Nicarágua. Ação comunitária diante de uma falsa normalidade

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22 Setembro 2020

São onze da noite na Espanha, três da tarde na Nicarágua. O doutor Ariel José Arias Zepeda, nicaraguense residente na Espanha, recebe uma ligação urgente de sua família: seu primo de 30 anos está com uma insuficiência respiratória. As opções são limitadas: ir ao hospital público seria expor cidadãos e o atendimento domiciliar especializado pode chegar tarde. Por meio de uma videochamada, o médico indica à família o tratamento que, após algumas horas de agonia, dá certo. Desde então, toda vez que recebe uma mensagem de um familiar, teme que tenha a ver com a Covid-19: “Tinha a segurança de que meu país estava preparado para enfrentar essa pandemia, porque temos experiência em outras como a dengue, mas as decisões políticas desmoronaram o sistema de saúde e prevenção”, lamenta o doutor Arias.

A reportagem é de Estefanía M. Amador, publicada por El Salto, 21-09-2020. A tradução é do Cepat.

A Nicarágua foi o único país da América Latina onde não foi declarado estado de emergência, não houve fechamento de fronteiras e escolas, ligas de futebol e beisebol continuaram e onde, contrariando as advertências da Organização Mundial de Saúde, o Governo não recomendou o uso de máscaras e incentivou a população com diversas atividades festivas. Após essas medidas, os dados oficiais do país são, até 18 de setembro, de uma incidência de 74,89 casos por 100.000 habitantes, com um total de 4.961 casos.

A comparação com países vizinhos alimenta a desconfiança de alguns setores da sociedade em relação à veracidade dos números: Honduras chega a 707,95 casos, por 100.000 habitantes, enquanto El Salvador e Costa Rica chegam a 421,60 e 1.193,89, respectivamente. Os outros países da América Central (Guatemala, Belize e Panamá) também diferem consideravelmente dos dados oferecidos pela Nicarágua.

Em um centro médico privado na cidade de León, Jorge Alemán atende diariamente pessoas com sintomas associados ao coronavírus que, no entanto, não sabem se são positivos - só o Ministério da Saúde (Minsa) pode realizar os testes PCR -, sendo assim, não engrossam a lista oficial. Desde a confirmação do primeiro caso positivo até vários meses depois, o governo só fez o teste em pessoas que viajaram para o exterior e também apresentavam sintomas agudos da doença. “As informações fornecidas pelo governo são herméticas, por isso mantemos um sub-registro que nos permite nos aproximar da realidade”, afirma o médico.

O Minsa repassa a situação da pandemia no país por meio de um relatório semanal com três informações: casos positivos, pessoas recuperadas e óbitos. O Governo não indica qual é a incidência nas diferentes regiões e localidades do país, o número de exames que são realizados para a confirmação da doença e quais destes são negativos ou correspondem a cidadãos assintomáticos.

A ativação de um plano de ação dentro dos serviços médicos demorou a ocorrer. Ezequiel (nome fictício), estudante de medicina do último ano, aponta que "existe um protocolo, mas carece de uma base científica sólida e não é seguido de forma ideal". Antes dessas medidas, o Governo proibia os profissionais de saúde de usar máscaras e sistemas de proteção: “Seu objetivo era não chamar a atenção do público e que os pacientes não tivessem medo”, confirma Alemán, que também garante que os EPI ainda são insuficientes e que a proibição de que os centros recebam doações privadas os obriga a obter o material individualmente e em sigilo.

Resposta cidadã

Diante da pouca informação e transparência exposta por fontes oficiais, profissionais de saúde e líderes comunitários lançaram o Observatório Cidadão da Nicarágua. Sob o lema “a informação salva vidas”, um grupo de pessoas se organizou de forma voluntária e anônima para documentar e alertar a população sobre como a pandemia pode estar se desenvolvendo nas diferentes regiões do país, para conscientizar sobre a necessidade de medidas de prevenção locais e oferecer ao profissional de saúde alguns dados de referência. Em 9 de setembro, o Observatório registrou 10.205 casos possíveis e 2.707 mortes por pneumonia, cifra que duplica o número oficial em termos de infecções e em quase 20 vezes o número de mortes.

