IHU promove debate online com jovens participantes do evento Economia de Francisco

Atividade ocorre hoje a partir das 10h

Arte: Natália Forner/IHU

Por: João Vitor Santos | 18 Novembro 2020

Pensado inicialmente para ocorrer na cidade de Assis, na Itália, o evento Economia de Francisco, promovido pelo Vaticano, buscava mergulhar jovens economistas na atmosfera da cidade onde viveu São Francisco de Assis. É nele que o Papa busca inspiração para que se conceba uma outra economia, que valorize todas as formas de vida e não apenas o consumo e a alta produção. Devido à pandemia, o encontro ocorre de forma virtual a partir desta quinta-feira, 19 de novembro e, em 2021, a intenção é de fato levar todos a Assis.

O Instituto Humanitas Unisinos - IHU vem publicando um série de textos e promovendo palestras que buscam inspirar reflexões nesse mesmo sentido dos desafios lançados pelo Papa. Hoje, às 10h, também na modalidade remota, o IHU reúne jovens que participarão diretamente desse encontro e que vêm estudando o tema. É mais uma atividade do ciclo Economia de Francisco: possibilidades para uma outra economia.

 

A partir das 10h, Claudia de Andrade Silva, Klaus da Silva Raupp, Lucas Prata Feres, Roberto Jefferson Normando e Tatiana Vasconcelos Fleming Machado debaterão Economia de Francisco – a construção de uma economia que faz viver e não mata.

 

O evento será transmitido pelo Canal do IHU no YouTube e também pela plataforma Microsoft Teams. O grupo, além de realizar estudos preparatórios para o encontro internacional, também é parceiro do IHU, e contribuindo com a coluna Rumo a Assis: na direção da Economia de Francisco ecoa o debate convocado pelo Papa.

 

No primeiro texto publicado pela coluna, o grupo destaca que Economia de Francisco não é apenas um encontro a ser realizado, mas sim um processo que já foi iniciado. “É um caminho que não começa e nem termina em Assis, mas um movimento global em que as juventudes e as minorias abraâmicas se comprometem a imaginar um futuro no qual a economia seja colaborativa, solidária, criativa, inovadora e profundamente ecológica e democrática”, destacam no artigo publicado nas Notícias do Dia no sítio do IHU em 03-10. Para eles, isso é pensar numa economia das pluralidades e das diversidades que tem como razão primeira a promoção da vida, nas suas mais distintas formas no planeta. “Há tarefas para o agora, para este tempo da pandemia e para o seu pós, e há tarefas de longo prazo para as mudanças estruturais, tarefas locais, regionais e globais”, concluem.

 

Saiba mais sobre os debatedores

 

Claudia de Andrade Silva é arquiteta e urbanista, e mestranda pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo - FAU-USP, com pesquisa relacionada ao direito à cidade. Atua junto aos movimentos de luta por moradia em ocupações urbanas de São Paulo e junto à pastoral do povo de rua em Guarulhos.

Claudia de Andrade Silva (Foto: arquivo pessoal)

 

 

Klaus da Silva Raupp é graduado em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC, advogado em Santa Catarina, mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS. É professor na área teológica, e doutorando em teologia e educação pelo Boston College, universidade jesuíta nos Estados Unidos, com pesquisa sobre design de currículo de educação religiosa com foco em justiça econômica.

Klaus Raupp (Foto: arquivo pessoal)

 

 

Lucas Prata Feres é economista pela Universidade Estadual de Campinas - Unicamp, e mestrando no Instituto de Economia da Unicamp, com pesquisa sobre o mundo do trabalho no capitalismo contemporâneo.

Lucas Feres (Foto: arquivo pessoal)

 

 

Roberto Jefferson Normando é filósofo, foi assessor das Pastorais Sociais do Regional Nordeste 2 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB, que compreende os estados de Alagoas, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte. Atualmente é coordenador executivo do Observatório Social do Nordeste

Roberto Normando (Foto: arquivo pessoal)

 

 

Tatiana Vasconcelos Fleming Machado é economista pela Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF, e pós-graduada em Ciência de Dados pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC-Rio. Tem experiência com economia industrial e economia da cultura. Ela é organizadora e tradutora do artigo "O propósito da tecnologia e do humano: Dados, reflexões e possibilidades para a Economia de Francisco", publicado pela IHU On-Line, na coluna Rumo a Assis: na direção da Economia de Francisco.  

Tatiana  Machado (Foto: arquivo pessoal)

 

Da ruína ao chamado

Desde o início de seu pontificado, Jorge Mario Bergoglio tem insistido que a humanidade precisa ajustar o curso de sua nau. Ou seja, a forma como o ser humano vem expropriando o planeta tem gerado ainda mais devastação ambiental, acelerado mudanças climáticas e, ainda, aumentado a desigualdade entre os povos, o que acaba em migrações, fome e doenças. Não é à toa que ele define essa economia que rege essas lógicas como ‘uma economia que mata’. “Os seres humanos e a natureza não devem estar ao serviço do dinheiro. Digamos NÃO a uma economia de exclusão e desigualdade, onde o dinheiro reina em vez de servir. Esta economia mata. Esta economia exclui. Esta economia destrói a Mãe Terra”, defendeu o Papa ainda em 2015, durante Encontro Mundial dos Movimentos Populares, em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia.

