“Na solidão do confinamento, a meditação pode nos ajudar a nos encontrarmos.” Entrevista com Gianfranco Ravasi

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11 Novembro 2020

Gianfranco Ravasi, cardeal, presidente do Pontifício Conselho para a Cultura e do “Pátio dos Gentios”, sempre me fascinou pela tripla dimensão do seu pensamento: profundidade, abertura, curiosidade intelectual por todas as formas de criação humana. Ele nos faz lembrar do cardeal Martini ou de Umberto Eco, que sempre amaram buscar e dialogar. Seu último livro, Scolpire l’anima [Esculpir a alma], contém 365 breves meditações cotidianas que são um prazer para todo leitor, de qualquer convicção.

A reportagem é de Walter Veltroni, publicada por Corriere della Sera, 10-11-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

O que aconteceu durante o confinamento?

Um elemento positivo do primeiro confinamento [na Itália] foi conseguir ficar um pouco mais parados. É o tema da meditação, do reencontrar-se. A solidão permite o espaço da reflexão em relação à agitação da vida cotidiana. E foi elaborada a relação com a morte, que apareceu repentinamente como elemento factual, não como um risco distante. Não por acaso, o romance “A peste”, de Albert Camus, levanta o problema do sentido, do significado da vida, enquanto tudo parece precipitar. Veja-se também o que representou, do ponto de vista simbólico, não digo religioso, a noite do dia 27 de março, quando o Papa Francisco falou na Praça São Pedro deserta. O que ela foi para todos, mesmo para os não crentes. A consciência dos outros, da sua ausência, da sua necessidade.

E depois as regras, que os italianos seguiram com responsabilidade durante meses. Foi um período positivo, que dava esperança em uma mudança. Mas agora, com a segunda onda, tudo parece mudar. Sente-se uma atmosfera de irracionalidade nas reações, também na virulência das críticas ao governo. Infelizmente, não existem vozes autorizadas que possam mostrar o caminho, um plano de convivência. Não temos Norberto Bobbio. Ele escreveu o “Elogio da mansidão”. A mansidão não é fraqueza. No mínimo, a violência é sinal da derrota da razão. Nos momentos mais duros, sente-se a necessidade de vozes mais elevadas. Pensemos no imediato pós-guerra, na coragem e na responsabilidade daquela geração de políticos divididos também ideologicamente, mas capazes de escrever a nossa Constituição [italiana].

Que relação existe entre a pandemia e as mídias sociais?

Se a Covid tivesse acontecido há 20 anos, teria sido muito diferente. Hoje, estamos na infosfera. Marshall McLuhan, na aurora da civilização das mídias, falou de “extension of man”, a extensão do homem. Ele corretamente apontava que já estávamos em uma era em que os nossos órgãos se alongavam: tele-fone, tele-visão, tele-scópio. Podíamos chegar ate onde antes não era possível. Ainda mais hoje. O que está acontecendo agora, por sua vez, é a mudança de uma atmosfera, dos parâmetros de olhar e de intervenção sobre a realidade. Quando Galileu olha com o telescópio para os planetas de Médici, ele não apenas descobre algo particular no cosmos, mas introduz a revolução copernicana, que é a mudança radical da consciência do mundo. Nós estamos vivendo a quarta revolução depois da copernicana, da darwiniana, da psicanalítica. Uma revolução que muda a nossa relação com os outros e, talvez, com nós mesmos.

Existe o risco de que a solidão, exasperada pela incerteza social em relação a si mesmo e aos próprios filhos, possa se transformar em desespero?

É possível distinguir dois rostos da solidão. O primeiro rosto é que ela é uma espécie de dieta da alma. Nós a praticamos no primeiro confinamento, e ela servia para reencontrar motivações interiores e a fugir do risco de nos tornarmos info-obesos. O autor de “Lolita”, Nabokov, em outra de suas obras, fala da solidão assim como do playground de Satanás. Mas a solidão, dimensão também da liberdade, é o lugar aonde chegam também as pulsões perversas da pessoa e pode tender a se transformar perigosamente em isolamento social. Na encíclica Fratelli tutti, o papa cita Vinícius de Moraes: “A vida é arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”.

