Cinco coisas que o papa Francisco deveria fazer enquanto está confinado por causa da pandemia

Revista ihu on-line

Metaverso. A experiência humana sob outros horizontes

Edição: 550

Leia mais

Caetano Veloso. Arte, política e poética da diversidade

Edição: 549

Leia mais

Mulheres na pandemia. A complexa teia de desigualdades e o desafio de sobreviver ao caos

Edição: 548

Leia mais

Mais Lidos

  • Padres despedaçados. Artigo de Pietro Parolin

    LER MAIS
  • Na igreja do Papa Francisco, os movimentos estão parando

    LER MAIS
  • Abusos, sínodo e a falsa prudência

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


17 Agosto 2020

“Há muitas coisas que o papa Francisco precisa fazer enquanto está confinado no Vaticano. Francisco odeia esse tipo de trabalho administrativo – para ele, é o equivalente eclesial de limpar o porão – mas isso é parte do seu trabalho e, se não enfrentar isso, acabará por comprometer sua reputação. A hora é agora”, escreve Thomas Reese, jesuíta estadunidense, em artigo publicado por Religion News Service, 13-08-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Eis o artigo.


O papa Francisco é um pastor que gosta de estar com seu povo, mas a pandemia de covid-19 tornou isso impossível. Ele não pode viajar ou convidar multidões para a Praça São Pedro. Ele não pode abraçar os doentes e deficientes. Ele não pode falar com os peregrinos. Ele não pode nem mesmo celebrar a Eucaristia para multidões.

Francisco tornou-se prisioneiro do Vaticano, exatamente o que ele nunca quis ser. O que ele deve fazer com todo o seu tempo extra?

Aqui estão cinco caminhos que o Papa poderia tomar nesse tempo.

Primeiro, Francisco deveria rezar e escrever sobre a pandemia aos católicos e pessoas de todo o mundo, dar-lhes consolação e esperança. Ele precisa falar com as pessoas e governantes sobre como responder à covid-19 de modo que reflita o amor cristão e o ensino social católico.

Segundo, Francisco precisa convocar encontros virtuais com especialistas para discutir como o uso da internet e das mídias sociais pode fortalecer pequenas comunidades virtuais na igreja a nível paroquial, os grupos poderiam, por exemplo, refletir e rezar as próximas leituras dominicais antes de ouvir os padres na missa dominical. Esses grupos de leigos poderiam planejar projetos educacionais e sociais de ajuda aos pobres. Já existem muitas experiências ocorrendo ao redor do mundo, e uma conferência de especialistas e praticantes seria uma grande maneira de compartilhar conhecimento e as melhores práticas.

Isso não deveria ser um encontro de bispos incapazes de pensar para fora das estruturas hierárquicas. Temos muita pregação e ensino online. O que é necessário é uma abertura para a participação interativa de leigos, particularmente de especialistas em tecnologia e aqueles que já a usam para fomentar a comunidade.

Terceiro, Francisco precisa terminar de lidar com o escândalo de Theodore McCarrick.

McCarrick, que era cardeal e arcebispo, foi demitido do sacerdócio por abusar sexualmente de crianças e dormir com seminaristas. As pessoas ainda querem saber por que ele conseguiu subir tão alto na igreja. Quem nos Estados Unidos e em Roma soube de suas transgressões e quando souberam disso?

Um relatório que responderia a essas perguntas foi encomendado por Francisco. Mas onde está? Meu palpite é que o Vaticano (incluindo, talvez, Francisco) está se arrastando porque o relatório fará com que os dois últimos papados, especialmente o de João Paulo II, pareçam ruins. O que esses Papas sabiam? O que as pessoas ao seu redor sabiam? Por que o processo de consulta para a nomeação de McCarrick a três dioceses (Metuchen, Newark e Washington), além de sua promoção a cardeal, falhou?

Quarto, o Papa precisa lidar com a corrupção financeira no Vaticano e na Igreja.

O papa emérito Bento XVI recebe crédito por iniciar a reforma das finanças do Vaticano durante seu papado, trazendo a Moneyval, uma agência financeira internacional, para enfrentar a lavagem de dinheiro e o financiamento do terrorismo. Mas, repetidas vezes, as tentativas de limpar as finanças encontraram oposição e os reformadores acabaram sendo forçados a sair.

Um maior sucesso foi a limpeza no Banco do Vaticano. Os auditores externos gastaram incontáveis horas examinando todas as contas. Novos procedimentos foram implementados, o staff foi treinado e a supervisão foi melhorada.

