Sétimo ano de pontificado: a libertação dos pobres. Artigo de Bruno Bignami

Revista ihu on-line

Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

Edição: 546

Leia mais

Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

Edição: 545

Leia mais

Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

Edição: 544

Leia mais

Mais Lidos

  • Um futuro social-ecológico? As alianças verdes-rosas-vermelhas nas eleições francesas

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


30 Junho 2020

A Igreja é chamada a fazer o Evangelho fluir nas veias da história. Enquanto vive o testemunho de Cristo em primeira pessoa, ela promove uma mudança de libertação social a partir dos últimos.

A opinião é de Bruno Bignami, teólogo, presbítero da Diocese de Cremona, na Itália, e diretor do Escritório Nacional para os Problemas Sociais e o Trabalho da Conferência Episcopal Italiana - CEI, em artigo publicado por Viandanti, 26-06-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.

“Aos problemas sociais responde-se, não com a mera soma de bens individuais, mas com redes comunitárias”: a afirmação do Papa Francisco na encíclica Laudato si’ (n. 219) permite intuir eficazmente a sua mensagem social.

A análise do papado atual seria enganosa se se limitasse a dissecar os seus textos ou as suas homilias. É muito mais fecundo, pelo contrário, olhar para os seus gestos, que muitas vezes têm o sabor da profecia. Em vez disso, poderíamos considerar as exortações apostólicas e as encíclicas de Francisco como verdadeiros gestos colocados na vida da Igreja.

O recurso das “redes comunitárias”

A convicção de que as redes comunitárias atuam como antivírus para os males sociais do nosso tempo levou Bergoglio a olhar com predileção para as experiências inovadoras do ponto de vista social. Não para aquelas impressas nas primeiras páginas dos jornais ou capazes de fazer publicidade na TV ou via web.

Em vez disso, ele pretendeu dar visibilidade ao mundo dos pobres, dos marginalizados, dos descartes humanos nas sociedades opulentas. Assim, compreende-se a escolha de dedicar alguns dos seus encontros especiais aos representantes dos movimentos populares. Trata-se de um mundo numeroso, variado, mas pertencente ao submundo das metrópoles ou às periferias das cidades. Pessoas “out”, consideradas de segunda categoria, ignoradas pelas Bolsas mundiais e, mesmo assim, capazes de uma economia submersa.

Francisco não recuou. Quis acompanhar o árduo caminho delas nas áreas internas das cidades e dos territórios. Ouviu as suas reivindicações e as abençoou como “poetas sociais” pela sua criatividade, mesmo sendo descartados pelo mercado mundial. Trata-se dos agricultores brasileiros “Sem Terra”, de operários de fábricas ocupadas e de empresas recuperadas em alguns centros sociais, dos “cartoneros” argentinos, de pequenos artesãos, dos comitês de mães dos refeitórios populares, de grupos que se mobilizam pelo direito à água, de pessoas que defendem o ambiente, das comunidades de nativos asiáticos, latino-americanos ou africanos, de quem quer proteger o trabalho infantil, dos vendedores ambulantes, de agricultores dedicados à agricultura familiar, dos membros de cooperativas...

São movimentos que conseguem criar empregos onde parecem predominar os “descartes da economia idólatra”. Precisamente a criatividade deles permitiu que eles se organizassem e não se sentissem marginalizados. Às respostas transitórias, eles opõem a dignidade do trabalho, a solidariedade tenaz do seu compromisso. Como demonstração de que os pobres, também em contextos de depressão econômica ou de escravidão social, sabem projetar redes relacionais capazes de oferecer esperança.

Dos sinais do poder ao poder dos sinais

A escolha eclesial de ficar ao lado deles leva a entender como são fundamentais essas redes comunitárias, lugares de partilha que contém o estéril drama do individualismo e permitem que pessoas ou famílias se “salvem”. A busca de lugares-sinais certamente é uma constante no ensino social de Francisco. É difícil compreender todo o seu alcance fora dessa perspectiva. Não é descabido recorrer à célebre frase do Pe. Tonino Bello para expressar essa particularidade da mensagem pontifícia: é a passagem dos sinais do poder ao poder dos sinais.

