Carta de José I. Gonzáles Faus ao cardeal Gerhard Müller: “a ninguém se pode impor um celibato contra a sua vontade”

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29 Outubro 2020

“É difícil compreender sua atitude em relação às declarações do papa Francisco sobre os homossexuais”, escreve José Ignácio Gonzáles Faus, jesuíta espanhol, em carta ao cardeal Gerhard Müller, publicada por Religión Digital, 28-10-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Eis a carta.

Irmão em Cristo:

Quero começar agradecendo muito verdadeiramente seu apoio a Gustavo Gutiérrez e sua contribuição ao reconhecimento da teologia da libertação. A Igreja inteira tem contigo uma grande dívida neste campo.

Precisamente por isso para mim é mais difícil de compreender sua atitude em relação às declarações do papa Francisco sobre os homossexuais: “sou fiel ao Papa porém não acima da Palavra de Deus”. Eu também assino esse princípio, porém me pergunto onde está e o que diz a Palavra de Deus neste campo. E me é estranho que você, tão solidário com os oprimidos no campo socioeconômico, não tente também o ser com os oprimidos no campo sexual.

Porém vamos devagar: e melhor será começar pelo que os antigos chamavam de delimitar qual é exatamente “o estado da questão”.

Pressupostos

Quando me pus a pensar sobre este tema recordei de um sábio conselho dos antigos escolásticos em suas discussões: o de “distinguir” significados nas palavras. Muitos poucos conceitos nossos são totalmente unívocos. E, neste sentido, encontro três tipos diversos de homossexualidade:

a) Há algumas práticas homossexuais que brotam do cansaço ou insatisfação pelo abuso desordenado da heterossexualidade: afinal as coisas já não se dão mais, a sexualidade não cumpriu a sua promessa de absoluto e recorremos à procura de “variantes” para ver se aí se encontra o paraíso procurado. Surge então o recurso a práticas homossexuais, pedófilas, sadomasoquistas, estupros e outros. Se você leu o Marquês de Sade, deve se lembrar de sua máxima: “para uma imagem sexual ser atraente, deve estar associada a uma ideia libertina”. E se não, evocarei um romance moderno (“Medo de voar”, de Erica Jong), onde a protagonista, insatisfeita apesar de sua vida promíscua, decide buscar uma experiência homossexual. E me diverti com seu primeiro comentário sobre essa experiência: “a vagina cheira mal”. Opa! Como essas coisas vão bem com um pequeno sorriso de escárnio que as coloca no seu devido lugar, queria dizer ao protagonista: “Se você tivesse praticado aquela postura de ioga de tocar os joelhos com a cabeça, talvez tivesse descoberto isso em você mesmo, sem a necessidade de recorrer a imoralidades”...

Porém, nem: deixando a piada de lado, é preciso dizer que esse tipo de sexualidade é o que a Bíblia condena com tanta radicalidade. Creio que o contexto da carta aos romanos deixa isso muito claro. Porém, ainda que não fosse assim, há uma obrigação exegética de tomar sempre as condenações em seu sentido mais restrito.

b) Conheço alguns casos de homossexualidade que parecem ter brotado de causas somente psicológicas: uma pobre moça, lutando contra abusos ou tentativas por parte de seu pai viúvo, quis primeiro ser religiosa, porém se descobriu lésbica. Hoje está casada com outra mulher. E conheço outros casos de mães que sofreram a crueldade, que tem um filho homossexual, fruto provável de uma rejeição global a tudo que é feminino. Nestes casos, com causa somente psicológica, é possível que possam ser reversíveis com um tratamento psicológico. Por isso também é cruel a dura crítica de todo o lobby LGBT contra essa tentativa.

c) Finalmente, hoje já é evidente que há casos de homossexualidade que vou chamar de genéticos. Pelo que li parece ser que o cérebro, que habitualmente funciona em harmonia preestabelecida com nossos outros órgãos corporais, algumas vezes perde essa harmonia e não funciona assim. E este é um problema que a medicina faz bem em tentar desenvolver remédios quando se é possível, e que a sociedade deve saber enfrentar também.

Pois bem: estes outros dois casos, sobretudo o terceiro, são os que entram em jogo quando afrontamos a questão da homossexualidade desde a ética social. Jugar estes dois casos com os critérios do primeiro é confundir a alhos com bugalhos, ou a moralidade com a barbaridade.

No momento de enfrentar esse problema social é preciso ter em conta um parágrafo famoso de Friedrich Engels (este sim você conhece) onde diz que todas as grandes causas promissoras que aparecem na história correm o risco de ser estragadas por aqueles que delas se aproveitam e mal as defendem em seu próprio benefício. Engels disse que isso já havia acontecido com o cristianismo primitivo. E o que ele não suspeitou é que isso também aconteceria com o comunismo.

Mas os humanos são assim: hoje se apela à ciência por todas as partes, como razão suprema: é o que aconteceu, por exemplo, com a covid-19. Mas o que não nos é dito é que esses apelos são frequentemente falsos: porque apenas o que é universalmente aceito pela comunidade científica merece o nome de ciência; e, no entanto, são apresentadas como teses científicas o que nem todos os cientistas aceitam. O mesmo acontece com alguns movimentos de independência: que apelam como direitos absolutos que não são universalmente reconhecidos pela comunidade jurídica (nacional ou internacional) e que, no entanto, dão como definitivos e evidentes. Com isso, ao invés de trabalhar pelo estudo e pela justificativa desses supostos direitos, eles se dedicam a agir como se estivessem bem no mundo, quando não têm razão nem sobre seu pequeno país. É pasta humana, meu caro cardeal: idolatramos a ciência e depois abusamos dela como costumávamos abusar de Deus quando acreditávamos em Deus.

Adicione a essas manipulações nossas simplificações argumentativas. Acontece que quando falamos sobre homossexualidade, nunca falamos sobre sexo, mas apenas sobre amor. Por mais que celebremos os centenários de Freud, parece que nada aprendemos com ele. O amor é o que há de melhor: tão grande e absoluto que pode até relativizar o sexo. Mas, no Ocidente, caímos em uma identificação entre amor e prazer que é muito simplista quando não estamos secretamente interessados. Quando eu era criança, li alguns versos de um poeta espanhol (Gabriel y Galán) que, eu me lembro, não me deixavam muito confortável. Diziam assim: “e me ensinaram a amar, - e como amar é sofrer – também aprendi a chorar”. Disse a mim mesma que havia alguma verdade ali, mas não toda: porque o amor é antes de tudo felicidade. E o que me surpreende é a virada de 180 graus que essas palavras do poeta deram hoje: porque acho que hoje Gabriel y Galán teria que escrever: “e me ensinaram a amar – e como amar é gozar – também aprendi a foder”.

E bem: digo provocativamente para dar uma pequena sacudida. Porém creio que essa identificação implícita entre amor e prazer sexual não deveria funcionar sob controle quando tratamos a questão da homossexualidade. A qual de nenhum modo pretende negar nem a força, nem a importância que a relação sexual tem em toda a vida humana, como direi depois. Porém, ao menos a você posso citar aquela máxima dos clássicos: “delectatio propter operationem” – o prazer o sentimos para poder atuar (não para ser). A natureza é tuciorista e procura garantir que nos alimentamos, que não nos dissequemos, que nos reproduzamos e que nosso corpo se desenvolva. E para isso estão a comida, a bebida, o sexo e os esportes... Ainda que depois, com nossa habilidade para desfigurar tudo, abusemos desse recurso e acabemos caindo na obesidade, na bebedeira, na futebolatría...

Desde estes pressupostos, demasiadamente longos mas talvez necessários para evitar falsificações (ao menos entre eu e tu), desde o dogma cristão da fraternidade universal, é como creio que podemos começar agora a tratar de nosso tema.

Argumentos

O primeiro de tudo é que os homossexuais a que antes me referi existem. Gostemos ou não, não importa. Existem e são nossos irmãos.

Em segundo lugar, alguns deles suportam ou suportaram um sofrimento enorme: conheci confissões de jovens que começavam a se descobrir homossexuais e não queriam aquilo, choravam amargamente diante de mim e me faziam sentir como o que Gênesis conta de José: que sentiam tanta vontade de chorar na frente de seus irmãos e precisavam fugir para limpar as lágrimas. A essa dor, no momento de se entender como pessoas, acrescenta-se em muitíssimos casos, o desprezo e a piada social, as vezes de parte dos colegas cristãos, que me fazem lamentar o fato de nossa pastoral não ter sido capaz de ler assim o Evangelho de Mateus: “se lhes disse ‘não matarás’ e que quem matar será réu do tribunal; eu vos digo: quem chamar o seu irmão de viado será réu na Geena”. Se hoje nos pode parecer as vezes que os LGBTs exageram em algum caso, tenhamos em contra toda esta história prévia e a necessidade de recuperar uma aceitação plena que nunca tiveram. Este horror que, no Ocidente está sendo superado, é ainda maior em países da Ásia e África, por razões socioculturais que podemos entender, porém de nenhum modo justificar. Por isso creio também que esses são os primeiros homossexuais que devem ser ajudados, ainda que seja a custo de certa paciência em outras reivindicações mais próprias dos ocidentais. Porém, em nosso Ocidente os direitos humanos são entendidos de tal maneira que se eu tenho um resfriado e o outro um infarto, exijo que tratem primeiro a mim, esquecendo-me do outro.

Nesse contexto, podemos dar um terceiro passo: ninguém pode ser celibatário contra sua vontade. Frequentemente ouvimos argumentos neste sentido contra o celibato ministerial, e que existe uma obrigação livremente aceita pela outra parte, e não uma imposição “velis nolis”. Pois bem, é aqui que penso que devemos colocar as palavras de Francisco: “São filhos de Deus, têm direito a uma família e ninguém pode tornar a vida impossível por isso”. Houve alguns casos de homossexuais muito cristãos que conseguiram sublimar sua tendência e escolheram uma vida celibatária. Mas essa é uma opção minoritária que, como já disse Jesus, “não é para todos”. (E para que fique registrado, lamento muito que esses casos específicos tenham sido maltratados pelos outros, quase tão cruelmente quanto esses foram maltratados; mas esse não é o caso agora).

