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26 Junho 2020

Enfrentar a exploração ilimitada da Casa Comum tem se tornado uma urgência, também na vida da Igreja. Até o ponto de que a ecologia integral não é mais um caminho e sim o único caminho possível da Igreja, uma ideia defendida pelo padre Adelson Araújo dos Santos na abertura dos Seminários virtuais promovidos pelo Grupo de Ecologia Integral da Rede de Centros Sociais da Conferência dos Provinciais Jesuítas da América Latina (CPAL), que tem iniciado neste 25 de junho e vai se prolongar até novembro de 2020.


Luiz Lacerda, Aderlson Araújo dos Santos e Sinivaldo Tavares. Foto: Reprodução

Partindo do conceito de Ecologia integral, ao longo de seis seminários será refletido sobre a justiça socioambiental, os Direitos Humanos, os desafios do trabalho independente e o emprego para contribuir à Ecologia Integral, o Sínodo para a Amazônia, e a Defesa dos territórios. No primeiro momento, que foi mediado por Luiz Lacerda do Observatório de Justiça Socioambiental Luciano Mendes de Almeida (OLMA), contou com a presença do já citado professor da Universidade Gregoriana e Frei Sinivaldo Silva Tavares, professor na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE) de Belo Horizonte. O tema abordado foi: “Ecologia integral, crise climática e pandemia: Contribuições da Eco Teologia”, refletindo sobre a relação entre ecologia integral, mudança climática e pandemias.

A reportagem é de Luis Miguel Modino.

Segundo o jesuíta, tendo como referência a Thomas Berry, “estamos agora entrando em um novo período histórico”, uma espécie de “era ecológica”. Estamos “saindo da era tecnológica, caracterizada pelo desencantamento do mundo, para entrarmos na era ecológica, junto a uma nova cosmologia, marcada por uma profunda consciência da presença do sagrado em cada realidade do universo”, afirma o padre Adelson. Nessa nova era somos chamados a descobrir que “Deus está em tudo e tudo está em Deus”.

Desde uma teologia amazônica, que segundo o jesuíta “se constrói a partir da escuta, do olhar atento e contemplativo das realidades da vida e das práticas dos povos que vivem na Amazônia”, a teologia é desafiada a descobrir os povos que habitam na região, “valorizando seus saberes ancestrais e suas práticas religiosas e sociais, que se conectam com o seu modo de se relacionar e conviver com a biodiversidade de seus rios e florestas”. Superando interesses geopolíticos e econômicos, Adelson Araújo dos Santos faz um chamado a descobrir “as cosmovisões de seus povos originários e do modo desses se relacionarem com a natureza, com Deus e o mundo”.


Foto: Reprodução

A ecologia integral tem sido um tema relevante no pontificado do Papa Francisco, sobretudo a partir da publicação da encíclica Laudato Si', escrita “por alguém profundamente comprometido com a defesa do bem e da casa comum”, afirma o professor da Gregoriana, quem também destaca a importância do Sínodo para a Amazônia, que retomou o tema da ecologia integral, nos convida a passar de uma “cultura de descarte” a uma "cultura do cuidado", como algo a ser assumido por toda a humanidade. Segundo o jesuíta os padres sinodais apontam quatro aspectos para uma autêntica conversão à ecologia integral: o cuidado do bioma e de sua biodiversidade; o cuidado do conhecimento ancestral dos povos originais; a transição para uma economia verde; e os processos de educação ecológica e espiritualidade no contexto da Amazônia.

A ecologia integral é bem mais do que “uma preocupação verde genérica”, afirma o padre Adelson, que debe ter em conta “a multiplicidade de saberes e relações existentes entre as criaturas”, e entender que “além do pensamento racional, existe uma sabedoria presente na dimensão espiritual da relação entre o ser humano e a natureza”, que nos chama a um novo estilo de vida, tendo em conta que “tudo está interligado, sendo necessário buscar soluções integrais”, mostrando “as raízes comuns dos problemas ambientais e sociais”.

O conceito de ecologia integral demanda, segundo o teólogo jesuíta, “reformular o conteúdo dogmático da teologia para responder a esses novos desafios”, a reconhecer “a existência de uma nova teologia ecológica, na qual o universo é sempre visto em expansão e evolução”, que torna a criação divina um processo permanente. Desde a teologia latino-americana, o conceito de ecologia integral, leva a reconhecer “que toda a criação deve ser libertada, reafirmando nossa opção preferencial pelos mais vulneráveis, como os pobres e os indígenas”, segundo o professor da Gregoriana, quem vê a causa dessa vulnerabilidade nas “consequências das mudanças climáticas e dos grandes projetos econômicos”. É um conceito que insiste na experiência de encarnação, tendo em conta a perspectiva amazônica oriunda das tradições mitológicas e religiosas dos seus povos originários.

