A ciência da mudança climática tem mais séculos do que você pensa e foi iniciada por uma mulher

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04 Agosto 2020

A ideia do efeito estufa já era conhecida nos anos 1820, no entanto, ninguém tinha conseguido demonstrar fisicamente como ocorria ou que efeitos tinha no planeta. Trinta e seis anos depois, foi a pesquisadora e cientista Eunice Foote, que também era ativista pelos direitos da mulher, a primeira pessoa a demonstrar como realmente poderia funcionar.

A reportagem é publicada por Nueva Tribuna, 02-08-2020. A tradução é do Cepat.

Para isso, usou uma bomba de ar com a qual encheu cilindros de vidro com diferentes gases, um deles com dióxido de carbono (CO2) e os expôs à luz solar. Neste último, Foote observou que o cilindro havia se aquecido muito e, “ao ser retirado, esfriou muitas vezes mais” e que “uma atmosfera deste gás daria à nossa Terra uma temperatura alta”. Estes resultados já sugeriam, em 1856, que o CO2 e o vapor de água prendem o calor mais que outros gases, o que demonstrava os efeitos potenciais que poderiam acontecer em nosso clima se este fenômeno ocorresse. Eunice Foote havia se deparado com a chave da mudança climática e nascia, então, a ciência que a estuda.

Foote foi mais longe e em agosto daquele mesmo ano quis apresentar seus achados na Oitava Reunião Anual da Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS), uma sociedade científica estadunidense, em Albany (Nova York). Mas naquela época não era permitido que as mulheres apresentassem relatórios na AAAS, sendo assim, isto foi feito por Joseph Henry, um professor do Smithsonian Institute, em seu nome. Infelizmente, nem o documento de Foote, nem a apresentação de Henry foram incluídos na ata e apenas foi reportado em um artigo de uma página e meia na revista da AAAS, a American Journal of Art and Science.

Três anos depois, o físico irlandês John Tyndall realizou experimentos mais complexos, nos quais também encontrou outros tipos de gases do efeito estufa que também seguram o calor. Tyndall não conhecia os experimentos de Foote ou se os conhecia, não os mencionou. O caso é que os experimentos do físico foram aceitos como algo inédito e passou à história como uma das figuras fundadoras da ciência do clima.

Outro nome que se notabilizou na ciência do clima foi o do engenheiro e coletor de dados, em sem tempo livre, Guy Stewart Callendar. Em 1938, Callendar foi o primeiro a apresentar na comunidade científica que a atividade do homem era, em parte, a culpada pela mudança climática. Até então, Callendar havia reunido dados de 147 estações meteorológicas, descobrindo um claro padrão ao comparar suas leituras de temperatura com medições históricas de CO2. Não só viu que a mudança climática estava ocorrendo, como também que parte dela era causado pela queima de combustíveis fósseis. Naquele momento, a simples ideia de que um ser humano pudesse influenciar no clima era inconcebível e foi a partir da Segunda Guerra Mundial que finalmente se aceitou o papel (ou “Efeito Callendar” como se chamou) que a humanidade tinha no aquecimento global.

O químico Charles Keeling foi outra pessoa que contribuiu enormemente à ciência da mudança climática. Tudo começou quando, em 1958, os colegas de Keeling estudavam as relações entre a acidez do oceano e o dióxido de carbono. Até então, acreditava-se que os oceanos haviam absorvido rapidamente a maior parte do CO2, retirando-o da atmosfera, mas havia algo incomum nesses resultados. Convencido de que os dados não eram confiáveis, Keeling se transferiu para Mauna Loa (Havaí), no meio do Pacífico Norte e a 4.000 metros acima do nível do mar. Ali, longe da poluição das cidades e da indústria, fundou o Observatório de Mauna Loa, de onde tirou algumas observações exaustivas. Primeiro, demonstrou que o CO2 aumenta e diminui com as estações e, em segundo lugar, descobriu que a curva do CO2 ascendia com constância, ano após ano, dando lugar a conhecida “Curva de Keeling”. Já em 1958 tínhamos provas irrefutáveis do aumento da concentração de CO2 na atmosfera.

Durante 150 anos, a reveladora contribuição de Eunice Foote ficou enterrada nas páginas da história e foi somente em 2010 que descobrimos seu valioso papel como a primeira pessoa a descobrir os efeitos do CO2 no planeta. E tudo graças a um geólogo aposentado que a descobriu, por acaso, quando citavam o trabalho de Foote em uma publicação de ciências antigas.

Passaram muitas décadas desde então, mas não parece que tenhamos mudado muito. Continuamos ignorando uma realidade catastrófica e desconsiderando as vozes da ciência que não só nos alertam a esse respeito, como também estão nos dando as ferramentas necessárias, viáveis e adequadas para remediar a situação. E também continuamos invisibilizando as mulheres. Não podemos esperar 150 anos a mais, nem para tornar realidade a igualdade, nem para agir contra a emergência climática, simplesmente porque não temos esse tempo, caso queiramos que as condições ambientais no planeta continuem sendo aptas para a vida dos seres humanos.

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