A isso deve ser adicionado, em quarto lugar, o que você e eu sabemos sobre a teologia de São Tomás sobre o direito civil, e que comentei em outro lugar: o objetivo do direito civil não é tornar os homens bons, mas buscar o bem comum; além disso, nenhum homem será bom se sua bondade prejudicar o bem comum (1ª 2ae, 92 art. 1). Por isso, o legislador não pode punir condutas consideradas imorais, se essa pena prejudicar o bem comum. Assim se justificava a descriminalização da prostituição no passado, que ninguém considerava moralmente legítima. Acredito que Francisco apenas aplicou este princípio. E acho que neste ponto pode ser aceito por todos: conservadores ou progressistas, da Índia, da Nigéria ou da Europa.

Questões pendentes

Então, pode haver mil perguntas pendentes. Mas creio que o que vos disse deve servir para chegar a um consenso mínimo universal que, como disse antes, parece-me o objetivo mais urgente hoje. Se alguém quiser mais, estude e discuta em vez de apenas gritar. E eu coloco dois exemplos disso para concluir.

1) A homossexualidade é uma variante simples como ter olhos azuis ou pretos? Muitos afirmam isso. Eu, pessoalmente, não vejo assim, embora conheça algumas pessoas (não só cristãs mas também religiosas) que partilham dessa opinião. Portanto, minha opinião é apenas particular.

Aqui a sensibilidade pode jogar muito. Existem pessoas para quem, por exemplo, a relação anal dá nojo. E deixe-me citar um escritor espanhol aqui: C. J. Cela, vencedor do Prêmio Nobel de literatura e militante por uma vida sexual bastante livre. Esse homem se esforçou para mostrar que aquelas palavras que consideramos rudes são na verdade tão inócuas quanto as outras; e que a coisa imprópria que vemos nelas não está nas palavras, mas é uma projeção nossa que, embora seja uma projeção coletiva, é falsa como todas as projeções. Foi assim que ganhou fama de desbocado e, uma vez que lhe perguntaram sobre homossexualidade, limitou-se a responder com sua linguagem provocativa e com uma expressão bem hispânica: “Não gosto que me deem o c...”. Isso foi ignorado por ele ser quem era. Mas agora é interessante que o “não gosto disso”, não pode se tornar um princípio universal.

E aqui voltam a ser úteis algumas palavras de São Tomás, redescobertas pelo dominicano Adriano Oliva e difundidas entre nós por Jesús Martínez. Já os citei novamente, mas deixe-me repetir: o conceito de antinatural não é simplesmente um conceito universal, mas necessariamente particular. E, portanto, quando a natureza sofreu uma modificação (Tomás diz “uma corrupção” mas eu prefiro falar mais a fortiori) então coisas que, em teoria pura, seriam antinaturais, deixam de sê-lo para aquele caso particular (1ª 2ae, 31, 7). Aprendamos, pois, que, nem a favor nem contra nada, é bom falar com a simplicidade apaixonada que hoje se tornou natural entre nós.

2) Haveria outra questão com a qual concluo: podem estas uniões civis, defendidas por Francisco, chamar-se casamento? No meu país, sim, porque a Real Academia da Língua modificou a definição anterior de casamento para aplicá-la apenas à união entre duas pessoas (sem nenhuma especificação de sexo). Mas claramente não é uma questão de gramática. Entre os cristãos, o que essa pergunta significa é se tal união pode vir a ser considerada um sacramento. Há uma teologia do matrimônio que vê seu caráter sacramental precisamente no fato de que é a união mais total justamente onde há a maior alteridade: é aí que o amor de Deus pelo que é mais diferente Dele é verdadeiramente simbolizado. É essa humanidade pecadora. É por isso que Paulo fala aqui de “um grande mistério” (Ef 5,32). Pessoalmente, não posso negar que parece um argumento bastante sólido para mim. E aproveito para repetir algo já dito de novo: a acusação de homofobia é muito importante reservar apenas para o problema sexual: porque, na realidade, "o maior pecado humano é a heterofobia", e que hoje sofremos em muitos campos.

Mas deixemos aqui a questão sem solução e fiquemos com outro princípio inegável da teologia mais clássica que convosco posso citar em latim: “Deus non tenetur sacramentis”. Deus não está vinculado aos seus sacramentos, que são sinais eficazes apenas para nós. A liberdade absoluta do seu amor pode tornar muito mais eficazes outros gestos que não têm aquele caráter de um sinal comunitário.

Aqui devo terminar, caro cardeal Müller: se consegui dizer algo de algum valor, ficaria muito grato se você revisse a aplicação dessas suas palavras que deram origem a esta monstruosidade: “Sou fiel ao Papa, mas não acima da palavra de Deus”. Acho que também quero isso. Mas, apesar de tudo, discordo da aplicação dessas palavras. Warum denn?

 

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