Bispos dos EUA, por favor, parem o culto a João Paulo II. Editorial do National Catholic Reporter

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15 Novembro 2020

“Não há mais como escapar da verdade. João Paulo II, em muitos aspectos um homem admirável, era deliberadamente cego ao abuso de crianças e jovens. Suprimir o culto do falecido pontífice não significaria dizer às pessoas que elas precisam jogar fora suas relíquias ou medalhas – as pessoas ainda poderiam praticar devoção particular a ele. Mas para as vítimas de abuso, seus defensores e muitos outros, a memória de João Paulo II não é mais uma bênção”, posiciona-se em editorial a publicação estadunidense National Catholic Reporter, 13-11-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Eis o editorial.

 

De muitas e muitas formas, o papa João Paulo II foi um homem admirável. As últimas décadas do século XX foram enriquecidas incomensuravelmente pela sua inteligência de utilizar a arte papel de governar, levando sua voz contra os povos oprimidos do Leste Europeu, em seus vários esforços para o diálogo inter-religioso e por seu testemunho pessoal de dignidade de envelhecimento.

Mas como o relatório sem precedentes do Vaticano sobre a carreira do infeliz ex-cardeal Theodore MCCarrick revela detalhes chocantes, a primeira década do século XXI será para sempre mal vista pela calamitosa e cruel tomada de decisões de João Paulo II.

É tempo para um difícil acerto de contas. Esse homem, proclamado santo pelo papa Francisco em 2014, deliberadamente colocou em risco crianças e jovens adultos na Arquidiocese de Washington, D.C., e em todo o mundo. Fazendo isso, ele também destruiu o testemunho global da Igreja, quebrou sua credibilidade como uma instituição, e aponta um exemplo deplorável para os bispos em ignorar e dar um exemplo deplorável para os bispos ao ignorar os relatos das vítimas de abuso.

Como todo santo, João Paulo II tem um culto vibrante – pessoas em todo o mundo que celebram sua memória encorajando a devoção a ele, colocando seu nome em Igrejas e escolas e hospedando procissões e desfiles em sua festa litúrgica.

Dado o que sabemos agora sobre as repercussões da tomada de decisão de João Paulo II, os bispos dos EUA, reunidos na próxima semana para sua conferência anual, deveriam considerar seriamente se os católicos estadunidenses podem continuar com tais práticas. Eles também deveriam discutir a solicitação de que o Vaticano suprima formalmente o culto a João Paulo II. As vítimas de abuso não merecem menos.

Como o relatório devastador do Vaticano mostra claramente, a decisão do falecido papa de nomear McCarrick como arcebispo de Washington em 2000 veio apesar das severas advertências de seus conselheiros de mais alto nível em ambos os lados do Atlântico.

A carta de 28 de outubro de 1999 do cardeal John O'Connor de Nova York, que foi revelada pela primeira vez, dificilmente poderia ter sido mais sinistra. O'Connor advertia: McCarrick era alvo de denúncias anônimas e era conhecido por convidar seminaristas para dormir na mesma cama que ele.

Sobre a possibilidade de promover McCarrick além de seu papel então como arcebispo de Newark, Nova Jersey, O'Connor escreveu: “Lamento ter que recomendar fortemente contra tal promoção”.

O'Connor, que enviou a carta em 28 de outubro de 1999, por estar sofrendo de câncer no cérebro que o levaria à morte apenas sete meses depois, também disse que tem “graves medos” sobre a possibilidade da promoção e do “grave escândalo” que poderia causar à igreja.

Leia isso novamente. Esta não era uma simples luz vermelha piscando. Era um boletim com todos os alertas e ato final de uma das figuras mais importantes da Igreja global.

Apesar disso, e apesar das preocupações de O'Connor serem posteriormente repetidas pelo embaixador do Vaticano nos EUA e pelo prefeito da Congregação para os Bispos do Vaticano, João Paulo II confiaria nas negativas de McCarrick sobre seu comportamento e faria a nomeação de qualquer maneira.

Além do mais, para fazer isso, o Papa teve que assumir pessoalmente sob sua proteção – instruindo o Secretário de Estado do Vaticano de forma incomum para dizer à congregação dos bispos para adicionar o nome de McCarrick à lista de nomes considerados para o cargo, e então dispensar a Congregação para a Doutrina da Fé de fazer a verificação padrão sobre a adesão de McCarrick à doutrina católica.

Isso é ainda mais devastador se se considerar que a decisão foi tomada durante o mesmo período em que o Vaticano foi informado das alegações de abusos cometidos por Marcial Maciel Degollado, o fundador mexicano dos outrora poderosos Legionários de Cristo, cujas vítimas somam pelo menos dezenas e possivelmente centenas.

Os jornalistas Jason Berry e Gerald Renner expuseram pela primeira vez o abuso de seminaristas por Maciel em 1997. Em 1998, oito ex-legionários levaram seu caso contra Maciel à congregação doutrinária.

João Paulo II continuaria a elogiar o homem publicamente pelo resto de seu papado. Maciel não foi punido publicamente até 2006, após a morte de João Paulo II, quando o papa Bento XVI ordenou ao padre uma vida de penitência.

Não há mais como escapar da verdade. João Paulo II, em muitos aspectos um homem admirável, era deliberadamente cego ao abuso de crianças e jovens.

Suprimir o culto do falecido pontífice não significaria dizer às pessoas que elas precisam jogar fora suas relíquias ou medalhas – as pessoas ainda poderiam praticar devoção particular a ele. Mas para as vítimas de abuso, seus defensores e muitos outros, a memória de João Paulo II não é mais uma bênção. Não deve ser celebrado em público.

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