Miguel Modino)

A pandemia da Covid-19 revelou que "existem sistemas econômicos e sociais no mundo que produzem riqueza, mas não produzem bem-estar", como disse Jeffrey Sachs. Em sua opinião, temos três falhas fundamentais de nosso sistema econômico, social e político. A primeira é a desigualdade maciça, a falta de inclusão social, a segunda é um sistema econômico que está destruindo a natureza e fazendo aparecer vírus, e a terceira é a paz, "somos um mundo que está sempre em conflito".

Considerado um dos mais conhecidos e influentes economistas de nosso tempo, Sachs enfatizou a importância do Papa Francisco, como "um líder moral que nos dá uma orientação", algo que ele vê no profeta Isaías, nas bem-aventuranças e em Laudato Si' e Fratelli Tutti, um chamado à responsabilidade na proteção do meio ambiente, no cuidado dos outros, não deixando ninguém para trás, e a busca de um mundo onde, baseado na dignidade humana universal, se busque a imagem de Deus para que todos tenham direito à educação, à saúde e a uma vida decente para todos.

O diretor do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Columbia, destacou a grande diversidade presente na América Latina. Mas ao mesmo tempo ele denunciou a grande crise em que as Américas se encontram, causada pelas muitas tensões, desigualdades de renda sem precedentes, e líderes políticos que criam injustiça, desordem, entre eles Trump, que ele definiu como um "líder psicopata", inclinado a falar de fraude eleitoral, considerando-o um homem perigoso. Junto com ele, denunciou outros líderes nas Américas que se pronunciam contra a gestão sustentável do meio ambiente, dos povos originários e que fracassaram politicamente diante da pandemia, citando os exemplos de Bolsonaro e do presidente do México, a quem acusou de ser irresponsáveis e populistas. São "sociedades lideradas por demagogos, que não sabem como produzir resultados", enfatiza Sachs.

O desafio é superar as lacunas sociais nas Américas a partir de um espírito de dignidade universal e do espírito de Fratelli Tutti, que nos fala de um novo encontro para que todos possamos nos tratar com respeito e não com ódio. Sachs dá o exemplo da gestão da pandemia nos países da Ásia Pacífico, levando-o a pedir a superação das divisões nas Américas para superar esta crise. Além disso, o economista vê a necessidade de pensar no destino universal dos bens; os ricos, cujos recursos cresceram ainda mais nesta época de pandemia, devem devolver aos pobres o que torna possível sua dignidade e seus direitos fundamentais.

Para isso, ele falou dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, uma ideia que aparece em Laudato Si', onde fala de uma interdependência para criar um plano conjunto para a casa comum. Daí a importância dos ODS para acabar com a pobreza extrema, para o acesso universal à educação, para a conservação ambiental, segundo Sachs, que falou de três importantes cúpulas para 2021, abordando a biodiversidade biológica, os sistemas alimentares mundiais, e a COOP 26 sobre a mudança climática. Sobre essas questões, ele vê que a América Latina pode desempenhar um papel de liderança, insistindo na necessidade de uma cooperação frutífera entre a América Latina e os Estados Unidos, algo que é possível com Biden.

Gustavo Béliz
(Foto: Captura de tela, de Luis Miguel Modino)

Um dos grandes problemas dos países latino-americanos é a dívida externa, um aspecto sobre o qual Gustavo Béliz refletiu, a partir da dimensão do reescalonamento ou cancelamento da dívida na América Latina. Do conceito de Pátria Grande, cunhado por Manuel Ugarte, no início do século XX, conceito que aparece no Documento Puebla, Béliz falou da necessidade de ressuscitar, de recomeçar, com unidade plural e um poliedro de solidariedade, buscando superar as consequências negativas que a dívida externa provoca na América Latina. Para isso, ele defendeu uma política "que caminha ao lado de seu povo, ao invés de caminhar ao lado de tecnocracias frias que impõem planos teóricos muito distantes da realidade nacional".

O atual Secretário de Assuntos Estratégicos da Presidência da Nação Argentina, citou em seu discurso o Documento de Aparecida, insistindo sobre o papel destacado que o então Cardeal Bergoglio teve na elaboração desse documento. Ele falou da "praga da violência social associada ao tráfico de drogas e da praga da iniquidade associada à extração de nossos recursos naturais e econômicos", o que faz da América Latina a região mais violenta do mundo, a mais injusta e onde a democracia tem o menor nível de aceitação, além de sofrer os flagelos de catástrofes climáticas devastadoras. Apesar de tudo isso, ele insiste que "somos chamados a ser o continente da esperança".

Foto: Captura de tela, de Luis Miguel Modino

Na Argentina, algo que também afeta outros países latino-americanos, a dívida externa atingiu limites insustentáveis, sendo praticamente impagável. A partir daí, foi realizado um processo de reestruturação da dívida externa, algo em que se destaca a importância do encontro no Vaticano em fevereiro deste ano, com um grande número de atores muito importantes, "o que nos permitiu não nos sentirmos sozinhos no processo de renegociação da dívida externa". Com a ajuda da pressão internacional, foi alcançado um acordo que deu alívio à economia argentina, baseado na unidade de todos os atores políticos.

A partir dessa experiência, é preciso novas regras globais do jogo, a necessidade de que a América Latina se una em favor de uma causa comum, de projetar um novo mercado de dívida e mecanismos de controle, baseados na solidariedade. Béliz insiste na necessidade de tomar medidas diante das bandeiras vermelhas que mostram a necessidade de uma ação urgente. Neste sentido, ele lembrou o que João Paulo II, no ano 2000, pediu, um Jubileu da dívida, algo que tem raízes bíblicas, que também foi lembrado novamente pelo Papa Francisco em Fratelli Tutti.

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