 

O grupo que participa dos debates hoje no IHU destaca, no texto publicado em outubro, que “a economia está em ruínas”. “O que vemos é uma economia que se desconectou das necessidades das pessoas e da natureza. O capitalismo, realizando seu conceito com a desconstrução das amarras institucionais constituídas após a barbárie das Guerras Mundiais, mostra hoje seu inexorável caráter abstrato e autorreferencial: no processo de acumulação de valor em forma monetária, o ser humano é um mero agente cada vez mais dispensável. Um sistema econômico vocacionado à insustentabilidade, que anuncia sua própria ruína”, observam. Os jovens ainda lembram que o filósofo italiano Franco Berardi chama atenção para um tempo despersonalizado que se converteu no agente do processo de valorização do capital. “O tempo está separado da existência social do trabalhador, que não tem direitos nem necessidades, e é apenas fragmento modular a ser recombinado pelo processo econômico”, apontam, ao recuperar o pensador italiano.

 

Todo esse processo leva a crises, como a que temos visto mais recentemente com a pandemia, e por isso é essencial que estejamos abertos aos sinais, percebendo os gritos das vítimas dessa economia que mata. Foi o que fez, por exemplo, o jovem Francisco de Assis ainda no medievo, quando percebe não uma só crise, mas muitas que vão se conectando. “Já se vivia a desagregação do sistema feudal, com uma burguesia nascente e a consequente transição para o capitalismo”, observam. “É neste cenário que o jovem filho do rico comerciante, cortejado de várias formas em seus privilégios, e ao mesmo tempo perturbado pela guerra e seus horrores, escuta, diante do crucifixo pintado de estilo bizantino na pequena igreja de São Damião, as palavras que converteram sua vida e de tantas pessoas depois dele: 'Vai, Francisco, e reconstrói a minha casa que, como vês, cai em ruínas'”, recordam.

 

Não é em vão que o papa Francisco chama a olhar para essa experiência e buscar nela inspiração para concepção de saídas, pois, como no então mundo medieval, vivemos agora uma verdadeira crise epocal. Na carta para o evento Economia de Francisco, Mario Bergoglio fez esse chamado e diz querer estar junto de jovens para constituírem um pacto comum, uma mudança global para fazer frente à degradação que é ainda mais acentuada nesse tempo de pandemia. “O Papa deseja o protagonismo dos jovens, portanto, e os convida para '[assumir] um compromisso individual e coletivo para cultivarmos juntos o sinal de um novo humanismo que corresponda às expetativas do homem e ao desígnio de Deus'. Em outras palavras, tal como o Cristo crucificado 'falou' a Francisco de Assis, Francisco de Roma fala aos jovens do mundo inteiro: 'Vão, Jovens de Francisco, e reconstruam a nossa economia, que, como veem, cai em ruínas!'”, destaca o grupo, recordando a carta do Papa.

 

Na direção da Economia de Francisco

Tela de Kassio Massa, arquiteto, urbanista e artista visual com graduação pela FAU Mackenzie, e mestrando na mesma universidade. Atua com desenho, fotografia e meios digitais

Como destacado anteriormente, o IHU vem publicando semanalmente textos de jovens e pesquisadores que estudam e se dedicam ao chamado do Papa. O texto de estreia foi “Vão, Jovens de Francisco, e reconstruam a nossa economia, que, como veem, cai em ruínas”, escrito pelo grupo que está no debate de hoje. Confira as demais colunas publicadas nas Notícias do Dia, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos - IHU.

 

 


A permeabilidade do tema

 

O encontro que ocorre logo mais, às 10h, é o segundo do ciclo que debate o tema da concepção de uma outra economia. O primeiro foi realizado na semana passada através da conferência com o Prof. Dr. Luiz Felipe de Alencastro. Assista à íntegra abaixo.

 

 

Para o Papa Francisco, esse tema é transversal e permeia diversos movimentos do seu pontificado. No entanto, a denúncia que faz sobre a realidade de que todos estamos conectados se faz na encíclica Laudato Si’, quando apresenta o conceito de ecologia integral.

Acesse a edição especial da IHU On-Line em que Laudato si' foi o tema central

 

Agora, neste ano, o tema avança e aparece com centralidade em Fratelli tutti, em que defende a necessidade de uma cooperação mútua, pois, como diz o documento, todos somos irmãos. Acesse abaixo duas conferências que trazem uma análise do documento.

 

 


Seguindo esses movimentos de Francisco, o tema também tem permeado diversos ciclos promovidos pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU. Confira as conferências mais recentes em que o tema foi abordado.

 

 

 

 

E esse debate sobre a concepção de uma economia pela vida, num contexto de pandemia, traz à tona o debate sobre uma renda básica universal, tema de muitas conferências recentes promovidas pelo IHU. Confira algumas.

 

 

 

 

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