A pandemia de COVID-19 é algo que já vinha sendo anunciado há algumas décadas, segundo frei Sinivaldo Tavares, quem afirma que “a cada quatro messes nós somos surpreendidos com uma nova zoonoses perigosa”. Citando Carlos Nobre, “apenas na Amazônia nós temos mais de 200 vírus da família COVID”, com risco de que eles saltem desse bioma e possam nos atingir. O frade franciscano considera que “a razão para a pandemia emergir na China é porque nunca na história do Planeta houve uma industrialização e urbanização tão rápidas e intensivas quanto na China atual”. Isso mostra a possibilidade do que pode acontecer na Amazônia, dado o desmatamento crescente. Diante disso, ele afirma que “tanto a injustiça social como a crise climática e a crise pandêmica, são causadas pela ação humana, pela maneira do ser humano intervir na natureza”.


Foto: Reprodução

A análise que o professor da FAJE tem feito, leva-o a afirmar que “o que provocou que o vírus pulasse para os humanos foi a invasão de ecossistemas florestais, a destruição de habitats e espécies, com a consequente manipulação de plantas e animais”. A causa de tudo isso está no “fato do ser humano penetrar nessas áreas remotas de fronteira, o que cria as condições para que os patógenos migrem aos seres humanos”. Ele fala de corredores de contaminação, estradas que se abrem em meio as grandes florestas para criar a infraestrutura para os grandes projetos.

Sinivaldo Tavares afirma que “há uma única guerra, travada há séculos pelo capitalismo global, pelo mercado, que de maneira sistemática e cada vez mais intensa vem promovendo essa guerra contra a espécie humana, produzindo cada vez mais pobres, concentrando a riqueza, e uma guerra contra as outras espécies e a vida no planeta”. A consequência disso é “uma economia global, que mata, que tem produzido um desequilíbrio muito grande com as espécies do planeta, devastando os sistemas”. A causa está na busca de “um crescimento ilimitado, que produz um apetite insaciável pelos bens naturais, a ponto de chamar os bens naturais de recursos naturais, como se a natureza fosse um imenso depósito de recursos para ser extraídos e comercializados”, que se traduz numa “ilimitada transgressão dos limites do planeta, das espécies e dos ecossistemas”.

Adelson Araújo dos Santos fala do conceito de cidadania ecológica integral, um tema muito bem trabalhado nos documentos do Sínodo para a Amazônia, “que procura o bem comum, o cuidado da casa comum”. O teólogo jesuíta afirma que “as lutas sociais fazem parte do conceito de salvação, como cristãos temos a obrigação de cuidar de toda a integralidade da pessoa, nem só da alma”. Essa integralidade, segundo frei Sinivaldo, faz com que não possa se contrapor vida a economia. No Brasil, “40% da nossa população fique dilacerada, dividida, desesperada, porque ou vai à rua e corre o risco de ser contaminada ou fica em casa e morre de fome”. Ele denuncia que o “governo brasileiro se aproveita da pandemia, considera isso uma distração, para passar mais facilmente as suas políticas fascistas e de ultradireita, como a privatização, a precarização das leis trabalhistas, a invasão e não demarcação das terras indígenas, a liberalização do extrativismo”.

O caminho da Igreja na evangelização tem sido o caminho da encarnação, da inculturação, segundo Adelson Araújo dos Santos, o que tem avanços e retrocessos. Esse é o modelo que pretende fazer realidade o Papa Francisco, como ele fala em Querida Amazônia, onde diz sonhar com comunidades cristãs capazes de se entregar e se encarnar, fruto da conversão pastoral e sinodal sugerida no final da Assembleia Sinodal. Segundo o teólogo jesuíta “este é um caminho sem retorno, porque só assim o cristianismo pode avançar no diálogo com as diferentes culturas, algo que fez parte da história do cristianismo, que foi incorporando símbolos das diferentes culturas, o que deve ser continuado em referência às culturas atuais”.

A alternativa ao atual modelo extrativista aparece, segundo o professor da Gregoriana, em todo o caminho apontado pela Laudato Si' e o Sínodo para a Amazônia, que nos leva a entender que “não podemos aceitar mais determinados modelos de desenvolvimento equivocados sobre um progresso que não procura o bem comum, nem o bem da população local e sim o interesse das grandes empresas”. Nesse sentido, o jesuíta vê a possibilidade de conhecer as experiências da Amazônia para criar um novo modelo para o bem comum.

Na mesma linha, Sinivaldo Tavares vê no extrativismo “a causa comum de todas as crises, o extrativismo está presente desde a invasão dos europeus”. Ele afirma que “nossos governos de esquerda se tornaram reféns das grandes empresas mineradoras”. Diante disso, “a Igreja deveria tomar a questão do extrativismo como tema urgente, que continua sugando a força do trabalho humano e as energias da terra”. Ele coloca como exemplo que na quarentena, as mineradoras nunca pararam, quando seus trabalhadores são populações de risco, sofrem doenças respiratórias em decorrência do seu trabalho.

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