Bispos católicos repreendem Trump tanto quanto o elogiam. Artigo de Thomas Reese

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06 Agosto 2020

"É verdade que, quando se trata de questões pró-vida e de liberdade religiosa, os bispos dos Estados Unidos estão do lado de Trump, mas, em várias outras questões, eles criticam fortemente o governo", escreve Thomas J. Reese, jesuíta estadunidense, ex-editor-chefe da revista America, publicação dos jesuítas dos EUA, de 1998 a 2005, e autor de “O Vaticano por dentro” (Ed. Edusc, 1998), em artigo publicado por Religion News Service, 04-08-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.

Muitos estadunidenses assumem que os bispos católicos dos Estados Unidos são fervorosos defensores de Donald Trump. É verdade que, quando se trata de questões pró-vida e de liberdade religiosa, os bispos estão do lado de Trump, mas, em várias outras questões, eles criticam fortemente o governo.

Essa nuance é o que diferencia os bispos católicos dos líderes evangélicos brancos, que tendem a apoiar o presidente em quase todas as questões. Os bispos como um todo também não endossam nenhum candidato. Os bispos como indivíduos, assim como outros cidadãos, podem legalmente manifestar o seu apoio, desde que não usem o dinheiro da Igreja para fazer isso. Pelo fato de os bispos não apoiarem candidatos, cada partido enfatiza os pontos sobre os quais os bispos concordam com eles, especialmente em uma eleição presidencial.

Para examinar como os bispos reagiram a Trump, eu li mais de 160 comunicados de imprensa sobre questões de políticas públicas de janeiro de 2019 até julho de 2020, publicados no sítio da Conferência dos Bispos dos EUA (USCCB, na sigla em inglês), a voz de autoridade dos bispos dos EUA sobre políticas públicas.

Não há nenhuma dúvida de que os bispos priorizam o aborto e outras questões pró-vida: mais de 30 comunicados de imprensa abordaram temas ligados à vida nos últimos 19 meses. “Somos profundamente gratos pelo compromisso pró-vida do presidente”, disse um comunicado, “e por todas as ações que este governo adotou para proteger os nascituros e suas mães da violência do aborto.”

Os bispos deixaram clara sua oposição à pesquisa com tecidos fetais, ao suicídio assistido, ao financiamento governamental do aborto, assim como o seu apoio às restrições estaduais e federais ao aborto. Eles saudaram a reinstituição da Política da Cidade do México “para garantir que os dólares dos contribuintes dos EUA não sejam usados para realizar ou promover o aborto internacionalmente”.

Os bispos apoiaram consistentemente o governo em questões de liberdade religiosa nacional e internacional.

Sete comunicados abordam a proteção da liberdade de consciência. Eles elogiam medidas que permitem aos profissionais de saúde optar por não realizarem ou auxiliarem abortos ou outros procedimentos que considerem imorais. Eles também ficaram satisfeitos com a decisão da Suprema Corte em favor das Irmãzinhas dos Pobres, uma ordem de freiras que se opunham ao mandato de contracepção do Affordable Care Act.

Outras dezenas de comunicados defenderam as posições do governo sobre questões que afetam as pessoas LGBTQ. Os bispos manifestaram oposição à Lei da Igualdade, que estendeu as proteções contra a discriminação da Lei dos Direitos Civis de 1964 a gays e transgêneros, e que foi aprovada na Câmara em maio. Eles ficaram desapontados quando a Suprema Corte, na histórica decisão de junho no caso Bostock vs. Clay County, na Geórgia, decidiu que indivíduos LGBTQ estavam cobertos pela lei.

Os bispos também elogiaram uma proposta de mudança de lei que permitiria que as agências de adoção de inspiração religiosa recusassem serviços a casais gays sem serem excluídas da ajuda federal como resultado disso.

Em uma dezena de outros comunicados à imprensa, os bispos apoiaram a expansão da ajuda do governo a agências de inspiração religiosa, incluindo a educação, outra questão sobre a qual os bispos e o governo somaram esforços.

Nenhum desses pontos de interseção com as políticas do governo Trump é surpreendente, mas são apenas metade da história. Os bispos e Trump estiveram frequentemente em conflito sobre questões de imigração, política externa, pena de morte e ambiente, entre outras.

Em 22 comunicados de imprensa sobre imigrantes e outros 13 sobre refugiados, os bispos atacaram as políticas do governo como “equivocadas e insustentáveis”, “inaceitáveis”, “assustadoras”, “devastadoras”, “muito preocupantes”, “desoladoras”, “ilegais e desumanas”, “terríveis”, “insensíveis”, “perturbadoras” e “contrárias aos valores estadunidenses e cristãos”.

Essas não são palavras usadas por apoiadores vibrantes.

Os bispos se manifestaram forte e frequentemente em apoio ao programa DACA, que protege da deportação aqueles que foram trazidos ilegalmente para os EUA quando eram crianças pequenas. “Estamos profundamente decepcionados que o governo continue pressionando para acabar com o DACA”, disseram eles.

Eles sempre argumentaram que migrantes e refugiados deveriam ser acolhidos e tratados com compaixão, argumentando que, pelo contrário, as ações do governo “criaram um clima de medo em nossas paróquias e comunidades em todo o país”.

No total, os bispos fizeram mais de 40 comunicados defendendo imigrantes e refugiados, e se opondo às proibições de viagem e à separação de famílias.

Por exemplo, os bispos estavam “muito preocupados” com o impacto das mudanças do governo na regra de “cobrança pública”, facilitando a deportação de imigrantes que tentavam acessar os serviços do governo.

“Em nossa experiência de servir aos pobres e vulneráveis”, relataram eles, “sabemos que muitas famílias imigrantes acessam legalmente importantes serviços médicos e sociais que são vitais para a saúde e o bem-estar públicos”.

Os bispos também encontraram falhas em uma nova regra do Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano que retiraria os benefícios de moradia de qualquer núcleo familiar com um membro sem documentos.

“A regra proposta teria consequências terríveis para milhares de famílias de status misto”, lamentaram os bispos. “Ela forçaria essas famílias a fazerem uma escolha desoladora – suportar a separação familiar, para que os membros elegíveis possam continuar recebendo assistência crucial à moradia, ou permanecer juntos e perder qualquer assistência. Nenhuma família deveria ter que fazer essa escolha entre unidade e estabilidade.”

Eles criticaram as instalações usadas para deter imigrantes.

“Relatos de condições superlotadas e insalubres são terríveis e inaceitáveis para qualquer pessoa sob custódia dos EUA, mas principalmente para crianças, que são particularmente vulneráveis”, disseram os bispos. “Tais condições não podem ser usadas como instrumentos de dissuasão. Podemos e devemos permanecer como um país que fornece refúgio para crianças e famílias que fogem da violência, da perseguição e da pobreza aguda.”

Os bispos, junto com seus colegas mexicanos, também se opuseram ao muro de Trump, dizendo que, “primeiro e acima de tudo, é um símbolo de divisão e de animosidade entre dois países amigos”. Eles também estavam “profundamente preocupados” com o fato de o presidente se desviar da “clara intenção do Congresso de limitar o financiamento de um muro”. Os bispos disseram que “permanecem firmes e resolutos na visão articulada pelo Papa Francisco de que, neste momento, precisamos construir pontes, e não muros”.

O tratamento dado aos requerentes de asilo na fronteira também foi uma grande preocupação dos bispos em oposição a novas regras e regulamentos que “evisceram nosso atual sistema de asilo”.

Eles também observaram que “a Igreja Católica nos ensina a examinar as causas da migração, da pobreza, da violência e da corrupção”.

