Francisco: nem conservador nem progressista. O discernimento “aberto” do papa jesuíta

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08 Setembro 2020

O longo artigo que a revista La Civiltà Cattolica publica no seu último caderno quinzenal (número 4.085), dedicado aos primeiros sete anos de governo do Papa Francisco na Igreja, é um texto de indubitável fascínio intelectual.

A reportagem é de Fabrizio D’Esposito, publicada em Il Fatto Quotidiano, 07-09-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Quem o escreveu foi o diretor, Pe. Antonio Spadaro, que pode se orgulhar de um sólido costume de fé e de pensamento com o seu coirmão jesuíta, eleito ao sólio pontifício em 2013.

Porém, é um texto que corre o risco de virar notícia apenas pelo uso surpreendente de um famosa metáfora berlingueriana nas palavras iniciais: “Depois de sete anos, qual é o impulso propulsor deste pontificado?”. Uma alusão explícita, em todo o caso, a uma revolução em curso.

Ou, ainda, um artigo que pode ser sugado, de modo evidente, pelo “joguinho” direita versus esquerda na interpretação das mensagens enviadas pela revista internacional dos jesuítas, da questão do celibato sacerdotal ao clima progressista na Igreja alemã.

Na realidade, o Pe. Spadaro realiza precisamente a operação oposta em relação às contraposições ideológicas ou políticas na Igreja e explica o sentido do magistério de Francisco. A sua é a visão inaciana, do fundador da Companhia de Jesus. E o método decisivo de discernimento, tornado célebre pelos Exercícios Espirituais de Inácio de Loyola.

Em suma, o Papa Bergoglio é um papa jesuíta no verdadeiro sentido da palavra, mas que deve ser aproximado à corrente mística da Companhia, a de São Pedro Fabro, o “padre reformado”.

E o ponto de partida é de uma intensa beleza teológica, típica do discernimento. Ou seja, o “esvaziamento” de si mesmo, tendo como exemplo máximo “o coração de Cristo” que “é o coração de um Deus que, por amor, se esvaziou” (Bergoglio, 2014).

Esse processo interior imerso na realidade (“a realidade é sempre superior à ideia”) e, portanto, no povo e nos seus sofrimentos não conduz a um programa pré-definido, a um “road map” a ser implementado com prazos precisos.

Pelo contrário, e aqui há outra expressão muito bonita, “o caminho se abre ao caminhar”. Ou seja, “uma estrada aberta” em que a espiritualidade inaciana não se impõe, mas está ligada à dinâmica da história:

“De fato, ela faz levedar a história e organiza, estrutura uma instituição.” E ainda: “O papa tem uma constante dinâmica de discernimento, que o abre para o futuro, também o da reforma da Igreja, que não é um ‘projeto’, mas sim um ‘exercício’ do espírito que não apenas pretos e brancos, como veem aqueles que sempre querem travar ‘batalhas’”.

É evidente o golpe contra os áridos fariseus da direita clerical, mas também contra os próprios defensores de Bergoglio (como observou o historiador Alberto Melloni) que exigem tempos certos, especialmente em matéria de poder curial.

O tempo do processo reformador está inserido nessa dinâmica de discernimento espiritual: “Às vezes, um problema é resolvido sem querer enfrentá-lo logo”. O reformismo de Francisco, portanto, é flexível e sem formas precisas, no qual a conversão é “um ato de governo radical”. E não “mais uma ideologia da mudança”. Adversários e amigos impacientes do papa fariam bem em entender isso, começando por esvaziarem a si mesmos.

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