Francisco de Assis: cuidado, simpatia e ternura. Artigo de Leonardo Boff

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25 Setembro 2020

“Francisco penetrou no inconsciente coletivo da humanidade, no Ocidente e no Oriente e desde ali anima as energias benfeitoras que se abrem à relação amorosa com todas as criaturas, como se estivéssemos ainda no paraíso terreno”, escreve Leonardo Boff, ecoteólogo, da parte da família franciscana, em artigo publicado por Reflexión y Liberación, 22-09-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Boff é autor de "Francisco de Assis: saudade do paraíso" (Vozes, 1986), "São Francisco de Assis: ternura e vigor" (Vozes, 1981), entre outros livros.

Eis o artigo.

 

A covid-19 nos remete a um problema ecológico: a resposta da Mãe-Terra e da natureza que, como entes vivos, reagiram contra a agressão sistemática que sofrem há séculos por parte do voraz processo produtivista que não respeita os limites de sustentabilidade, e destruiu os habitats dos vírus. Estes buscam em outros animais, ou em nós humanos, um novo habitat, e se alimentam das células. É consequência do tipo de civilização técnico-científica que criamos a partir do século XVII, que tratava a Terra e a natureza sem cuidado, e cujo único valor era estar à disposição do uso dos seres humanos, para que roubem dela vantagens de todo tipo, especialmente, econômicas.

A visão secular da Terra, como Magna Mater e Pachamama, foi abandonada. Apenas modernamente, com a nova cosmologia e biologia, recuperou-se a noção da Terra como um Super-Ente vivo, que se auto-organiza sistematicamente para se manter vivo e produzir vida sempre, denominado Gaia.

Hoje, com a covid-19, a concepção de Terra-Gaia e de Pachamama dos povos andinos adquiriu relevância. Mostra-nos a urgência de refazer o contrato natural com ela, violado há muito tempo, se queremos frear seu contra-ataque contra a humanidade. Ela enviou já uma gama de vírus, entre eles o atual coronavírus, que pela primeira vez está assolando todo o planeta. Tais vírus, junto ao aquecimento global e outros eventos extremos, são sinais enviados pela Mãe-Terra para refletirmos e mudarmos nossa forma de habitar nela, e nosso modo destrutivo de produção.

A lição a se tirar destes sinais é que devemos voltar a nos sentir parte da natureza, e não os seus donos, e que nós, os humanos, somos a porção inteligente da Terra, com a missão de cuidar dela, como condição de nossa própria sobrevivência.

Para isso necessitamos figuras exemplares que nos mostrem que outra relação amigável e não destrutiva para com a Mãe-Terra e para com a natureza é possível. Na verdade, é a única que se revela benéfica para ambas as partes deste contrato natural.

No Ocidente surgiu um cristão de excepcional qualidade humana e religiosa que viveu uma profunda fraternidade universal com todos os seres da natureza: Francisco de Assis (1284-1226).

Em sua encíclica da ecologia integral, Laudato Si’: sobre o cuidado da Casa Comum, o papa Francisco apresenta São Francisco como “o exemplo por excelência do cuidado com o que é frágil, vivido com alegria e autenticidade. É o patrono de todos os que estudam e trabalham no campo da ecologia, amado também por muitos que não são cristãos” (nº 10). Diz ainda: “Coração universal, para ele qualquer criatura era uma irmã, unida a ela por laços de carinho; por isso se sentia chamado a cuidar de tudo o que existe... até das ervas silvestres que deviam ter seu lugar na horta de cada convento dos freis” (nº. 11-12).

O historiador Lynn White Jr. em seu artigo “As raízes históricas de nossa crise ecológica”, publicado em 1967, acusou o judaico-cristianismo, por seu antropocentrismo visceral, de ser o principal fator da crise que se transformou em um clamor. Por outro lado, reconheceu que esse mesmo cristianismo tinha um antídoto na mística cósmica de São Francisco de Assis. Para reforçar a ideia, sugeriu que Francisco fosse proclamado “patrono dos ambientalistas”, coisa que o papa João Paulo II fez em 29 de novembro de 1979.

De fato, todos os seus biógrafos, como Tomás de Celano, São Boaventura, Legenda Perusina e outras fontes da época, afirmam “a união amigável que Francisco estabeleceu com todas as criaturas; enchia de gozo inefável cada vez que olhava para o sol, contemplava a lua e dirigia o olhar para as estrelas e o firmamento”.

