A Eucaristia, um “antídoto” à globalização?

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11 Agosto 2020

Em uma obra apaixonante, o teólogo americano William Cavanaugh retoma uma reflexão fascinante sobre o papel da Igreja no mundo atual.

A entrevista é com Sylvain Brison, presbítero da diocese de Nice e diretor do seminário carmelita, e que acaba de publicar L'imagination théologico-politique de l'Eglise - Vers une ecclésiologie narrative avec William T. Cavanaugh (A imaginação teológico-política da Igreja. Para uma eclesiologia narrativa com William T. Cavanaugh, Cerf, € 30). Brison consagrou sua tese a Cavanaugh.

A entrevista é de François Huguenin, publicada por La Vie, 06-08-2020. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

Por que você se interessou pela obra do teólogo William Cavanaugh?

Eu queria fazer uma tese sobre a Igreja. Há 11 anos, descobri na Editora La Procure um livro com um título chocante de autoria do William Cavanaugh: Torture et Eucharistie (Tortura e Eucaristia). Eu li o livro e decidi focar meu trabalho de tese em sua obra. Fiquei cativado pelas perguntas que ele fazia: a teologia serve para viver sua fé cristã e com ele é o caso! Ele não diz coisas novas, mas as diz de maneira diferente em um contexto político renovado.

É uma teologia que sai do quarto do teólogo...

Para Cavanaugh, a relação entre a Igreja e o mundo é parte integrante da teologia. Cavanaugh foi o primeiro teólogo a se posicionar contra Bush no conflito iraquiano. Antes mesmo do Papa! Mas, deixe-me ser preciso: para Cavanaugh, a teologia não é assunto de uma elite. Para ele, quando um soldado decide não participar de uma guerra injustificável, isso é mais importante do que qualquer declaração de uma conferência episcopal. O teólogo pode, por sua posição não institucional, renovar as falsas mitologias do Estado e as falsas imagens da Igreja.

É, portanto, a relação com o mundo que muda?

O cristão face ao mundo tem duas possibilidades: ou foge dele, mas isso não é cristão, ou vive com o mundo, no mundo para aí encontrar o Reino. Quando vivemos no mundo com fé, procuramos vê-lo como Deus o vê e, portanto, amá-lo. Pela Palavra de Deus, pela Eucaristia, pela vida da Igreja, podemos tentar, com a graça, viver como cidadãos do Reino quando este ainda não se realizou.

Torture et Eucharistie, o primeiro livro de Cavanaugh, que é o objeto de sua tese, constitui a matriz de sua obra. Do que ele é tão fundador?

A teologia traz liberdade no tratamento dos problemas de nossa sociedade, pois ela quebra as regras impostas pela modernidade. Normalmente, pensamos com categorias exclusivamente políticas, morais ou jurídicas que foram separadas pela modernidade. Mas a teologia, sempre vivificada pela Palavra e pelos sacramentos, em sua pretensão de explicar o mistério de Deus no mundo, ousa se libertar de seus compartimentos. Com Cavanaugh, ela mostra que pode fazer perguntas e encontrar respostas fora da caixa. Assim, Cavanaugh contrapõe à tortura, que é uma antiliturgia, a liturgia da Eucaristia. São duas visões de mundo opostas. Mostra como a Igreja chilena, a princípio incapaz de dar uma resposta a esta perseguição de católicos contra católicos, pôde viver uma experiência de conversão e derrotar a política de morte da junta militar. Ela passou de uma eclesiologia herdada do catolicismo social para aquela do corpo do Cristo torturado.

No fundo, você explica que a reflexão de Cavanaugh nos ajuda a renovar nossa compreensão da Eucaristia. Em que exatamente? – William Cavanaugh

Cavanaugh explica que a Eucaristia não é primeiramente a hóstia consagrada, mas uma narrativa dinâmica. Eu entro em uma ação de graças com um povo, acolho a história da narrativa da salvação na liturgia da Palavra, ofereço o mundo e a minha vida no ofertório, recebo-a transformada sob a forma do pão e do vinho, e ao consumi-los sou integrado em um corpo maior, o corpo de Cristo. E isso muda minha vida cristã, social e política. Com efeito, a Eucaristia, por ser a irrupção do Reino de Deus no tempo dos homens, não pode ser dissociada do amor aos pobres e da construção da paz. Desde o início, é a inseparabilidade de Marta e Maria!