Essa cultura, a busca do outro, a sua acolhida, a compreensão mútua, é substituída hoje pela do confronto. O egoísmo nasce acima de tudo do medo e, quando se torna isolamento, pode gerar desespero e violência. A violência é o cancelamento do outro, é lhe reduzir a ficar sozinho. É preciso reconstruir uma vida social, uma ideia de comunidade como alternativa à solidão e, pior, ao isolamento. Um sociólogo estadunidense dizia isto: desde que os telhados se engrossaram com antenas, multiplicaram-se as portas blindadas. Aí volta a tarefa das religiões ou, em todo o caso, da cultura. Além da comida, seja do corpo ou da mente, existe a relação direta, a humana, feita de pele e palavras. Na visita aos doentes, a luta tenaz contra o isolamento das pessoas talvez seja a tarefa das pessoas de boa vontade, neste tempo caótico.

“Distanciamento social” é um oxímoro...

Por falar em oximoros, tem outro, o da “presença ausente”. Pensemos no que isso significa na relação de amor. A autêntica relação de amor entre dois apaixonados se fundamenta na presença, uma presença exclusiva, radical, total. Se ela desaparece, você se desespera. No entanto, é uma presença na qual, quando estamos verdadeiramente apaixonados, reconhecemos ao outro uma espécie de sacralidade, de distância, que permanece. Em Gibran, são as duas árvores próximas, mas não tanto a ponto de impedir a passagem do ar. Mas isso vale para toda a sociedade. Os ventos do espírito circulam e nos transformam, em um regime de presença-ausência: essa é a tipologia autêntica da relação humana.

Agora, o pêndulo se deslocou. A presença era um dos componentes da sociedade do passado que tinha muito mais relações diretas, físicas. Agora, são principalmente virtuais, e o confinamento enfatizou essa dimensão. A ausência é tão marcante a ponto de fazer com que o outro que você não conhece alguém diferente de você. O distanciamento, no fim, gera distância e suspeita em relação ao outro. Incluindo o incômodo de escutar as razões do outro, de pensar sobre as ideias dele. Pode-se ver bem isso nos debates televisivos: gritos, e não a vontade de entender e dialogar. Aqui entra a questão da escola. A escola como presença física é, sem dúvida, uma realidade necessária, e o discipulado sempre ocorreu vendo até a conotação do rosto e do corpo do mestre. O implícito, não apenas o explícito. O jogo dos olhos, das ênfases, dos tons entre docente e discente faz parte do processo educacional, assim como a relação de igualdade, horizontal, com o colega de turma. Que é uma pessoa, não um rosto em um vídeo.

Distanciados, vivemos mal. E, por mais necessário que seja neste momento, devemos alimentar a esperança de um retorno à normalidade das relações humanas e, enquanto isso, alimentar esta fase de escuta, de encontro, de palavra. Isso também vale para a Igreja. Tentei celebrar a missa em conexão, mas é outra coisa, não é mais a assembleia calorosa, o fato de se reencontrar. Os judeus do Antigo Testamento, quando tinham que representar o templo, definiam-no como Ohel mo’ed, que significa literalmente “a tenda do encontro”, do encontro com Deus e com os outros. Como era chamada a assembleia reunida? Em hebraico, Qahal, que significa convocação. Como os gregos a traduziram? Ekklesia, chamados juntos. A Igreja é um duplo encontro, com Deus e com os outros.

A nossa geração viveu com base em duas convicções: de que amanhã seria melhor do que ontem e de que era possível mudar o mundo. Hoje, o medo é o elemento dominante. Aonde pode acabar um mundo sem esperança?

Essa é realmente uma das perguntas radicais que devem ser feitas. Como matriz, eu estou ligado a Pascal, que escreveu a famosa frase “o homem supera infinitamente o homem”. Isso ocorreu – para falar em termos simbólicos – com a evolução, quando tínhamos o primata que, com a pata, agredia o outro porque lhe tirava o espaço. Em um certo momento, quando está prestes a agredir um seu semelhante, ele olha para cima, vê as estrelas, para ao olhá-las e se torna o ser humano. Tudo ajuda os seres humanos a olharem além. Pensemos na própria ciência. Dou três exemplos: a genética com a intervenção na flexibilidade do DNA que certamente ajuda, e é uma maravilha do ser humano para o ser humano, para combater patologias terríveis, mas, ao mesmo tempo, pode postular a possibilidade de criar um novo fenótipo antropológico.

