Tomado pela fixação por Jesus. Entrevista com Fulvio Ferrario

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29 Agosto 2020

Os leitores da Riforma conhecem Fulvio Ferrario por suas frequentes intervenções neste jornal, enquanto os membros das nossas igrejas o conhecem principlmente como professor da Faculdade de Teologia Valdense e autor de muitos livros.

Mas nem todo mundo sabe que antes de estudar e depois ensinar teologia protestante e ser bem conhecido nos ambientes acadêmicos e ecumênicos italianos, mas também fora da Itália, ele se formou em Filosofia na Cattolica em Milão com uma tese sobre Hans Küng em 1980, com apenas 22 anos (nasceu em Milão em 1958).

Confirmado na igreja valdense de Milão em 1983, formou-se na faculdade valdense e foi consagrado pastor em 1989. Exerceu o ministério pastoral nas igrejas de Alessandria e Bassignana (1989-1997) e na de Milão (1997-2002).

Em 1997 obteve o seu doutorado pela Universidade de Zurique com uma tese sobre a hermenêutica de Zwingli (orientado por Fritz Büsser). Desde 2002 é professor de Teologia Sistemática na Faculdade de Teologia da qual, desde 2014, é decano.

A entrevista é de Paolo Ricca, publicada por Riforma, 28-08-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis a entrevista.

 

Ernst Bloch, em seu Ateismo nel cristianesimo, escreve: "O melhor da religião é que ela desperta hereges". Como você comentaria essa frase?

Colocada dessa forma, eu não concordo com ela. Minha esperança é que o melhor da minha "religião" seja que ela diga a verdade sobre Deus e o universo. Nela encontrei depois "ortodoxos" e "hereges" que testemunharam Jesus para mim; e outros “ortodoxos” e “hereges” que eu teria preferido não conhecer.

Os antigos diziam que a filosofia é o remédio da alma e que a virtude é a medida da vida. Por que em nossa Faculdade - pelas lembranças que tenho dela - fala-se tão pouco (ou nunca) de virtude e se dá por certa a filosofia em vez de continuar a ensiná-la como irmã da teologia?

No que diz respeito à virtude, creio que o que você afirmou tem a ver (claro: por via indireta) com a crítica à Reforma e à ética aristotélica, recebida de forma simplificada e até um pouco simplista. Quanto à filosofia (que hoje, na nossa Faculdade, é oferecida a todos, embora não seja obrigatória para todos), gostaria de responder de uma forma banal, mas realista: não é materialmente possível tornar obrigatórios todos os ensinamentos que, por si só, seriam necessários ou pelo menos bastante úteis.

Há quem argumente que, ao abordar as chamadas "grandes questões" (quem somos? Para onde vai a história humana? De onde vem a vida e o cosmos? Etc.), as perguntas são mais importantes do que as respostas. Mas a fé não quer ser justamente isso: uma resposta às perguntas? Ela é realmente?

Pessoalmente, não sou defensor do "perguntismo”: considero-o, se me permitem, algo vagamente de salão. Eu acredito que se uma pergunta é séria, pede uma resposta. Também acredito que as respostas humanas às "grandes questões" sejam sempre parciais e provisórias. A fé (ou mais precisamente: Jesus) é certamente uma resposta, mas ao mesmo tempo é mais outra interrogação. Não se trata de um círculo vicioso, mas sim de um caminho. Dizer que a última resposta é o próprio Deus não é um clichê (pelo menos: não necessariamente): é o que a Bíblia pensa.

Antes de se tornar um valdense, isto é, protestante, você era um católico romano. Como você descreveria, hoje, essa transição da fé cristã que vivia na Igreja Católica para a forma atual de vivê-la? Qual é, em poucas palavras, a diferença?

Embora hoje eu ame o catolicismo romano mais do que eu o amava como católico (na minha opinião porque é mais "bonito" visto de fora do que de dentro!), continuo pensando da mesma maneira: a diferença está na forma de compreender a Igreja. Não se trata apenas de uma questão de doutrina, mas sim de uma transfiguração da Igreja, um pouco mística, um pouco metafísica, que no final se traduzir na legitimação sagrada de um sistema de poder não desprovido de traços preocupantes. Não "apenas" do absolutismo papal: o problema é generalizado. Um amigo, teólogo moral, uma vez me disse: evito a ética sexual, porque se falasse sobre isso não seria mais católico. Pois bem, essa não é a verdade que, segundo o Jesus de João, vos “libertará”.

Você - até onde eu sei - está muito envolvido no movimento ecumênico. Você tem uma ideia de como uma futura unidade cristã poderia se configurar?

Acredito em uma comunhão na oração, ocasionalmente na Eucaristia, no testemunho, no que me diz respeito ao trabalho teológico, com pessoas e grupos de diferentes igrejas. Isso já é uma realidade: mesmo a hospitalidade eucarística, a despeito dos hierarcas romanos (para não falar dos ortodoxos). Quanto a uma unidade institucionalmente estruturada, acho que não é possível a médio prazo e nem a desejo mais. Se houvesse, de fato, seria com base na eclesiologia católica, como indicam os documentos de consenso. E eu me encontraria no ponto de partida. É uma perspectiva deprimente; suponho, no entanto, transitar pela Igreja triunfante antes que ela se concretize e é um dos poucos motivos que me fazem apreciar a velhice.

O futuro da humanidade não poderá deixar de ser inter-religioso. Lembro que Paul Ricoeur, convidado da faculdade valdense, me disse em uma conversa privada absolutamente informal: "Eu não aprendo nada do Islã." Em sua opinião, há algo ou muito a aprender com o Islã?

Estou ciente da extrema pobreza espiritual que a minha resposta denuncia, mas só posso dizer: o que sei é pouco demais para aprender algo decisivo. É como se todas as minhas energias espirituais (se é que as tenho) se concentrassem em tentar compreender Jesus, com a ajuda da tradição protestante e católica (também do Oriente cristão, sempre entendi pouco). Consolo-me repetindo uma grande banalidade que, no entanto, também é verdadeira: a vida é curta demais para entender tudo.

Você se tornou um cristão na Igreja Católica. Poderia nos contar como isso aconteceu? Ou acredita que, como não podemos contar sobre nosso nascimento, também não podemos falar sobre o nascimento de nossa fé?

Até os dezesseis anos, ser cristão significava para mim adotar as convicções “existenciais” dos meus pais e ser politicamente conservador, como meus pais (que inclusive eram simples funcionários). Então, de repente, percebi que a fé deve ser fundamental para a vida de uma pessoa ou não faz sentido. Desde aquele dia tenho sido tomado por uma "fixação" por Jesus, ou seja, por uma espécie de "necessidade" (por uma vez, eu diria que a citação de Paulo não está fora do lugar: é realmente uma dificuldade fazer "o contrário") para viver o a vida (também, talvez acima de tudo, seus fracassos, as mesquinharias, a miséria de um cotidiano egoísta e preguiçoso, etc.) em relação à palavra do Senhor. Eu nem saberia dizer bem em que relação.

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