Ele deu o doce nome de irmãos e irmãs a cada criatura, aos pássaros do céu, às flores do campo e até ao feroz lobo de Gubbio. Construiu fraternidade com os mais discriminados, com os leprosos, e com todas as pessoas, como o sultão Melek el Kamel do Egito, com quem manteve longos diálogos, e admiração mútua.

No homem de Assis, tudo vem rodeado de cuidado, simpatia e ternura.

O filósofo Max Scheler, em seu conhecido estudo sobre “A essência e as formas da simpatia” (1926), dedica páginas brilhantes e profundas a Francisco de Assis. Ele afirma que “nunca na história do Ocidente surgiu uma figura com tantas forças de simpatia e emoção universal como a que encontramos em São Francisco. Nunca mais a unidade e a integridade de todos os elementos poderiam ser preservadas como em São Francisco, no campo da religião, da erótica, da atuação social, da arte e do conhecimento” (1926, p.110). Talvez por isso Dante Alighieri o chamou de “sol de Assis” (Paraíso XI, 50).

Esta experiência cósmica assumiu uma forma brilhante no seu “Cântico ao Irmão Sol”. Lá encontramos uma síntese acabada entre ecologia interior e ecologia exterior.

Como o filósofo e teólogo francês, o franciscano Éloi Leclerc (morto em 1977), sobrevivente dos campos de extermínio nazistas, mostrou que, para Francisco, os elementos externos como o sol, a terra, o fogo, a água, o vento e outros não eram apenas realidades objetivas, mas realidades simbólicas, emocionais, verdadeiros arquétipos que energizam a psique no sentido de uma síntese entre o exterior e o interior e uma experiência de unidade com o Todo.

Esses sentimentos, nascidos da razão sensível e da inteligência cordial, são urgentes hoje, se quisermos refazer a aliança de sinergia e benevolência com a Terra e seus ecossistemas.

O grande historiador inglês Arnold Toynbee refletiu com razão: “Para manter a biosfera habitável por mais dois mil anos, nós e nossos descendentes devemos esquecer o exemplo de Pedro Bernardone (pai de São Francisco), o grande empresário têxtil do século XIII, e de seu bem-estar material, e começar a seguir o modelo de seu filho, Francisco, o maior de todos os homens que já viveram no Ocidente. O exemplo que São Francisco nos dá é tal que os ocidentais devem imitá-lo de todo o coração, porque ele é o único ocidental que pode salvar a Terra” (El País, 1972, p. 10-11).

Hoje, São Francisco tornou-se o irmão universal, além das confissões e culturas. A humanidade pode se orgulhar de ter tido um filho com tanto amor, com tanta ternura e com tanto cuidado por todos os seres, por menores que pareçam.

É uma referência espontânea de uma atitude ecológica que confraterniza com todos os seres, convive amorosamente com eles, protege-os contra as ameaças e cuida-lhes como irmãos e irmãs. Soube descobrir Deus nas coisas. Acolheu com jovialidade as doenças e as contradições da vida. Chegou a chamar de irmã a própria morte. Estabeleceu uma aliança com as raízes mais profundas da Terra e com grande humildade unia-se a todos os seres para cantar louvores com eles e não somente através deles, como disse em seu Cântico à beleza e à integridade da Criação.

Como arquétipo, Francisco penetrou no inconsciente coletivo da humanidade, no Ocidente e no Oriente e desde ali anima as energias benfeitoras que se abrem à relação amorosa com todas as criaturas, como se estivéssemos ainda no paraíso terreno (cf. BOFF, Leonardo. Francisco de Assis: saudade do paraíso. Petrópolis: Vozes, 1986).

Ele nos mostra que não estamos condenados a ser os agressores obstinados da natureza, mas sim seu anjo da guarda, que protege, cuida e transforma a Terra em uma Casa Comum de todos, a comunidade humana e terreno. Ele nos suscita a saudade de uma integração que perdemos por causa da ruptura que estabelecemos com a natureza. Com ele nos convencemos de que, por todos os lados, há ainda sinais do paraíso terrestre que nunca se perdeu totalmente.

O espírito de São Francisco, o irmão universal, podemos recriar dentro de nosso interior e irradiá-lo para o exterior, como lição aprendida do confinamento social forçado.

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