Se eu quiser falar com Deus

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04 Novembro 2020

"Torna-se urgente e imperativo afastar o fantasma dos receios, que ronda coração, a mente e a alma – ou seja, medo incerto e indefinido de perder para sempre e sem remédio o fio da esperança. De não enxergar a estrela matutina, a luz do farol e o rumo do porto seguro, permanecendo com a embarcação à deriva, sem âncora e sem bússola", escreve Alfredo J. Gonçalves, padre carlista, assessor das Pastorais Sociais e vice-presidente do SPM – São Paulo.

Eis o artigo.

A canção de Gilberto Gil é popularmente conhecida: “Se eu quiser falar com Deus, tenho que ficar a sós, tenho que apagar a luz, tenho que calar a voz, tenho que encontrar a paz, tenho que folgar os nós, dos sapatos, da gravata, dos desejos, dos receios (...). Se eu quiser falar com Deus, tenho que aceitar a dor, tenho que comer o pão, que o diabo amassou”. Primeiro, verifica-se a necessidade de criar um ambiente propício, externa e internamente: “ficar a sós, apagar a luz, calar a voz e encontrar a paz”. Entramos na esfera sagrada e misteriosa do retiro, do silêncio e da escuta. Não o silêncio rumoroso e estridente de quem cultiva mágoa e raiva, digere ódio ou arquiteta vingança. Tampouco o silêncio deserto e estéril de quem procura fugir à relação e ao diálogo, recusando todo tipo de comunicação. Fechado na sua ilha de isolamento obstinado e hermético, defende-se de qualquer abertura ao outro.

Depois dessa preparação do cenário, digamos assim, passamos a um protagonismo mais vivo e ativo no encontro com Deus: “folgar os nós, dos sapatos, da gravata, dos receios”. Claro, inútil sublinhar que os nós dos sapatos e da gravata figuram como metáforas. Imagens sugestivas do cotidiano contemporâneo e recheado de ruídos, onde, de tanto caminhar de forma irrequieta, apressada e frenética a, os pés sentem o peso de corpos cansados e abatidos. Precisam liberar-se do fardo para repousar na intimidade da casa de Deus. E de tanto engolir gemidos e prantos sufocados, juntamente com lágrimas amargas, a garganta acumula gritos e lamentos que buscam desesperadamente um respiro novo, um novo oxigênio, um sopro divino de renovação. Torna-se urgente e imperativo afastar o fantasma dos receios, que ronda coração, a mente e a alma – ou seja, medo incerto e indefinido de perder para sempre e sem remédio o fio da esperança. De não enxergar a estrela matutina, a luz do farol e o rumo do porto seguro, permanecendo com a embarcação à deriva, sem âncora e sem bússola.

Somente então, na atmosfera mística do silêncio, começam a desfilar diante dos olhos os nós que entravam a convivência mais profunda com os outros e com o Outro. Quais os obstáculos que impossibilitam a aproximação? Que impasses nos mantêm de costas uns para os outros, e todos afastados do sagrado? Que tensões, conflitos e preocupações nos levam a fugir de um caminho espiritual de depuração e purificação? Por que, na sociedade de hoje, sobram bocas ávidas em falar e faltam ouvidos prontos à escuta! A resposta a tantas perguntas não deixa de ser empenhativa: “tenho que aceitar a dor, tenho que comer o pão, que o diabo amassou”. Que dor será essa? Que pão será esse? Uma dor milenar, tão antiga quanto a humanidade. Dor do coração envergonhado, humilhado e impotente dos que pisam solo estrangeiro, mesmo que nunca tenham abandonado o próprio país. O corpo dobrado, vergado sob o peso da fome, da miséria e da sujeição. O suor do trabalho roubado pelo senhor que sequer conhece a matéria, e tampouco os instrumentos que a transformam em objetos de uso. Os olhos, como os pés, pregados no pó do chão; incapazes de um olhar ao céu azul, à luz do sol, ao ar transparente, à liberdade das aves e das nuvens, da brisa e dos ventos.

O pão amassado pelo diabo. Pela cobiça do mais forte, pela busca do lucro a qualquer preço, pela a acumulação do capital. Pão amassado por um sistema de produção viciado e distorcido, dominado pelo vírus da competição entre tubarões e sardinhas no interior do mesmo recinto. Pão amassado por tudo aquilo que provoca, contemporaneamente, riqueza e exclusão social. O que, no fim da linha, resulta em profundas injustiças e desigualdades socioeconômicas cada vez mais marcantes e escandalosas. Pão amassado por uma cultura que prega à exploração máxima dos recursos naturais e do trabalho humano e que, por isso mesmo, ameaça o sadio equilíbrio ecológico, devasta e desertifica o solo, contamina o ar, o mar e as águas... deixando o rastro macabro de destruição e morte para as gerações futuras.

Daí o anseio de buscar em Deus outro pão. O pão da partilha, das novas relações, de um mundo onde todos participam do grande banquete e se sentem na própria pátria. O pão eterno que, por mais paradoxal que pareça, mergulha suas raízes no chão embebido de suor, lágrimas e sangue. Eterno porque imprime em cada ação a marca da imortalidade. Os gestos revestidos pelo amor ganham a eternidade a partir mesmo da finitude e da provisoriedade da vida humana.

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