Prefeito de Cianorte (PR) é um dos donos de abatedouro fechado após 193 casos de Covid-19

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25 Junho 2020

Justiça determinou suspensão das atividades presenciais na Avenorte Avícola por catorze dias; com 25% das ações da empresa, Claudemir Bongiorno (MDB) considera que o erro da empresa “talvez tenha sido testar, ter procurado doente”.

A reportagem é de Mariana Franco Ramos, publicada por De Olho nos Ruralistas, 24-06-2020.

O prefeito de Cianorte, município do Noroeste do Paraná, Claudemir Bongiorno (MDB), é fundador e um dos donos do frigorífico Avenorte Avícola, foco da contaminação de 193 funcionários pelo novo coronavírus. A Justiça do Trabalho determinou que o abatedouro de aves suspenda todas as suas atividades presenciais por catorze dias, a partir desta quarta-feira (24), sem prejuízo na remuneração dos funcionários.

Bongiorno detém 25% das ações da Avenorte e dois de seus filhos atuam no dia-a-dia da empresa, proprietária da marca Guibon Foods. Hugo Leonardo é o diretor industrial e Victor Rodrigo é o gerente de suprimentos.

A decisão liminar foi tomada a pedido do Ministério Público do Trabalho (MPT), que identificou um surto de Covid-19 no local. No despacho, o juiz Rodrigo da Costa Clazer informa que em 22 dias, isto é, de 19 de maio a 9 de junho, o número de casos confirmados saltou de 3 para 193, o que representa cerca de 5% da força de trabalho do abatedouro, que possui mais de 3.300 funcionários. Outros 22 trabalhadores aguardam resultado de exames.

A multa diária, em caso de descumprimento, é de R$ 500 por empregado. O juiz também determinou o afastamento de todos os trabalhadores que tiveram contato com suspeitos de terem contraído o vírus no raio de 1,5 metro. Segundo ele, se compatível com a atividade, é permitido o labor em home office. A empresa diz que “buscará a solução judicial para reverter a atual situação”.

Frigorífico concentra 58% dos casos em Cianorte

Em entrevista concedida ao De Olho nos Ruralistas, Bongiorno afirmou que a prefeitura tomou todas as medidas possíveis para combater a pandemia e que não tinha como prever o surto de Covid-19 no frigorífico. “Afastamos as pessoas que faziam parte do grupo de risco e dividimos os ônibus [que levam os trabalhadores] em duas partes”, justifica. “Mas para uma empresa que tem 3.300 funcionários, mais 300 granjeiros, é muito difícil”.

Ele tece a seguinte argumentação para justificar o surto:

— Os caminhões vão muito para o Nordeste, para o Brasil inteiro, levar frango. Nós fizemos todas as barreiras. Infelizmente teve casos. Mas é importante registrar que não tivemos nenhum óbito na empresa.

Desde o início da pandemia, Cianorte registrou 330 casos da doença, 58% de funcionários da Avenorte. Ao todo, 280 pessoas estão recuperadas e duas morreram. O município possui pouco mais de 80 mil habitantes.

“Uma das mortes foi infarto e depois se comprovou que ele tinha o vírus”, diz o prefeito. O outro óbito é de um homem de 83 anos que teria comorbidades. Dos doentes, três estão na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e oito na enfermaria. “Só tem um da empresa na UTI. É um haitiano de 46 anos muito forte. Tenho fé em Deus que ele vai sair dessa”.

Em 2012, quando foi eleito para seu primeiro mandato, Claudemir Bongiorno declarou à Justiça Eleitoral 18 imóveis rurais, todos em Cianorte, em nome da Bongiorno Participações Ltda. As propriedades, que somam 193 hectares, não aparecem na declaração de bens de 2016, ano em que foi reeleito. O patrimônio do prefeito, no entanto, quase dobrou: passou de R$ 7,9 milhões, em 2012, para R$ 15,3 milhões, em 2016.

"Pessoas ficam festando e vão trabalhar", diz prefeito

Questionado se poderia ter evitado o surto, o emedebista respondeu que seria impossível:

— Abatedouro de aves é lugar úmido, né? Não tem como. É linha de produção. Por mais que você queira cercar e fazer de tudo, é difícil. E outra coisa: as pessoas quando saem ficam na rua, festando no final de semana, e depois vão trabalhar. Quando passa mal diz que pegou na Avenorte. Não. Ele é colaborador da empresa; não quer dizer que pegou na empresa.

De acordo com o prefeito, o frigorífico afastou 800 funcionários dois meses atrás, de maneira preventiva. “Todos que tinham contato com outros nós afastamos. Compramos testes, pagamos R$ 210 e testamos mais de 200 pessoas por conta própria”, afirma. “O trabalho preventivo me custou caro. Eu descobri a doença e fui penalizado por isso. Talvez o erro da empresa tenha sido testar, ter procurado doente. Mas eu não me arrependo. O resultado é nenhum óbito de funcionário”.

Sobre o fato de ser prefeito e também um dos donos do frigorífico, Bongiorno alega que sempre agiu “separadamente”:

— A lei nunca disse que era para fechar abatedouro. A lei federal diz que é prioridade, que é essencial. Vai ficar sem alimentos? Ninguém parou de alojar. O que está segurando o Brasil ainda é a exportação. Se eu imaginasse que ia chegar nessa situação, a gente tinha se organizado lá atrás, alojado um pouco menos. Mas ninguém podia prever que ia chegar nesse caos. É uma coisa nova e ninguém sabe lidar com isso.

O empresário conta que espera reverter a decisão da Justiça, mas que, caso contrário, ela será cumprida. Entretanto, diz não saber ainda como proceder com o estoque. “Tenho 200 frangos por dia para 48 dias. São 8 milhões de aves alojadas. Se eu não tratar, vão morrer 8 milhões de pintinhos. Onde vou enterrar? Vou cremar? Não sei ainda. A gente não sabe de nenhum abatedouro no Paraná que está fechado”.

Ele também garante que a cidade está bem estruturada para atender os casos de Covid-19. “Montamos um mini-hospital com trinta leitos para fazer o primeiro atendimento. Só metade está sendo utilizada. Não queremos perder vidas. Mas a contaminação chega num ponto que fica muito difícil controlar. As pessoas não colaboram. Imagina você com mais 3.300 na rua. Eu não sei o que vai virar. Estou preocupado como prefeito também”.

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