O irmão mais jovem: neocardeal Cornelius Sim, de Brunei

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07 Novembro 2020

Como a Igreja de Francisco direciona-se para o oriente, o correspondente do The Tablet em Roma encontrou-se com um dos mais novos bispos asiáticos que está por receber um barrete vermelho: Cornelius Sim, de Brunei.

A reportagem é de Christopher Lamb, publicada por The Tablet, 05-11-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Algumas vezes o papa Francisco gosta de empurrar surpresas dramáticas, em outras ele gosta de avançar em suas reformas lentamente, com passos firmes para incrementá-las. Na remodelação do Colégio Cardinalício desde sua eleição, ele fez ambos. Em 28 de novembro de 2020, ele nomeará outros 13 cardeais, nove deles com menos de 80 anos, elegíveis e eleitores para o próximo conclave.

Ao longo de seu pontificado, Francisco surpreendeu as pessoas ao escolher bispos desconhecidos de cantos longínquos do planeta, contornando os líderes de dioceses maiores e mais poderosas que antes assumiam que o barrete vermelho de um cardeal acompanhava o território, especialmente na Itália e nos Estados Unidos. Após sete anos e meio deste papado, 45% dos cardeais eleitores virão do Sul global, a maior parcela de todos os tempos.

As mudanças que ele fez no que se espera de um cardeal serão um dos legados mais duradouros de Francisco. Mas pode ser a mudança de centro gravitacional da Igreja em direção à Ásia que a história verá como a mudança mais significativa que ocorreu durante este papado. Este é o continente onde muitos veem o local mais rico de futuros líderes da Igreja e, no final deste mês, 12,5% dos cardeais eleitores serão asiáticos.

Então, o que significa um pivô para o oriente? Uma maneira de descobrir é examinar mais de perto o novo cardeal asiático, Cornelius Sim, 69 anos, vigário apostólico de Brunei, o ex-protetorado britânico localizado na ilha de Bornéu. Ele lidera uma pequena igreja local em um país de maioria muçulmana, com apenas três outros padres servindo a 20 mil católicos.

Falei com dom Sim através do Zoom e, embora nosso encontro tenha sido virtual, está claro que o novo cardeal é um pastor prático, focado nas pessoas e com um bom senso de humor. Ele quer ser prático sobre o próximo consistório e ainda está indeciso sobre se irá a Roma para receber seu barrete vermelho, dadas as restrições pela covid-19. Ele me diz que pode apenas “esperar a caixa chegar”. Afinal, ele nunca esperava ser nomeado cardeal; ele descreve sua nomeação como “surreal”. A princípio, ele pensou que houvesse um engano. O anúncio do Vaticano dos novos cardeais localizou Brunei, em Kuala Lumpur, embora esteja a mais de 2800km da capital da Malásia.

“Não figuramos muito nas notícias. É uma Igreja que está praticamente esquecida, então talvez isso tenha algo a ver com isso”, diz ele. “De certa forma, é uma repetição do Magnificat: ‘Para derrubar os poderosos de seus tronos’. Mas eu não deveria ter tais pensamentos!”.

As igrejas locais na Ásia são compostas principalmente por rebanhos modestos. Às vezes, são considerados relíquias do colonialismo, e não exatamente asiáticos. No entanto, quando viajei com o papa Francisco para Mianmar e Bangladesh, vi comunidades pequenas, mas vibrantes, focadas na missão e no diálogo. Fiquei impressionado ao ver como essas Igrejas costumam ser menos clericais do que as do ocidente, e como, por meio de suas escolas, hospitais e obras de caridade bem administradas, elas servem às comunidades locais e constroem seu próprio perfil. Essas igrejas também refletem a visão do Concílio Vaticano II e seu status de minoria as liberta da bagagem de tentar preservar a “cristandade ocidental” ou dominar a cultura mais ampla.

“Você poderia dizer que estamos ajustados para viver com a ambiguidade”, diz o dom Sim, “[Pessoas da Ásia] não trazem uma visão monolítica de como as coisas deveriam ser. Mesmo que exista algo como ‘essa é a maneira’, como se vive sabendo que há uma enorme diversidade bem na sua porta? Quando você sai por aquela porta, essa diversidade bate na sua cara”.

O neocardeal é vice-presidente da Conferência dos Bispos da Malásia, Singapura e Brunei, a qual é parte da ampla Federação das Conferências dos Bispos Asiáticos. A Federação, explica dom Sim, é compromissada com o “triplo diálogo”: com a cultura, com as outras religiões e com os pobres. Sim contou-me que ele levará a experiência da Ásia para o Colégio Cardinalício. Ele confessou ter ficado surpreso quando visitou Roma pelas “as coisas hierárquicas que viu, o dress code”, e disse que essas coisas são diferentes em outros lugares do mundo.

“Nós somos os fratelli minori (‘irmãos mais jovens’). Nós não contamos com muito, mas se você quer nos ouvir o que nós temos a dizer, lhe diremos”, afirmou. “Não não usamos exatamente as mesmas roupas, mas temos essa perspectiva que tentamos viver”. Com um sorriso, ele acrescenta: “Não pareço servir para nada. Mas se quiserem uma perspectiva falada, pastoral, orientada para as pessoas, então eu acho que sirvo”.