Ou pensemos no poder das neurociências: agora, se nós abrirmos a nossa caixa craniana, a colocarmos em uma noite em paralelo à nossa galáxia, descobrimos que, em 120, 180 gramas de matéria cinzenta, temos de 80 a 100 bilhões de neurônios e que, por outro lado, existem 100 bilhões de estrelas na Via Láctea, na nossa galáxia. Se agirmos na relação entre cérebro e mente, acabamos redefinindo o modelo de ser humano.

Terceiro: a inteligência artificial. John Searl dizia que os computadores conhecem a sintaxe, mas não a semântica, ou seja, sabem fazer, mas não sabem o que fazem. Mas agora eles sabem ou estão aprendendo. Ao longo de que diretrizes vai se afirmando a autoconsciência das máquinas? Há o risco de que falava Fromm: “O perigo do passado era que os homens se tornassem escravos. O perigo do futuro é que se tornem robôs”. Não são esses também grandes temas candentes para o pensamento religioso, filosófico, político? E para alimentar novas esperanças racionais?

O poeta Charles Péguy dizia: “Esperar de cabeça baixa todos os dias é o mais difícil, desesperar é a tentação”. A esperança é a segunda das virtudes cardeais: fé, esperança, caridade. Péguy a representa assim: ela é a irmã mais nova, as outras são mais altas, talvez mais importantes. O que acontece? Acontece como quando dois pais estão caminhando pela rua, encontram alguém e param para conversar, ou param na frente de uma vitrine. O que a criança pequena faz? Ela os puxa, faz com que se mexam. Se não houvesse a esperança, fé e caridade não seguiriam em frente. Não teríamos o futuro.

No nosso tempo, tudo é fragmento e é instante, o presenteísmo em que tudo se consome. Como é possível reconstruir o sentido da história, da profundidade, da memória para projetar o futuro, o único lugar para onde vamos?

Agora, nós estamos diante de uma civilização tendencialmente desmemoriada: ela não tem esperança no futuro e não olha para o passado. O que significa que ela tem um presente fragmentado, vazio. “Recordar” é “trazer de volta ao coração”, portanto, é uma experiência. Giorgio Pasquali, no seu livro “Filologia e história”, escrevia que quem não recorda não vive. O Alzheimer, doença do nosso tempo, não apaga apenas a sua memória, mas apaga também a sua vida. Culturalmente, esse achatamento unidimensional do tempo começou com o questionamento da famosa história das raízes cristãs na Europa.

Na minha opinião, a Igreja então agiu mal, porque continuou afirmando esse valor exclusivamente para a questão religiosa, embora fosse um problema requintadamente cultural, sociocultural. Se removermos esse passado glorioso, no fim nos dispersaremos no particular, na banalidade, na obviedade, na superficialidade, na indiferença, na estupidez. É verdade o lema da tradição rabínica que afirma que “o sábio sabe aquilo que diz, o estúpido diz aquilo que sabe”. A memória não é a adoração das cinzas, é manter viva a chama. A escola retorna como lugar de reconexão decisivo. Qual é a raiz etimológica de educação? Educere, tirar para fora, extrair e, depois, reconectar.

Segundo a cultura indiana, a existência de uma pessoa é composta por quatro etapas. Há o tempo em que se aprende, o tempo do esforço, do juízo. O segundo momento é ensinar, ser pai, mestre. A palavra sabedoria vem do latim sàpere, que significa “ter sabor”, gosto, poderíamos dizer o sentido do conhecer. A terceira é a etapa da floresta, ou seja, retirar-se para a sombra, ser capaz de encontrar, mesmo na solidão, a capacidade de refletir, reencontrar a palavra que faz sentido, reencontrar um pouco mais a si mesmo. Quem tem a coragem de dizer hoje que, em certa altura da vida, é preciso fazer o exame de consciência? Nem mesmo os padres ainda dizem isso... O quarto é o momento em que nos tornamos mendicantes, quando precisamos dos outros. Na velhice, você reencontra a relação que viveu antes como senhor; aqui, pelo contrário, você a vive como uma pessoa humilde, como pobre. Na minha opinião, esses quatro elementos constituem um pouco a maturidade como um todo e não são necessariamente sucessivos. Acredito que, para criar essa unidade de conhecimento e não a natureza fragmentária do “presenteísmo”, é preciso viver uma experiência humana completa.