Mas nós precisamos de uma explicação completa de porquê a alta chefia da Autoridade de Informação Financeira da Santa Sé e da Cidade do Vaticano foi demitida. Quando alguém como René Bruelhart, com uma impecável reputação internacional, é forçado a rescindir, há algo terrivelmente errado.

A reforma do banco é um modelo de como a reforma deve seguir: auditores externos devem trazer uma revisão completa da agência. Se Francisco não quer gastar dinheiro com isso, a maioria dos doadores nos Estados Unidos e Alemanha devem se voluntariar a pagar.

O relatório de auditoria deve ser tornado público para começar a restaurar a confiança nas finanças da igreja.

O Vaticano deve então implementar procedimentos para eliminar a corrupção e a incompetência. Isso não é ciência de foguetes. Governos, empresas e organizações sem fins lucrativos fazem isso todos os dias. Novos procedimentos foram anunciados recentemente para lidar com os vendedores e empreiteiros do Vaticano; isso é um passo na direção certa, mas as regras de conflito de interesses também são necessárias, assim como as regras de divulgação sobre a renda externa de cada funcionário, incluindo presentes. Isso deve incluir cardeais.

Os especialistas leigos precisam estar mais envolvidos nas finanças do Vaticano, como funcionários e membros dos conselhos de supervisão. A recente nomeação de seis mulheres especialistas para o Conselho do Vaticano para a Economia é um passo a frente.

O quinto projeto para o Papa enquanto ele está confinado em Roma é a reforma da Cúria do Vaticano, a burocracia que o ajuda a governar a Igreja e o Estado da Cidade do Vaticano.

As finanças da Igreja são parte dessa reforma, mas não toda a história. O Vaticano precisa de um escritório de recursos humanos profissional envolvido na contratação, remuneração, treinamento, supervisão, promoção, aposentadoria e demissão de funcionários. Todos os funcionários devem ser tratados com justiça, mas também precisam fazer o melhor para servir ao Papa.

Francisco tem tido certo sucesso em mudar a cultura do Vaticano, de acordo com bispos e outros que o visitaram recentemente. Funcionários que antes simplesmente davam lições para o clero que os visitava, agora estão mais dispostos a ouvir. Outra mudança positiva é a consolidação de mais escritórios papais menores, de modo que menos pessoas se reportem diretamente ao Papa.

A consolidação também diminuiu ou efetivamente fechou certos escritórios sem diretamente dizer isso. Mas também agrupou escritórios com pouco em comum. O mesmo acontece em governos civis; dê uma olhada nos principais departamentos do governo dos EUA.

Também seria bom consolidar todas as funções de Procuradoria em um escritório, como um departamento de justiça. Não faz sentido para a Congregação para a Doutrina da Fé lidar com padres abusadores, nem os bispos devem ser investigados pelas próprias congregações que os promoveram. Essas congregações não querem admitir que falharam em vetar os homens para o episcopado.

Um departamento de justiça poderia investir na investigação de crimes financeiros, no Vaticano e nas dioceses. Seria assessorado por investigadores leigos com experiência em aplicação das leis.

Entretanto, a Cúria continua o modelo de corte real, onde cardeais e bispos atuam como príncipes e nobres. Francisco deve acabar com esse sistema, extinguindo a prática de tornar oficiais da Cúria bispos e cardeais

Cardeais e bispos, como príncipes e nobres, são difíceis de demitir e esperam uma posição equivalente quando removidos (veja, por exemplo, a consternação causada em 2017, quando o cardeal Gerhard Müller não recebeu um encargo prestigioso depois de ser retirado da Congregação para a Doutrina da Fé). Padres poderiam simplesmente voltar para suas dioceses.

A Cúria precisa se ver não entre o papa e os bispos, mas como serva de ambos. Isso seria mais fácil de fazer se fossem simplesmente padres e leigos.

Essas mudanças também diminuiriam o efeito da ambição eclesial. Se um cardeal da Cúria deseja ser Papa, ele não se concentrará no que é bom para a Igreja, mas em aumentar suas chances no próximo conclave. Se os funcionários da Cúria não fossem cardeais, essa politicagem seria eliminada.

Infelizmente, há muitas coisas que o papa Francisco precisa fazer enquanto está confinado no Vaticano. Francisco odeia esse tipo de trabalho administrativo – para ele, é o equivalente eclesial de limpar o porão – mas isso é parte do seu trabalho e, se não enfrentar isso, acabará por comprometer sua reputação. A hora é agora.

Leia mais 

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Cinco coisas que o papa Francisco deveria fazer enquanto está confinado por causa da pandemia - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV