Dom Pedro Casaldáliga. “Estamos tocando carne de santo”

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11 Agosto 2020

“Porque o povo sabe quem verdadeiramente é dos seus, e não somente na teoria com belas palavras. E, talvez, por isso, Casaldáliga não foi um bispo usual. Nem sequer no momento de sua consagração episcopal, na qual os símbolos do poder transformaram-se em ícones do serviço. Seu báculo era um remo dos pescadores do Araguaia; Sua mitra era um chapéu de palha, estilo sertanejo; e seu anel, um de tucum, o anel de palmeira que carregam os mais humildes”, escreve José Manuel Vidal, doutor em Ciências da Informação e licenciado em Sociologia e Teologia e diretor do Religión Digital, 10-08-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Eis o artigo.

Quando segurei suas mãos frias e largas, de dedos finos de pianista, entre as minhas senti um estremecimento por dentro. Pensei que estava acariciando a mão de um bispo-profeta, defensor das causas mais nobres dos oprimidos, símbolo da luta pela justiça em todo o mundo e militante da teo-práxis da libertação. Do outro lado de dom Pedro Casaldáliga, estava sentado o padre Ángel, sempre rápido, pôs palavras à mística do momento: “Estamos tocando carne de santo”.

Dom Pedro Casaldáliga com José Manuel Vidal e padre Ángel
(Foto: Religión Digital)

Há dois anos, acompanhado pelo fundador de Mensageiros da Paz, tive a sorte não apenas de estender a mão à Casaldáliga, mas também de comer ao seu lado e compartilhar sua rotina diária durante uma semana, em sua casinha de tijolos e uralite, cuidada com primor por seus três irmãos agostinianos.

Recordo de sua cadeira baixa, sempre escorado para a direita, com suas mãos trêmulas e seus olhos sempre envolventes, e seu lenço amarelo, para secar a saliva que, às vezes, escapava entre os lábios, enquanto tentava esboçar algumas palavras, que somente entendíamos com a “tradução” de Saraiva ou de Valenzuela, dois de seus companheiros agostinianos que o acompanhavam há anos.

Falava pouco e olha muito, assentia o que dizíamos, sempre às ordens do Parkinson, “meu superior geral, porque sempre faço o que ele me ordena”, como confessava sempre com uma mescla de realismo e resignação. Em nossa estadia com o bispo dos indígenas, houve vários momentos desses que ficam marcados na memória para sempre.

Foto: Religión Digital

O primeiro foi quando, na primeira conversa com dom Casaldáliga, o padre Ángel pegou seu celular e ligou para o cardeal Osoro, que se encontrava em Madrid:

– Vou ligar para o cardeal de Madrid, Carlos Osoro – anunciou o padre Ángel a Casaldáliga.
– Isso é muito para mim – consegue dizer o bispo.
– Permita-se ser amado, dom Pedro. Há muita gente na Espanha e no mundo, que lhe considera santo e profeta.

E no celular do padre Ángel soa a voz do cardeal Osoro:

– Como está, padre Ángel?
Dom Carlos, obrigado por atender. Estou em São Félix do Araguaia, com dom Pedro Casaldáliga. Se falar devagar e alto, ele conseguirá lhe ouvir.
– De acordo. Dom Pedro, saudações por parte do cardeal de Madrid, Carlos. Tenho grande admiração por você, por muitas coisas, mas, especialmente, por sua simplicidade e por sua maneira de viver o Evangelho em absoluta confiança com o Senhor. Você é uma testemunha do Evangelho.
– Obrigado.
– Conheço-lhe bem e tenho muita amizade com os Claretianos, especialmente com o cardeal Fernando Sebastián, que foi meu professor. Um abraço forte e minha benção.
– Igualmente. Um abraço em comunhão e esperança.

Casaldáliga emocionou-se e, ao devolver o celular, o padre Ángel aproveitou para dizer ao cardeal Osoro:

Dom Carlos, não achas que dom Pedro deveria ser promovido a cardeal?
– Claro que sim. Conta comigo e com o meu voto.

No café da manhã, padre Ángel, dom Pedro Casaldáliga e Eduardo Lallana
(Foto: Religión Digital)

Entre os presentes fez-se um pequeno silêncio agradecido e emocionado. Todos compartilham a ideia, que resume assim o agostiniano Félix Valenzuela, que foi seu vigário-geral e mão direita durante muitos anos: “Seria justo e necessário que recebesse algum reconhecimento como figura e como referência por parte da instituição, ainda que Pedro não goste dos títulos. Ele merece esse reconhecimento, e até poderia dizer que, em certo sentido, o deseja e o espera”. Porém essa homenagem “oficial” nunca chegou.

Outro momento especial foi poder compartilhar a eucaristia na capela de seu “palácio”, desenhada pelo genial Maximino Cerezo, em forma de coração e com uma embalagem de lata na qual conserva uma relíquia de seu amado mártir dom Romero, seu santo e referência em vida e depois de morto.

E, depois da missa, o desjejum com Casaldáliga, que naquela manhã encontrava-se mais animado que no dia anterior. Contente de ter visita ao seu lado, inclusive convidou uma vizinha, velha amiga e defensora dos direitos humanos, para que nos cantasse uma preciosa canção de Chico Buarque, intitulada “Sonho impossível”. E naquele café, quase que milagrosamente, se pôs a falar e a responder todas as perguntas que fazíamos. Inclusive as mais comprometedoras.

Acompanhados por Saraiva, o agostiniano que fazia piadas sem parar, com todos, até mesmo dom Pedro, percorremos seus “santos lugares”. Desde o mosteiro dos Mártires da Caminhada, a sua singela catedral (uma espécie de paróquia de bairro, na qual resplandecem os murais de Maximino Cerezo, o pintor da libertação), passando pela sede de sua obra social e terminando no cemitério dos esquecidos, onde quer ser enterrado.

Cemitério do Karajá
(Foto: Religión Digital)

O cemitério do Karajá, onde se enterravam as crianças em caixa de sapatos e os homens sem caixão algum, está fora do povoado, ao lado do imponente rio Araguaia, afluente do Amazonas. Esse mesmo rio que tantas vezes Pedro cruzou, como também fiz, para se aproximar das aldeias de índios xavantes, algumas das quais se encontra em uma grande ilha no meio do rio.

Na sede da obra social, há um amplo espaço dedicado ao museu Casaldáliga, requintado e austero, como tudo em sua vida, com fotos, papéis, relatórios e todo tipo de recordações do prelado. Desde uma de suas estolas a sua velhíssima máquina de escrever, com um dos seus últimos poemas, que parece querer nos contar as vezes que seus dedos finos apertavam suas teclas. Para redigir suas proclamas, seus belos poemas e seus manifestos em defesa dos desfavorecidos.

Porque Casaldáliga sempre foi um revolucionário. Dos pés à cabeça. E há de se escrever com todas as letras. Por um bispo que nos vem assim: da estirpe do nazareno. Quando quase todos os demais são hipócritas e prudentes funcionários do sagrado, que querem ser bons sem incomodar e mudar o mundo sem denunciar os exploradores de seus irmãos.

O que Casaldáliga chamava de “suas causas” e que sempre considerou acima de sua pessoa: os camponeses sem terra, os índios marginalizados, a justiça pisoteada pelos fazendeiros e a terra explorada por braços alheios para proveito de uns poucos. Justiça, indigenismo, ecologia, luta pela terra... as três T (terra, teto, trabalho) do papa Francisco, que, indiretamente, teve sua herança tanto nas encíclicas como no próprio Sínodo da Amazônia.

Isso sim, o Papa dos pobres nunca fez referência explícita ao bispo do povo, embora, sem dúvidas, o admira. Por isso pedimos ardentemente: “Santidade, telefone a Casaldáliga pelos seus 90 anos!”.

Com uma campanha que teve enorme êxito: em apenas dez dias, 10.312 assinaturas em apoio à petição e, por extensão, a obra do profeta da Amazônia.

Quarto de Casaldáliga 
Foto: Religión Digital

Porém, Francisco não telefonou. E isso que um tempo depois telefonou a outro expoente da Teologia da Libertação, o padre-poeta nicaraguense, Ernesto Cardenal. Por que a dom Pedro, não? Mistério do papado de Francisco.

Com citação do Papa ou não, dom Pedro seguirá vivo na consciência do “santo povo de Deus”, que o fez seu durante a vida e o quer “santo subido” em morte. Ainda que seu legado não morra, nem se apague, simplesmente mudará a dimensão e o profeta do Araguaia começara a brilhar com uma luz universal.

Porque Casaldáliga é um bispo querido do povo, ao estilo de Helder Câmara, Leonida Proaño, Enrique Angelelli ou Samuel Ruiz. O povo o fez seu, porque se encarnou nele, lutou por ele e defendeu sempre suas causas. Arriscando a sua própria vida. Lá mesmo, em sua catedral, contava-me Saraiva que uma vez se salvou pelos cabelos, porque o confundiram com o também missionário João Bosco, assassinado sem piedade pelos militares da ditadura.

Depois, esteve muitas vezes em perigo, porém sempre protegido pelo escudo do povo. Porque o povo sabe quem verdadeiramente é dos seus, e não somente na teoria com belas palavras. E, talvez, por isso, Casaldáliga não foi um bispo usual. Nem sequer no momento de sua consagração episcopal, na qual os símbolos do poder transformaram-se em ícones do serviço. Seu báculo era um remo dos pescadores do Araguaia; Sua mitra era um chapéu de palha, estilo sertanejo; e seu anel, um de tucum, o anel de palmeira que carregam os mais humildes.


Pedro Casaldáliga navegando pelo rio Araguaia. Foto: Religión Digital

Sua opção radical pelos pobres e pelo evangelho sine glossa o levou a ser perseguido dentro e fora da Igreja. Fora, era defendido pelo povo, mas dentro, tinha apenas defensores contra as investidas de João Paulo II e de seu então prefeito para a Doutrina da Fé, o cardeal Ratzinger. O Papa e seu número dois acusavam-no por não residir em sua diocese. Quando saía dela em algumas ocasiões, para defender a revolução sandinista ou a revolução cubana. Esse era o grande pecado pelo qual o acusavam, embora não admitissem: tentar casar a foice e o martelo com a cruz, ou tentar buscar o comunismo cristão dos primeiros cristãos.

Santo a pé, místico com os pés descalços sobre a terra vermelha, todas as pessoas que vi se aproximarem dele durante a semana que estive ao seu lado o fizeram com tanta unção e reverência como se fosse um santo vivo. O santo do povo. E talvez o melhor é que a Igreja oficial, o alto clero, não o homenageia nem o canoniza. Porque, como Romero, altar já tem no coração da cidade: o santo de uma Igreja com chapéu de palha e sandálias. E, como disse dom Pedro ao se despedir: “Um abraço na Paz subversiva do Evangelho”.


Charge de Agustin de la Torre

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