Em Brunei, explica, a Igreja está tentando “contribuir para o desenvolvimento e o tecido social do país”, por meio do diálogo entre as religiões e por meio de suas escolas, nas quais a maioria dos alunos é muçulmana. Ele acredita que o Cristianismo pode coexistir com o Islã e diz que ficou “chocado” com os recentes ataques terroristas na França.

Brunei tem um sistema jurídico duplo de Sharia e Common Law inglesa, embora a introdução da Sharia em 2014 tenha sido fortemente criticada. Sim diz que é preciso entender o país “por dentro” e não apenas através da mídia. “Há a realidade do Islã como religião nas notícias, [onde é] retratada de uma maneira muito negativa”, disse o novo cardeal. “Mas há países onde o Islã é vivido de forma muito pacífica e onde as minorias têm seu lugar, e Brunei é um desses exemplos”.

Embora tenha menos de 500 mil habitantes, Brunei é um dos países mais ricos do mundo, graças à sua riqueza em petróleo e gás natural. O bispo explica que uma prioridade para a Igreja em Brunei é cuidar dos muitos trabalhadores migrantes, muitas vezes servos ou trabalhadores. “É triste dizer, mas aonde quer que eles vão, são vistos como pessoas que realmente não importam. É papel da Igreja dizer: ‘Você conta, você importa’”.

Sim tem experiência de trabalho na indústria de energia do país, incluindo passagens pela planta de gás Brunei LNG e depois pela Shell. Mas ele sabe que muitos membros de seu rebanho têm trabalhos braçais. Durante as férias de verão em 1975-78, quando estudava engenharia na Universidade de Dundee, ele trabalhou como porteiro de lavanderia em um hotel em Victoria, em Londres, a poucos passos da Catedral de Westminster.

Embora tenha sido criado em uma família católica, o futuro cardeal afastou-se de sua fé quando jovem. Isso mudou quando seu pai morreu. Ele diz que isso o forçou a se perguntar: “A busca pela boa vida, o que tudo isso traz?”. Depois de retornar à prática de sua fé, ele se envolveu na vida da igreja. Ele estudou teologia na Franciscan Steubenville University em Ohio. Ele foi ordenado aos 38 anos como o primeiro sacerdote nativo de Brunei. Ele estava inicialmente hesitante; ele não tinha ido a um seminário.

Durante seu pontificado, o papa Francisco fez da Ásia uma prioridade. É o continente onde agora vivem dois terços da população mundial. Ele fez quatro visitas separadas ao continente. Suas aberturas para a China e o acordo da Santa Sé com Pequim sobre a nomeação de bispos devem ser vistas à luz de seu senso de que o catolicismo global está se inclinando para o oriente. Ele falou favoravelmente sobre a “mudança da face da Igreja” e encorajou o surgimento de uma nova geração de líderes da Igreja das Filipinas e da Índia. No final do ano passado, chamou o cardeal filipino Luis Antonio Tagle a Roma, colocando-o na poderosa posição de prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos.

No mês que vem, Francisco fará 84 anos. O tempo não está do seu lado. Aqueles que querem desfazer as reformas deste pontificado já estão fazendo lobby para empurrar o próximo conclave em uma direção anti-Francisco. O bispo Sim me garante que os novos cardeais resistirão a qualquer interferência externa, mas admite que está preocupado com as lutas internas na Igreja. “Meu medo é que a Igreja agora esteja dividida em campos; as pessoas rotulam umas às outras como isso e aquilo, e deixam assim. Não se pode realmente dizer quem é uma pessoa sem a conhece-la”, diz ele. “Não é positivo à Igreja se ver como tribos em guerra, com flechas, ganchos e bestas envenenadas. Devemos ser mais civilizados em nossa abordagem uns com os outros”.

As lutas intraeclesiais são ainda mais tentadoras devido à incerteza causada pela pandemia de covid-19, à instabilidade política e a um sentimento de crise no mundo. O lema episcopal do futuro cardeal de Brunei é Duc in altum (“Vá às profundezas”) e ele diz essas palavras de Jesus a Simão Pedro, o pescador, que o mantêm esperançoso em tempos de dificuldade.

Em uma recente reunião da Federação Bíblica Católica, disse dom Sim, seu colega cardeal asiático, Luis Tagle, ofereceu duas imagens de um líder cristão. No passado, disse ele, se era como um pastor, com os pés no chão; se conhecia a configuração da terra e suas ovelhas pelo nome. Hoje é diferente. “De repente”, disse Tagle, “você está em alto mar e tem que ser pescador. Não há pontos fixos. Você tem que navegar em seu caminho agora no meio de uma tempestade. É possível se adaptar à nova situação? Ainda se consegue manter o equilíbrio?”.

Com as tempestades que assolam a Igreja e o mundo, talvez não demore muito para que um cardeal da Ásia se vista de pescador como sucessor de São Pedro.

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