A internet foi uma revolução, com conotações democráticas. Mas, de rede, tornou-se uma soma de cercados que não se comunicam...

A questão da rede em que todo o globo está envolvido é a verdadeira mudança do modelo antropológico, pois mudam os códigos de conhecimento e de relação. Eu sempre volto ao exemplo da escola, que considero central. É possível que não se ensine às crianças a conscientização de um mundo no qual passam boa parte da sua vida? A configuração do guia crítico ao uso do computador? Lembro-me de um episódio pessoal muito sugestivo. Mario Luzi era meu amigo. Quando eu passava por Florença, ia encontrá-lo e, depois do jantar, caminhávamos ao longo do Lungarno. Uma noite, ele me indicou as luzes acesas nas casas. Oito em cada dez tinham em seu interior uma caixa azulada, a cor dos televisores ligados. Luzi me disse: “Não se entende se essas pessoas estão lá com as mãos levantadas em sinal de rendição ou de adoração”. Hoje ainda mais na frente da tela do computador. Rendição ou adoração, com os resultados que bem conhecemos. Assusta aquilo que está contido no mundo das fake news, das alterações da realidade, da crueldade dos algoritmos. A rede podia ter se tornado um extraordinário instrumento de democratização, mas agora foi sequestrada pelas megacorporações que induzem linguagens e comportamentos. Um sistema de dominação que também é ético e moral.

A questão ambiental praticamente desapareceu do discurso público, senão graças a uma menina sueca que moveu milhões dos seus coetâneos...

Sim, devemos dizer que, em relação a isso, o empenho da política tem sido realmente muito reduzido, senão vergonhoso, na incompreensão da urgência e da dimensão global desse problema. A mensagem mais elevada foi a da Laudato si’, do Papa Francisco. É um tema que as novas gerações impuseram e que tem sacudido as suas consciências. Elas se mostraram mais conscientes do perigo que paira sobre o destino da humanidade do que as nossas gerações, filhas do modo de pensar da revolução industrial. A religião, para mim, tem aqui uma grande tarefa. Não sei se é fácil encontrar um livro religioso, sagrado, tão rico em animais, vegetais, que dá um destaque tão importante à criação, à luz, aos alimentos quanto a Bíblia. É um tema em relação ao qual as consciências, estimuladas pelos jovens, deveriam marchar com coragem e força.

Jesus nunca escreveu nada, senão palavras, que não conhecemos, rabiscadas na areia, no episódio da adúltera. Se ele viesse à Terra hoje, o que escreveria?

Não sabemos sequer se Jesus sabia escrever. Alguns exegetas imaginaram que ele traçou apenas sinais na areia. Mas sabemos que ele sabia ler. Na sinagoga de Nazaré, ele pega o rolo de Isaías, o desenrola, o lê e o comenta. Se Cristo tivesse que escrever hoje algo que ainda fosse imediatamente compreensível para todos, eu acho que ele o faria em uma língua comum (na época, era o grego) ou popular, como era o aramaico. Ele escreveria: “Ama o teu próximo como a ti mesmo”. “Ama também a terra como a ti mesmo”, poderíamos acrescentar hoje. Talvez, ele poderia continuar com aquilo que ele disse na última noite da sua vida terrena, na sala no andar superior de uma casa em Jerusalém, no cenáculo, para a despedida: “Não há amor maior do que aquele que dá a vida pela pessoa que ama” (João 15,13). Isso é uma utopia, talvez? Mas se as religiões não tivessem a utopia, para que serviriam? Elas não podem ser úteis apenas para registrar o real. Mas há também uma utopia concreta naquelas palavras que Cristo talvez escreveria hoje. De fato, um pai que está prestes a se afogar com o filho e tem a possibilidade de se agarrar a algo salva primeiro o filho do que a si mesmo. “Ama o teu próximo como a ti mesmo” e “não há amor maior do que aquele que dá a vida pela pessoa que ama”. Exatamente isso é o que Jesus Cristo escreveria hoje.

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