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20 Julho 2020

"Há quem fale sobre o risco de implosão do orteguismo. Mas uma pesquisa da Cid-Gallup (em vista das eleições do próximo ano) ainda atribui 23% dos votos a Ortega, primeiro partido. Enquanto os três quartos restantes, críticos do regime, não têm referências políticas precisas ou estão distribuídos entre minúsculos e litigiosos partidos do passado que (inclusive pela histórica capacidade de divisão de Ortega) nunca conseguiram formar uma frente compacta e credível", escreve por Gianni Beretta, em artigo publicado por Il Manifesto, 19-07-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

O despótico casal presidencial teve que se render diante da disseminação descontrolada do vírus na Nicarágua, definida pela revista científica britânica Lancet "o país que tem a pior gestão da pandemia no mundo". E assim Rosario Murillo, consorte do ex comandante da guerrilha Daniel Ortega, bem como sua vice, se resignou a anunciar "celebrações virtuais" do aniversário da revolução sandinista de 1979, evitando a manifestação de rua em 19 de julho.

E pensar que em meados de março, após o primeiro contágio oficial, encontros e celebrações foram promovidas em contra tendência em todo o país justamente pela (de fato) chefe de governo à insígnia do "deus nos protege", "o calor mata o vírus"... Como o encontro do Amor en el tempo de Covid 19, uma espécie de grande bloco carnavalesco, todos lado a lado e sem máscara: desafiando todas as medidas de distanciamento, quarentena e fechamento de fronteiras. Precauções que até hoje nunca foram adotadas pelas autoridades. Pelo contrário, tudo foi feito para negar a presença do vírus; até mesmo com um convite para se dirigir em massa às praias do Pacífico para o feriado da Páscoa e convocando o concurso de Miss Verão.

Em 15 de abril, seu marido-presidente Ortega (escondido em seu bunker no bairro de El Carmen em Manágua) fazia-lhe eco em uma de suas raras aparições na televisão durante estes últimos meses: "O vírus avança de forma lenta na Nicarágua, graças à nossa política de saúde comunitária"; e, referindo-se messianicamente ao rearmamento internacional: "O vírus é um sinal de Deus para nos fazer mudar o caminho". Ou ainda, no apelo de 1º de maio: "Não fiquem em casa". Até chegar ao dia das mães, comemorado por Murillo com o slogan "Nicarágua libre de Covid-19".

Assim, em 6 de maio, as autoridades sanitárias haviam relatado apenas vinte casos, no meio de um istmo da América Central já abundantemente infectado. A ponto de obrigar a Organização Mundial da Saúde a declarar a situação do coronavírus na Nicarágua "indeterminada" devido à "falta de informação".

Naquele ponto a população, diante da multiplicação inexorável das vítimas (com o termo "pneumonia atípica", muitas das quais transportadas clandestinamente à noite dos hospitais para os cemitérios) e ao alarme da OMS pelo galopante contágio nas Américas; além de ser encorajada pela posição dos virologistas e das associações médicas locais, decidiu tomar sozinha suas próprias medidas de proteção: mantendo em casa os filhos das escolas públicas (enquanto as escolas particulares haviam fechado e iniciado as aulas digitais); reduzindo as saídas de casa e abandonando bares e locais noturnos (ainda abertos), além dos estádios de beisebol (e futebol), cujos campeonatos continuaram sem cessar. Até usar, por fim, as máscaras tão ridicularizadas (proibidas nos próprios hospitais). Enquanto as igrejas, seguindo o convite do Papa Francisco, suspendiam missas e procissões. E as empresas privadas começavam a adotar medidas de distanciamento internas.

A reação do governo foi demitir (ou obrigar à demissão) dezenas de médicos e enfermeiros do serviço público culpados de alarmismo. Da mesma forma, aliás, haviam caçado dezenas de profissionais de saúde durante a revolta popular de abril de 2018, culpados de terem atendido nos prontos socorros os manifestantes feridos pela polícia e pelos paramilitares, desobedecendo aos ditames do Ministério da Saúde.

É claro que em um país como a Nicarágua (o segundo ou terceiro mais pobre do subcontinente depois do Haiti e talvez de Honduras), onde 70% da economia ainda é informal e boa parte da população trabalha para poder comer no mesmo dia, eventuais medidas como o chamado lockdown seriam bastante impraticáveis. Mas qual é o sentido de sacrificar qualquer tipo de prevenção, mesmo a menos complicada e custosa como o distanciamento, pela única preocupação do orteguismo de não prejudicar ainda mais uma economia já fragilizada devido à paralisia insurrecional de dois anos antes?

Aliás, culpando os supostos golpistas daquele abril de terem espalhado o pânico da pandemia? O fato é que o contágio explodiu exponencialmente; e até o momento, se os números oficiais admitirem 3.147 infecções e 99 vítimas (infinitamente inferiores aos dados do resto da região, portanto, não confiáveis) aqueles do independente Observatório Cívico Covid 19 indicam que desde de 18 de março seriam 2.092 as mortes "suspeitas" (em pouco mais de 6 milhões de habitantes). Paradoxo quer que para justificar tanta inação Rosario Murillo tenha por fim se aventurado a se referir (cobrindo-se de ridículo) ao "modelo sueco" adotado pela Nicarágua para "uma saúde pública em uma economia saudável".

Além disso, o vírus não podia mais ser ignorado pelo regime, pois começava a deixar vítimas mesmo entre suas próprias fileiras: o Ministro dos Correios, o prefeito de Masaya e alguns deputados e autoridades orteguistas. Até o irônico desaparecimento por Covid 19 de Eden Pastora (em 16 de junho passado), o lendário comandante Zero, único expoente conhecido na Europa na época do triunfo sandinista por seu ataque ao parlamento durante a ditadura somozista. Que posteriormente havia abandonado o governo revolucionário para se juntar aos contras. E, finalmente, havia retornado ao lado de Ortega novamente presidente desde 2007.

Pastora, que já foi chefe das milícias populares sandinistas, destacou-se por dirigir os grupos paramilitares que massacraram jovens manifestantes em 2018, com um saldo de pelo menos 350 mortos e milhares de feridos ao longo de três meses. Assim se instaurou um mau humor, também dentro do que resta da Frente Sandinista, especialmente em relação a Rosario Murillo. Embora o isolamento internacional também tenha aumentado devido às sanções ad personam a 21 membros do clã dos Ortega cujas contas e ativos foram bloqueados nos EUA e na Europa. Assim como a encarregada da Comissão de Direitos Humanos da ONU, Michelle Bachelet, denunciou as persistentes violações no que de fato se transformou em um estado de polícia permanente; com ainda uma centena de presos políticos e 103 mil exilados políticos certificados pela agência para os refugiados da ONU.

Há quem fale sobre o risco de implosão do orteguismo. Mas uma pesquisa da Cid-Gallup (em vista das eleições do próximo ano) ainda atribui 23% dos votos a Ortega, primeiro partido. Enquanto os três quartos restantes, críticos do regime, não têm referências políticas precisas ou estão distribuídos entre minúsculos e litigiosos partidos do passado que (inclusive pela histórica capacidade de divisão de Ortega) nunca conseguiram formar uma frente compacta e credível. Embora esteja sendo feita uma tentativa de uma coalizão nacional pós-revolta popular que inclua a sociedade civil. Exceto que os jovens líderes daquele levante estão presos ou foram obrigados a se mudar para a vizinha Costa Rica. O que é certo é que a péssima gestão da emergência acabou com o pouco que restava do serviço sanitário geral gratuito repescado do tempo da revolução. Gerando uma mistura de raiva e impotência.

 

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