Os bispos frequentemente também discordaram do governo sobre a política externa. Eles se opuseram à saída do Tratado INF [Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário] e à expiração do Tratado START [Tratado de Redução de Armas Estratégicas] e pediram mais esforços pelo desarmamento nuclear. Eles apelaram “aos nossos líderes nacionais e mundiais a perseverarem em seus esforços para abolir essas armas de destruição em massa, que ameaçam a existência da raça humana e do nosso planeta”.

Eles também continuaram encorajando as trocas comerciais, turísticas e culturais com Cuba, chamando o embargo de “improdutivo”.

E, embora o presidente reforçasse a sua retórica contra o Irã, eles pediam “diplomacia necessária, diálogo corajoso e esforços incansáveis no sentido da paz para resolver esses conflitos globais”. Eles também declararam que a saída unilateral do acordo nuclear com o Irã e a imposição de sanções econômicas adicionais “exacerbam as tensões com aliados próximos e outras potências mundiais”.

Embora não seja radical, a linguagem dos bispos sobre os protestos do “Black Lives Matter” é muito mais solidária do que a do presidente.

“O assassinato de George Floyd foi insensato e brutal, um pecado que clama ao céu por justiça”, disse o presidente da Conferência Episcopal, José Horacio Gómez, arcebispo de Los Angeles. “Todos devemos entender que os protestos que estamos vendo em nossas cidades refletem a justificada frustração e raiva de milhões de nossos irmãos e irmãs que, ainda hoje, experimentam humilhação, indignidade e oportunidades desiguais apenas por causa de sua raça ou cor da pele.”

Em outro comunicado, sete presidentes de comissões da USCCB escreveram: “O racismo não é uma coisa do passado nem simplesmente uma questão política descartável a ser brandida quando conveniente. É um perigo real e presente que deve ser combatido de frente.”

Finalmente, quando se tratava da crise da Covid-19, os bispos estavam mais preocupados em obter assistência médica e ajuda econômica “para os mais vulneráveis: os pobres, os idosos, os sem-teto, os que estão em prisões ou centros de detenção, imigrantes e refugiados e aqueles que tem graves condições de saúde subjacentes”.

O presidente da Comissão de Justiça Interna e Desenvolvimento Humano da USCCB disse que enviou “cinco cartas para expressar esse princípio fundamental ao Congresso e suas várias comissões”.

Os bispos notaram a necessidade de “equipamentos de proteção suficientes para todos os trabalhadores essenciais, proteção ao bem-estar e à integridade familiar, pesquisa adicional sobre a ligação entre a poluição do ar e os resultados de saúde do coronavírus, e a necessidade de tratar das rupturas na cadeia de suprimento de alimentos e seu impacto sobre agricultores e trabalhadores rurais, resíduos alimentares e saúde pública”.

Eles apoiaram o aumento de licenças médicas remuneradas e de programas de segurança alimentar, incluindo o SNAP e o Emergency Food and Shelter Program.

Embora tenham elogiado a Lei CARES, eles consideraram “decepcionante que certos auxílios e ajudas não foram estendidos aos indocumentados e extremamente preocupante quanto ao fato de que testes e acesso à assistência à saúde foram negados a certos imigrantes”.

Quando se trata de aborto e da liberdade religiosa, os bispos são aliados dos republicanos e do presidente Trump, mas, em muitas outras questões, os bispos são seus oponentes fortes e francos. Os democratas católicos, como Joe Biden, são aplaudidos pelas posições dos bispos em relação à justiça social, mas os republicanos têm sido muito melhores em retratar que os bispos estão do lado deles.

Claramente, os bispos levam as questões de justiça social muito mais a sério do que o presidente, mas isso pode ser ofuscado pela mídia quando os bispos atacam o católico Biden pelas suas posições sobre o aborto. A mídia tende a dar muito mais atenção às divergências dos bispos em relação a Biden do que às diferenças com Trump.

 

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