Se Cristo está presente no altar, também está na esquina da rua. Isso, portanto, nos obriga a nos descentrar. Uma vida cristã autenticamente eucarística é uma vida de conversão e de amor pessoal, comunitário e universal. Por um lento trabalho em nós, a Eucaristia ajuda-nos a dissipar as ilusões. A Eucaristia não é celebrada para a Igreja, mas para o mundo. Hoje, parece-me que ninguém diz isso como Cavanaugh, que se reconecta a Agostinho de uma forma perfeitamente contemporânea.

O que podemos aprender com o período de confinamento quando os católicos foram privados da Eucaristia dominical?

Em primeiro lugar, podemos tomar consciência que, nesta crise, nossas reações fazem parte de imaginações que podem ser contraditórias; e estar consciente disso já é ganhar em liberdade para discernir onde passa a graça de Deus. Precisamente, quando Cavanaugh fala da Eucaristia, fala dela de forma dinâmica e não a limita à recepção do sacramento. Embora este último seja essencial, não constitui a singularidade da Eucaristia.

Sobre a experiência do confinamento, eu me pergunto. O que significa difundir de forma superabundante uma celebração onde o corpo eucarístico e o corpo eclesial não podem se encontrar? O que isso quer dizer sobre a nossa concepção de Igreja, de sacerdote, de Eucaristia e até de mundo? Esta experiência permite-nos retomar o vínculo entre o local e o universal que está no centro deste mistério, para reintegrar esta dupla dimensão que só a Eucaristia sabe unir. É o único lugar onde o universal tem necessidade do local para existir e não pode haver Eucaristia local que não seja universal.

Por isso, em Eucharistie-mondialisation (Eucaristia-mundialização), Cavanaugh faz da Eucaristia o antídoto para a globalização...

Cavanaugh mostra que a globalização é uma construção artificial da nossa relação com o tempo e o espaço. Fomos levados a acreditar em uma aldeia global e sem fronteiras. Ora, a Eucaristia que combina a eternidade e o tempo, o local e o universal, mostra-nos o lado fabricado da globalização. Convida-nos a uma outra prática do espaço e do tempo, mais respeitosa do homem no seu consumo, na sua comunicação... Coloca Deus e o homem no centro de tudo.

A Eucaristia nos convida a inventar micropráticas que estão ao nosso alcance: separar o lixo, comprar hortaliças em uma cooperativa local, implementar a Laudato Si’, recorrer ao microcrédito, todos esses gestos que desafiam o sistema imposto pela globalização. Por exemplo, Cavanaugh criou em St. Paul, Minnesota, onde vivia quando o conheci, um mercado alternativo entre os camponeses e as paróquias onde os preços eram fixados para que os camponeses ganhassem o que precisavam e as pessoas pagassem o que puderem, sendo a compensação fornecida por uma cooperativa paroquial. Esse mercado só pode existir localmente. Mas nós não somos obrigados a viver como exige a globalização! Com a graça de Deus, os cristãos podem transformar o mundo em vista do Reino dos Céus. Deus optou por não fazer isso sem nós...

Cavanaugh mostra que a Igreja é um corpo político, o que hoje é contraintuitivo. Mas o que significa dizer que a Igreja é um corpo político?

Para Cavanaugh, é um corpo político sui generis, isto é, de um tipo particular, o único desta natureza. Nesse sentido, pode-se entender que o Evangelho é a política do Reino. E assim podemos entender que ela pode ir contra a política do mundo! Dizer que a Igreja tem um papel a desempenhar na arena política é dizer que todo cristão é chamado a viver de acordo com o Evangelho do Reino. E, digamos, pode levar ao martírio. Assim, saímos de uma concepção estreita de política, à la Trump, para entrar em uma compreensão amorosa de mundo. O que queremos para o mundo é o Reino dos Céus. Essa postura nos obriga a fugir de todo fundamentalismo e de todo compromisso.

Há duas armadilhas a serem evitadas hoje: a nostalgia de um poder da Igreja herdado da confusão teológico-política de Constantino, e o fechamento comunitário... Cavanaugh não é nostálgico do tempo em que a Igreja tinha um poder político real. Pelo contrário, a distinção de poderes é uma coisa boa, mas não deve levar a uma privatização excessiva, onde a Igreja seria uma comunidade autônoma composta por alguns eleitos, o que constituiria um risco sectário, porque a Boa-Nova da salvação é para o mundo inteiro.

E se você tivesse que recomendar um livro de Cavanaugh para começar?

Sem hesitação, Eucharistie-mondialisation. É o seu livro programático, além de ser curto!

 

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