Um divisor de águas político, o rio da integração nacional

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28 Outubro 2020

"O São Francisco tem o dom de poder unir como desunir a Nação. Com águas ele une o Brasil. Se seco, o Brasil se divide. Assim, o Velho Chico, não o Novo Chico do governo, continua sendo o Rio da Integração Nacional. Seu papel transcende a política vulgar de Brasília e dos partidos. Como isso se dá? Sem misticismo, são causalidades naturais, inteligíveis", escreve Ruben Siqueira, coordenador da Comissão Pastoral da Terra – CPT.

Eis o artigo.

Sem misticismo, o Rio São Francisco tem energia política e social especial, enraizada na natureza. Entenda esta teoria, uma inovação. Seu símbolo mais autêntico são os peixes, o surubim é o Rei do Rio. Depois veio o Homo sapiens. Os índios primeiro e depois os cafuzos, simbolizando as lutas por liberdade e a miscigenação, formando o Rio Moreno. Na Colônia, os primeiros golpeados foram os índios, sobretudo os cariri, pelas armas dos fazendeiros e pela catequese dos jesuítas. Segundo a natureza, o desmatamento de suas margens pelo fogo, para o ciclo do gado e do couro.

Mapa da extensão total do Rio São Francisco.
(Fonte: Banco de Informações e Mapas dos Transportes da Secretaria Executiva do Ministério dos Transportes)

O São Francisco tem o dom de poder unir como desunir a Nação. Com águas ele une o Brasil. Se seco, o Brasil se divide. Assim, o Velho Chico, não o Novo Chico do governo, continua sendo o Rio da Integração Nacional. Seu papel transcende a política vulgar de Brasília e dos partidos. Como isso se dá? Sem misticismo, são causalidades naturais, inteligíveis. Siga a leitura!

A base desse papel histórico está na crosta terrestre (biosfera), determinado pela geologia, geografia, a topografia, o clima, que produziu esse portentoso ecossistema sanfranciscano, organizando vidas. Ele recebe energias do sul de Minas, da Mata Atlântica e serras da Mantiqueira, da Serra Geral ou Espinhaço, do Quadrilátero Ferro-Aquífero e Aurífero, do Cerrado dos estados de Tocantins, Goiás, do Espigão de Goiás e até da transição da Caatinga com Amazônia. Quase todo o território do Brasil está em torno dele. A base da política é a vida na Terra, com sua biodiversidade e seus ecossistemas integrados. A luta de classes é apenas um evento interior a uma espécie, ela não determina o pulso da vida, apenas os interesses de classes sociais do Homo sapiens. A visão ecossistêmica da vida, da economia e da política explica por que o São Francisco é o Rio da Integração Nacional. Este conceito tem profundidade além da história recente, ele precede a Colônia Portuguesa.

Explicando melhor: o Agronegócio produziu a seca subterrânea com excessiva retirada para a irrigação nas áreas do Cerrado. E minguou o aquífero Urucuia com poços de até 700 metros de profundidade. Na estiagem o São Francisco está secando, não recebe mais aquelas águas da Integração Nacional. O desmatamento por toda parte, dentro da área de escoamento superficial da bacia quanto da água de fora da bacia que vinha pelas profundezas nos aquíferos, é a causa principal da tragédia nacional e do Rio São Francisco.

Para ter ideia dos mistérios da vida nacional, das coincidências e detalhes que podem mudar o mundo, afirmamos que, conforme a hora, um simples piparote, ou uma gota d'água, são suficientes para mudar o rumo dos acontecimentos. A opção do Lula assumida com Ciro Gomes em 2002, no segundo turno, alterando entendimentos técnicos e políticos por acordo eleitoreiro, simboliza a ruptura conceitual com uma proposta política plantada e regada por décadas, consagrada pelo povo, marcando assim o começo do fim do PT, que não percebeu as implicações que havia naquilo que parecia simples manobra política. Nós todos que assumimos em 2007 a Caravana em defesa do São Francisco, do Semiárido e contra a Transposição, percorrendo em onze dias treze capitais brasileiras e o interior de alguns estados como RN e CE, antes do desatinado início das obras, fomos proféticos. A Caravana uniu todos os movimentos sociais e políticos, sem sectarismo e está completando dez anos. Junto com as iniciativas corajosas do bispo de Barra dom Luis Cappio, o Brasil ficou conhecendo o debate.

Apresentamos propostas políticas registradas nos anais da história, oferecendo alternativas ao governo Lula, que não ouviu nem quis nos receber. Usou Geddel Vieira Lima contra nós. A Transposição foi filha de uma Transgenia perversa do PT. Não foi a causa determinante, ela já era símbolo da desorientação política nacional. Nem ainda funciona e a desagregação nacional já ocorre. O PT trocou o projeto de desenvolvimento com a marca da soberania da economia nacional e das reformas de base, sobretudo da educação, conectado na mobilização nacional, se jogando nas garras das Empreiteiras, da Indústria Política da Seca, do Agronegócio cedendo o direito de primogenitura duma Nação por uma gamela de lentilhas.

A decisão estratégica fatal nascera nos USA nos preparativos da campanha e foi divulgada aqui como Carta aos Brasileiros, onde o PT capitulou. Confirmou a lenta metamorfose que já vinha acontecendo e nasceu o PT Transgênico para pior. O cheque caução exigido foi emplacar o avalista Henrique Meirelles, vindo do PSDB e diretamente da Presidência do BankBoston, onde fazia competente carreira, para a Presidência do Banco Central, nos oito anos do governo do PT/Lula. Na época, crédulos ou ingênuos, nós pensávamos que seria um período de transição necessário, uma habilidade do PT, que precisaria de alguns anos para que seus quadros mais importantes assumissem de fato o Brasil. A escolha de um empresário mineiro, o prestigiado senador José Alencar, vimos como jogada de mestre e apoiamos, pois o adversário era da Fiesp. Mas o que supúnhamos ser provisório, e habilidades, se eternizava e aparecia a cada dia uma clara mudança de caráter e personagens estranhos tomando conta da casa. Mas quando Lula bateu o martelo pela Transposição e começou a rachar a base, nunca mais o PT foi o mesmo, foi se dividindo entre gente comprometida com as raízes - e os oportunistas ou os iludidos. E a corrupção fez o resto.

 

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