María (nome fictício), trabalhadora de saúde e integrante da iniciativa, afirma que “sabe-se que o Governo está agindo de forma insensata e que houve um estímulo deliberado à propagação e contágio”, portanto, considera, “há razões para justificar uma reclamação internacional”. O trabalho desenvolvido pelo Observatório, explica o grupo, baseia-se numa contribuição científica e epidemiológica desenvolvida através da vigilância comunitária, que não almejam ser um meio oficial de informação e reconhecem as suas limitações para informar com segurança a situação sanitária.

Com base nas informações espontâneas de casos e óbitos associados à Covid-19 divulgadas nas comunidades, a organização trabalha em conjunto com lideranças comunitárias, profissionais de saúde e cientistas sobre a possível veracidade desses casos. Com esses dados, o observatório documenta seus relatórios por meio dos canais digitais, a fim de ampliar a lacuna de informações oficiais que falta aos cidadãos.

Também transferem irregularidades documentadas, em sua maioria relativas à exposição de pessoas em atividades e aglomerações, mas também documentam enterros clandestinos realizados pelo Minsa, escassez de serviços públicos, intervenção das forças armadas e denúncia de ameaças e assédio.

Entre estes últimos, registram pelo menos 31 demissões arbitrárias de profissionais de saúde por exigirem melhorias das autoridades sanitárias e por serem considerados “opositores” ao Governo. A estas denúncias junta-se a proibição de manifestações públicas decretada pelo Governo, há dois anos, após a revolta da população contra as decisões políticas tomadas por Daniel Ortega.

Entre 2018 e 2019, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos documentou 328 mortes, 3 desaparecidos, 130 presos e mais de 88.000 cidadãos nicaraguenses exilados em decorrência dos protestos, fato que impossibilita a reivindicação pacífica de grupos contrários à gestão sanitária do Governo.

Situação agravada

Um dos casos registrados pelo Observatório, mas não pelo Minsa, é o falecimento de Sergio Alberto Vargas Delgado, 58 anos. Inicialmente, pensou que pudesse ser um resfriado: teve febre, tosse e dor no peito. No entanto, o cansaço logo chegou e a situação piorou. Desde o primeiro momento, distanciou-se da esposa e do filho pequeno, que moravam na mesma casa, mas não se atreveu a ir ao posto de saúde devido às condições higiênicas e saturadas. Depois de quatro dias, faleceu.

Seu filho, Sergio Roberto Vargas Baltodano, confirma que o Minsa se apoderou do corpo de seu pai e o enterrou sem a possibilidade de nenhum parente acompanhar o caixão. “Crise aguda de asma e broncoespasmo”, consta no atestado de óbito de Sergio Vargas. Apesar de apresentar sintomas de Covid-19, o teste não foi realizado, tampouco em qualquer membro da família que esteve em contato com ele. A família recorreu a radiografias para “descartar” a doença: “Estamos resignados por não termos conseguido fazer mais nada pelo meu pai, nem mesmo nos despedir dele. A situação do país é desesperadora”, finaliza Sergio Roberto.

Em razão da pandemia global, a população da Nicarágua sofreu um aumento nos serviços de eletricidade e água controlados pelo governo Ortega, bem como na cesta básica e no preço dos medicamentos e elementos de proteção contra os coronavírus.

Com uma população de quase seis milhões e meio de habitantes, a Fundação Nicaraguense para o Desenvolvimento Econômico e Social alertou, no ano passado, que o país poderia ter perto de dois milhões de pessoas vivendo na pobreza. Para as fontes consultadas, é um fato que apesar da "normalidade" que o Governo continua querendo demonstrar, o país centro-americano enfrentará uma possível situação de extrema gravidade social, nos próximos meses.

É assim que Carolina (nome fictício), uma das ativistas que ficou presa após os protestos de 2018 contra o Governo, afirma: “O país vai precisar de ajuda internacional. Esse vírus não atinge todos os cidadãos da mesma forma, visto as possibilidades de o combate à doença estar fortemente vinculado ao nível socioeconômico da população”.

Do Observatório, por outro lado, María acredita que será difícil justificar o pedido de ajuda internacional: “Ao minimizar a pandemia no país e normalizar a situação de emergência que vivemos, será muito difícil demonstrar internacionalmente a necessidade de alimentos e recursos sofrida pela população”. Espera, caso essas doações sejam feitas, que os países e as organizações garantam os mecanismos necessários para que a ajuda chegue ao seu destino. “Sem interesses de clientelismos”, acrescenta.

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