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29 Outubro 2020

Algumas mulheres tentam subverter a linha e a organização da Igreja com podcasts que falam de religião, teologia e espiritualidade.

A reportagem é de Cécile Chambraud, publicada por Le Monde, 28-10-2020. A tradução da versão italiana publicada por FineSettimana é de Moisés Sbardelotto.

Seus títulos? “Oh my goddess!”, “Mulheres e um Deus” (Des femmes et un Dieu) ou ainda “Deus.a” (Dieu.e). Esses podcasts foram imaginados e lançados nos últimos 15 meses por jovens católicas praticantes que afirmam ser feministas.

Feministas? Um palavrão para muitos na Igreja romana, que veem aí o cavalo de Troia de uma sociedade sem Deus. Para elas, ao contrário, é uma realidade. E, em uma instituição onde as funções de governo, de ensino e de administração dos sacramentos estão estritamente reservadas aos homens, conforme uma concepção diferencialista dos gêneros, elas consideram necessária uma profunda transformação.

Algumas delas apoiaram a iniciativa “Todas apóstolas!”, através da qual, em julho, sete mulheres se candidataram a funções reservadas pela tradição católica apenas a homens – diácona, pároca, bispa, núncia, pregadora... Em um tempo em que há mulheres rabinas e outras mulheres estão se preparando para ser rabinas até no judaísmo ortodoxo, em um tempo em que as mulheres imãs abrem mesquitas inclusivas, em um tempo em que as pastoras animam as igrejas protestantes há décadas, essas mulheres católicas não suportam mais o status quo da sua confissão religiosa.

Para algumas, o escândalo dos abusos sexuais tornou a mudança ainda mais urgente. “Quero espalhar sementes de uma alternativa para os meus filhos. Existem formas de viver a própria fé de maneira queer e feminista”, resume Alix Bayle, jornalista e cofundadora do “Todas apóstolas!” e do coletivo “Por uma parentalidade feminista”.

Algumas levantaram o problema da sua vocação sacerdotal, mas o seu questionamento é mais global do que apenas à questão dos ministérios ordenados reservados aos homens, símbolo de uma exclusão mais profunda das mulheres. É o que expressa Mathilde Hallot-Charmasson, 31 anos, fundadora de “Mulheres e um Deus”, um podcast que alterna entrevistas com mulheres cristãs sobre o seu caminho de fé e crônicas pessoais.

“Para mim – diz – o que acontece na Igreja me impede, como mulher, de realizar a minha vocação de batizada. É um obstáculo espiritual. O fato de a instituição ser exclusivamente masculina é uma amputação do rosto de Deus.”

Essa bibliotecária, proveniente de uma escola normal superior, “produto tanto da Igreja quanto da rede pública de ensino”, decidiu, assim como muitas outras, privilegiar um compromisso de afinidade em vez da vida paroquial, “um lugar difícil”. Ela se engajou com o movimento Magis, da família inaciana (próxima aos jesuítas).

Para iniciar um movimento, Anne Guillard optou por mergulhar na reflexão teológica. Essa doutoranda de 29 anos, que trabalha na interface entre Ciências Políticas e Teologia, tem uma recordação libertadora de um estágio de pesquisa nos Estados Unidos. Lá, ela frequentou uma igreja episcopal de “estrutura horizontal”, onde as mulheres também pregam. “Era um pouco como a igreja que eu sonho para a Igreja Católica”, resume. Lá ela também descobriu a teologia feminista e queer, que nasceu nos Estados Unidos há mais de meio século.

Hoje, ela optou por “tomar um caminho diferente”: a espiritualidade. “Não me sinto às margens da instituição, mas o meu objetivo é salvá-la.” Com três amigas, ela criou há um ano o “Oh my goddess!”, podcast que transmite todos os domingos a homilia de uma mulher e, após uma pausa durante o verão, será retomado em novembro.

Ela observa que os mais hostis à perspectiva feminista e inclusiva são muitas vezes os jovens, formados em um “catolicismo de cidadela” e que às vezes gritam com ela: “Vá para os protestantes!”. Ela se recusa a desistir: “Não posso abrir mão daquilo que eu faço. Uma parte íntima de mim se sentiria culpada. Devemos mostrar que existem outras formas de ser Igreja”.

Para muitas delas, o documentário sobre os estupros de religiosas por padres, transmitido pelo canal Arte em março de 2019, foi um “catalisador” para a ação. “Eu senti que havia uma relação entre aquelas violências e aquilo que eu experimentava como mulher comprometida”, afirma Mathilde Hallot-Charmasson. “Vejo muito bem como isso pode ocorrer. Como as mulheres são batizadas de segunda categoria, não importa deixar de reconhecer o seu compromisso com as paróquias. E, ao extremo, abusar delas.”

O que o filme mostrou claramente, afirmam elas, é a relação entre o poder e os abusos. “Para muitos, ainda é complicado compreender que o padre não apenas realiza um serviço, mas que também tem um poder e pode abusar dele”, afirma Alice Peyrol-Viale. Seu podcast “Deus.a” entrevista mulheres de fé, não apenas cristãs, sobre a compatibilidade do feminismo e das religiões, sobre o papel que as mulheres podem desempenhar nelas. “O que torna os abusos possíveis”, explica Mathilde Hallot-Charmasson, “é uma ignorância deliberadamente mantida e um desprezo pelas mulheres e pelo feminino.”

Quando criança e adolescente, ela já havia encontrado esses sinais de marginalização. “Segundo alguns párocos, eu não podia servir na missa. As meninas não tinham acesso ao coral.” Se isso tivesse sido possível, ela poderia ter se questionado sobre um ministério ordenado. “Mas hoje a minha resposta seria não – diz – porque, do jeito que ele é, o status do padre não me interessa. Não quero participar de um remendo da hierarquia como ela é. Não me interessa ser califa mulher no lugar do califa homem em uma fortaleza que está para desmoronar.”

Mas o que fazer se você é mulher e tem uma “vocação” para ser padre? Alice Peyrol-Viale está lidando com esse problema. Convertida aos 21 anos, ela tem agora 30 anos e sempre trabalhou no ambiente eclesial. Começou assumindo as regras internas da sua confissão de adoção. Depois, surgiu o problema do papel que as mulheres têm nela, frequentando o “Comité de la Jupe”. Ela acredita que há muito trabalho a fazer nas paróquias para que essa “luta não fique no nível intelectual ou centrada em Paris”.

No entanto, ela faz uma “constatação amarga”: “Muitas mulheres, especialmente jovens, que não se encontram na linha da Igreja, não se veem mais na paróquia. Elas ficam na periferia, em pequenos círculos independentes”.

“Nos últimos anos, as ações feministas católicas que mais me tocaram são as das freiras, porque elas formam comunidades, são organizadas. Veem-se reflexões sobre o que certas comunidades religiosas se tornarão, sobre as abordagens das neobeguinagens”, uma referência àquelas comunidades religiosas de mulheres leigas que, na Idade Média, viviam livres de qualquer autoridade hierárquica.

Alice Peyrol-Viale está em um período de discernimento da sua vocação. Ela é acompanhada pela Associação das Mulheres Padres Católicas Romanas. Desde a ordenação de sete mulheres padres em uma barcaça no Danúbio em 2002 por parte de um ex-arcebispo argentino, esse movimento se espalhou.

“Somos 239 no mundo”, afirma Christina Moreira, padre em uma comunidade católica espanhola e uma das sete “candidatas” do “Todas apóstolas!”.

Evidentemente, a Santa Sé não as reconhece. E ordenar uma mulher ou ser ordenada como mulher é motivo de excomunhão.

Em 2010, a publicação de um motu proprio de Bento XVI sobre os pecados mais graves a abalou. “O abuso de menores e a ordenação de mulheres estão no mesmo nível. Eu não podia ficar em uma instituição que diz que ordenar uma mulher é tão grave quanto violentar uma criança”, afirma ela.

De acordo com as demandas da sua comunidade, ela se esforça para ter acesso a um estilo de “governança horizontal” que abra espaço para os leigos. Ela é casada com um padre. “Se querem mulheres padres, é preciso permitir que elas se casem, porque uma gravidez não é algo que se pode esconder”, diz ela. Com o marido, ela quer “experimentar um ministério de casal. A ideia de não estar sozinha no altar. É preciso romper a imagem do homem solitário e passar para uma governança compartilhada”, explica.

Assim como as outras candidatas do “Todas apóstolas!”, ela foi recebida pelo núncio apostólico, o representante da Santa Sé na França. Ela lhe pediu “para se encontrar com o Santo Padre”. Sobre o tema da ordenação das mulheres, o Papa Francisco é tão determinado quanto os seus antecessores: para ele, a resposta é não.

Pensando no declínio do catolicismo europeu, Bento XVI afirmava que “são as minorias criativas que determinam o futuro”. Essas mulheres querem contribuir para moldá-lo.

 

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