Nicarágua. “Ortega passou do limite”

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05 Agosto 2020

O escritor Ramírez: “O ataque à catedral de Manágua será um bumerangue. As palavras de Francisco no Angelus foram um gesto muito importante para todo o país”.

“Penso no povo da Nicarágua que sofre pelo atentado à Catedral de Manágua, onde foi muito danificada – quase destruída – a tão venerada imagem de Cristo que acompanhou e apoiou a vida do povo fiel durante séculos. Queridos irmãos nicaraguenses, estou perto de vocês e rezo por vocês”.

Sergio Ramírez não esconde a emoção pelas palavras ditas pelo Papa Francisco no final do Angelus de domingo. Quando o telefonema chegou em sua casa em Manágua - onde ele passa a quarentena voluntária, na ausência de medidas tomadas pelo governo para prevenir a pandemia –, havia acabado de ouvi-las. “É uma mensagem de apoio importante. Muito importante. O Papa dá ainda mais força à posição dos bispos. E atrai o olhar do mundo, focado em outras emergências, para a crise da Nicarágua”, diz o famoso escritor, o primeiro centro-americano a receber o Prêmio Cervantes.

Ramírez também foi um expoente da junta revolucionária que, em 1979, derrubou a feroz ditadura do clã Somoza. Também vice-presidente daquele Daniel Ortega, do qual, mais tarde, se tornou um dos adversários mais ferrenhos. “A revolta pela qual lutei pertence ao passado. Agora, existe uma retórica revolucionária que não corresponde à realidade. O único objetivo do atual governo Ortega é manter o poder o maior tempo possível. Mas seu declínio é irreversível. Como mostra o atentado de sexta-feira à Catedral de Manágua”.

Naquele dia, um indivíduo jogou um coquetel molotov contra o "Sangue de Cristo", uma representação da crucificação e o símbolo mais amado pelos fiéis nicaraguenses. O governo tentou confirmar a tese do acidente, imediatamente desmentida pelo cardeal Leopoldo Brenes, arcebispo da capital.

Não é a primeira vez desde os protestos anti-Ortega de abril de 2018 que as igrejas nicaraguenses são atingidas.

E não foi a última: domingo, um homem invadiu a paróquia de Santa Rosa del Peñon, em León, durante a missa, e atirou pedras contra o padre e uma imagem sagrada. Nas mesmas horas, o templo de Corpus Christi em Manágua foi assediado por grupos, paramilitares ao serviço do governo.

A entrevista com Sergio Ramírez é editada por Lucia Capuzzi, publicada por Avvenire, 04-08-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Sergio Ramírez, por que essa escalada?

Faz parte da estratégia orteguista de acirrar as tensões e depois fazer concessões. A questão é que agora a margem de manobra do governo é quase nula. Isolado internacionalmente e em grave recessão, seu consenso é o mais baixo de todos os tempos. Espécies desde o surto da pandemia que ele administrou como se fosse um adversário político e não uma emergência sanitária. Em vez de prevenção e distanciamento, Ortega promoveu marchas para combater o vírus. Resultado: os contágios se multiplicam e os cidadãos o consideram incapaz de protegê-los.

Por que o governo deveria atacar a igreja?

Uma premissa. Não sabemos se o atentado à catedral foi ordenado pelo governo ou se foi obra de algum partidário exaltado pela retórica orteguista. É evidente, no entanto, que o governo está determinado a encobrir o responsável.

Ortega professa ser um católico fervoroso ...

Desde sempre, o presidente e a vice e esposa tentaram manipular símbolos religiosos para se propor como os únicos líderes espirituais. A Igreja é uma concorrente perigosa porque é uma das poucas instituições independentes e credíveis. Com a corajosa defesa dos direitos humanos durante os protestos de 2018, o papel dos bispos como ponto de referência moral aumentou ainda mais, no país e no exterior. O governo não tolera isso. Com o ataque ao Sangue de Cristo, no entanto, passou do limite. Atingiu o povo nicaraguense no coração, tocando o que há de mais sagrado. Isso se revelará um bumerangue. O processo de declínio, mesmo que longo, já é irreversível.

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