Francisco parece estudar cada gesto com sentido profético, referindo-se à força das obras de Cristo. Pense-se na primeira viagem italiana a Lampedusa (8 de julho de 2013), focada no valor das lágrimas e no perigo da globalização da indiferença. Vejam-se as visitas-relâmpago aos túmulos de padres sociais, capazes de encarnar um cristianismo do compromisso e do testemunho: Primo Mazzolari, Lorenzo Milani, Tonino Bello, Peppino Puglisi, Zeno Saltini... Considerem-se as viagens a lugares feridos e martirizados pelo terremoto, como Amatrice ou Camerino, ou a cidades-símbolo de tragédias de guerra como Redipuglia, Auschwitz ou, mais recentemente, Hiroshima e Nagasaki. Observe-se a ideia de compartilhar com os jovens provenientes de várias partes do mundo o projeto de uma economia alternativa à consumista no evento “A Economia de Francisco” (de 19 a 21 de novembro de 2020). Veja-se a escolha de inaugurar o Dia Mundial dos Pobres, com a intenção não apenas de ajudar as pessoas mais em dificuldade, mas também de restaurar a dignidade de sujeitos aos últimos na vida eclesial e na sociedade.

São apenas alguns gestos entre os muitos disseminados neste pontificado: a escolha é de fazer o Evangelho falar dentro dos encontros e dentro da história. A estratégia está ligada à reflexão conciliar da Dei Verbum 2, segundo a qual a “economia da Revelação realiza-se por meio de ações e palavras (gestis verbisque) intimamente relacionadas entre si”. No jargão das ruas: uma Igreja que prega bem, mas age mal, não é confiável!

A pregação não basta

A tentativa de Francisco é tão insistente a ponto de passar esta mensagem na vivência eclesial: não podemos nos contentar com o fato de a evangelização viajar apenas no trilho da palavra. A pregação não basta. É preciso construir o trilho do anúncio e do testemunho. O magistério social de Francisco é assim conjugado e proposto. A tal ponto que podemos ver os seus textos e as suas palavras como mais um gesto de cuidado e de acompanhamento pastoral.

A encíclica social Laudato si’, além de se tornar um forte convite a levar a sério a crise ambiental de hoje como uma crise ao mesmo tempo moral, antropológica e social, é um gesto para toda a humanidade no sentido de escrever páginas novas de cuidado pela criação. Com a encíclica, o papa abriu um processo de aprofundamento daquilo que envolve o cuidado no momento histórico atual.

O recente Sínodo Amazônico mostrou, por exemplo, que as categorias de conversão ecológica, integral e cultural não são suficientes se não forem ampliadas também como conversão pastoral e sinodal.

Em suma, se pretendemos refletir sobre a relação com a criação, somos forçados a rever inevitavelmente a própria estrutura da comunidade cristã e a sua qualidade relacional no nível de ministérios, de serviços e de reconhecimento das pessoas e das suas vocações específicas.

A ambição cristã: pôr-se a serviço do mundo

Por isso, à luz aquilo que aconteceu nesses anos de pontificado, fica clara a trajetória de Francisco descrita na Evangelii gaudium, número 177: “O querigma possui um conteúdo inevitavelmente social: no próprio coração do Evangelho, aparece a vida comunitária e o compromisso com os outros”. Na exortação apostólica, que serve de manifesto programático, está expressada a dimensão social da vida cristã.

A evangelização não pode ignorar o contexto social em que se insere. Sobretudo, não pode deixar de envolver o ser humano nas suas diversas dimensões que o constituem. A tal ponto que o cristianismo se torna força motriz na história, capaz de construir um mundo melhor.

De fato, “o pensamento social da Igreja é primariamente positivo e construtivo, orienta uma ação transformadora e, neste sentido, não deixa de ser um sinal de esperança que brota do coração amoroso de Jesus Cristo” (EG 183).

A ambição cristã não é a de conquistar o mundo, mas sim de se pôr a seu serviço. Para fazer isso, a Igreja põe-se à escuta dos problemas e vive no meio dos homens e das mulheres, sentindo-se partícipe das suas alegrias e dos seus sofrimentos (GS 1).

Desse modo, o grito do pobre assume um valor único. É o próprio Cristo que grita nele. A Igreja sabe reconhecê-lo entre as múltiplas vozes e o leva a sério: “Cada cristão e cada comunidade são chamados a ser instrumentos de Deus ao serviço da libertação e promoção dos pobres, para que possam integrar-se plenamente na sociedade” (EG 187).

A imagem da Igreja como um “hospital de campanha” parece ser uma síntese admirável desse projeto.

Como disse o Papa Francisco em uma longa entrevista concedida em 2013 ao Pe. Antonio Spadaro, diretor da Civiltà Cattolica: “É inútil perguntar a uma pessoa gravemente ferida se ela tem colesterol e açúcares altos! É preciso cuidar das suas feridas. Depois podemos falar sobre todo o resto”. A Igreja é chamada a fazer o Evangelho fluir nas veias da história. Enquanto vive o testemunho de Cristo em primeira pessoa, ela promove uma mudança de libertação social a partir dos últimos.

Assim, a mensagem de Cristo se faz caminho. Torna-se vida...

 

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Sétimo ano de pontificado: a libertação dos pobres. Artigo de Bruno Bignami - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV