Maior gestora de fundos do mundo, BlackRock anuncia política contra aquecimento global, mas investe na pecuária e na JBS

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11 Setembro 2020

Norte-americana BlackRock não aborda pecuária em sua empreitada para reduzir impacto ambiental e investe na multinacional brasileira do setor da carne apesar das denúncias ligadas ao desmatamento. Avanço do gado sobre a floresta amazônica é um dos motores da crise climática.

A reportagem é de André Campos e Piero Locatelli, publicada por Repórter Brasil, 09-09-2020.

Não faltou alarde quando a norte-americana BlackRock, a maior gestora de fundos de investimentos do mundo, anunciou em julho sua ampla política de combate ao aquecimento global. O principal ponto era a punição de 53 empresas que não haviam avançado para reduzir seu impacto ambiental. Entre as atingidas estavam gigantes como a petroleira ExxonMobil e a montadora Volvo.

Mas enquanto anunciava que a crise climática estava mudando completamente as finanças e que era preciso se preparar para uma “significativa realocação de capitais”, o CEO Larry Flink preferiu deixar de lado uma das principais causas do aquecimento global: a indústria da carne, que é hoje o motor do desmatamento na Amazônia brasileira. As palavras gado e desmatamento não foram citadas sequer uma vez nas 30 páginas do relatório em que a BlackRock descreve suas ações contra a emergência climática. A empresa também omitiu do documento sua participação na JBS, a maior exportadora de carne do mundo e que tem casos de desmatamento ilegal entre seus fornecedores.

Parte dos investimentos na multinacional brasileira, aliás, são feitos por meio de um fundo da BlackRock que “privilegia empresas com menor emissão de gases de efeito estufa”. O fundo tem patrimônio de R$ 53 milhões e investe nas companhias do Índice de Carbono Eficiente, criado pela bolsa de valores brasileira (B3) e pelo BNDES que, supostamente, inclui companhias com “práticas transparentes com relação a suas emissões de gases do efeito estufa”.

A BlackRock está constantemente entre os maiores acionistas da JBS. Em maio deste ano, a gestora chegou a ser a terceira maior acionista da empresa, atrás somente da J&F Investimentos, controlada pelos fundadores da empresa, e do BNDES. Investigações da Repórter Brasil já revelaram como a JBS transporta gado de desmatador, contrariando seu compromisso de só trabalhar com fornecedorer que preservam a Amazônia, e mostraram como a empresa adquire animais de pecuaristas que invadem áreas indígenas. A JBS tem, reiteradamente, negado as situações encontradas na sua cadeia produtiva.

O desmatamento é justamente uma das principais causas do aquecimento global, segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU. Ainda assim, não ganha a mesma atenção do que os setores ligados à energia e infraestrutura. “A BlackRock não fez tudo o que deveria fazer em questões energéticas, até porque eles ainda são o maior investidor mundial em carvão. Mas eles têm se pronunciado muito mais sobre energia do que sobre o agronegócio”, diz Jeff Conant, diretor do Programa de Florestas da organização Friends of the Earth. “Em geral, os investidores têm demorado a abordar o papel crucial que as florestas e o uso da terra desempenham na condução da crise climática, e têm enfrentado muito menos pressão sobre essas questões.”

Segundo investigações da Repórter Brasil, a JBS transporta gado de desmatador e adquire animais de pecuaristas que invadem áreas indígenas (Fotos: Bruno Kelly/Amazônia Real)

Política de sustentabilidade ignora agronegócio

A BlackRock é um grande investidor em 3 das 25 maiores empresas abertas do mundo com mais chance de terem em suas cadeias produtivas fornecedores que promovem desmatamento, segundo estudo publicado pelas organizações Friends of the Earth US e Amazon Watch. Além da pecuária, o levantamento também considera investimentos em setores como óleo de palma, borracha e grãos. Mesmo com esse peso no agronegócio, o recente anúncio da BlackRock para combater o aquecimento global foi totalmente focado em empresas do setor de energia e infraestrutura.

Antes do anúncio sobre a crise climática, BlackRock publicou uma nova política de sustentabilidade para o agronegócio. Até mesmo na política voltada ao setor, a pecuária não é abordada e o desmatamento só é citado duas vezes. Em um deles, a gestora pede que “as empresas divulguem quaisquer iniciativas” para obter cadeias produtivas livre de desmatamento. Ela também pede que os resultados sejam disponibilizados “idealmente com algum grau de auditoria independente”.

A reportagem questionou a BlackRock se alguma medida já havia sido tomada em relação ao seu investimento na JBS. Uma porta-voz da empresa informou que a gestora entrou em contato com a JBS para discutir suas práticas sobre questões específicas para operar na Bacia Amazônica, como o uso da terra e gestão da cadeia de fornecedores, e ouvir suas opiniões sobre os riscos climáticos de longo prazo para a agricultura associada ao desmatamento acelerado. “Desde esses compromissos no ano passado, continuamos a monitorar de perto essas empresas para avaliar seus padrões operacionais e seu progresso”, escreveu a porta-voz da empresa em e-mail enviado à reportagem. (Leia a íntegra das respostas).

Investimento na JBS ‘ambientalmente responsável’?

Parte dos investimentos da BlackRock na JBS são vendidos como uma opção sustentável. As ações integram um fundo que faz investimentos atrelados ao Índice de Carbono Eficiente (ICO2) — anunciado como um fundo que “favorece as empresas com menor emissão de gases de efeito estufa” e que traz uma “solução de investimento socialmente responsável de baixo custo”.

Para integrar o ICO2, o principal critério é a apresentação de um inventário de emissões de gases do efeito estufa. O levantamento, no entanto, foca apenas nas operações diretas da empresa. As emissões associadas aos fornecedores não são consideradas.

Como a BlackRock administra um fundo que replica esse índice, com ações de todas as companhias que estão nele, um investidor em busca de opções sustentáveis pode vir a aplicar seu dinheiro em uma empresa cujos fornecedores estão envolvidos com desmatamento ilegal. A gestora norte-americana alega que não pode substituir as ações de uma empresa por outra dos índices escolhidos pelos seus clientes.

No entanto, isso seria totalmente possível, segundo Moira Birss, diretora de Clima e Finanças da organização Amazon Watch. Segundo ela, as gestoras têm a flexibilidade para excluir determinadas companhias desses índices, que reúnem ações de empresas com características em comum, como a baixa emissão de carbono. “Mesmo que uma determinada empresa, como a JBS, permaneça em um índice, gestores como a BlackRock ainda têm o poder de pressionar as empresas a melhorar suas políticas, embora até agora a BlackRock não tenha demonstrado que está efetivamente usando esse poder”, afirma Birss.

Pressão por mudança nos EUA

A BlackRock vem sendo pressionada para mudar os seus investimentos na agropecuária. No ano passado, congressistas americanos questionaram as atitudes da gestora em relação ao desmatamento na Amazônia. “Cabe às instituições financeiras dos EUA adotarem uma postura firme e interromper todo o financiamento dessa destruição, dando assim um forte exemplo para outras instituições seguirem”, disse, na ocasião, a deputada Rashida Tlaib, do Partido Democrata.

No ano passado, o advogado indígena Luiz Eloy Terena, da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), foi à assembleia da empresa em Nova York, onde discursou sobre os impactos dos investimentos da gestora na Amazônia. “A pressão por novas áreas para a expansão agropecuária e a retirada ilegal de madeira provocaram a derrubada de aproximadamente 150 milhões de árvores, somente nesta região [amazônica],” disse o advogado, citando os investimentos da BlackRock na JBS e na Bunge, a maior compradora de soja do país. “Em razão desse tipo de destruição em nossos territórios e modos de vida, viemos aqui alertar sobre os riscos que este tipo de investimento implica”.

A APIB demanda que a BlackRock exija da JBS, e de outras empresas onde ela é acionista, uma maior fiscalização de suas cadeias produtivas e a restrição da compra de commodities produzidas em propriedades localizadas em terras indígenas ou que estejam operando em áreas de conflito. “A gente entende que isso é o mínimo que uma empresa que se considera sustentável tem que observar nesse momento,” diz Eloy.

Enquanto isso, apesar de anúncios pontuais, os esforços da BlackRock parecem ser insuficientes para uma mudança mais ampla dos impactos do setor da pecuária sobre o meio ambiente. Para Shona Hawkes, consultora sênior da organização Global Witness, bancos e investidores deveriam exigir que os governos aprovem leis que os obriguem a fazer a chamada “devida diligência”, na qual empresas devem identificar, prevenir e publicar os riscos de direitos humanos, ambientais e de corrupção vinculados às suas operações, subsidiárias ou cadeias de valor. “Enquanto o status quo permitir que bancos e investidores lucrem com atividades ligadas ao desmatamento, é difícil levar a sério suas promessas de mudança”, diz Hawkes.

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