Uma experiência de valor inestimável

Revista ihu on-line

Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

Edição: 546

Leia mais

Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

Edição: 545

Leia mais

Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

Edição: 544

Leia mais

Mais Lidos

  • Estas são as razões do ‘adeus’ do (ex-)cardeal Angelo Becciu

    LER MAIS
  • “O Óbolo de São Pedro foi usado para pagar um imóvel em Londres”: a investigação sobre o cardeal Becciu

    LER MAIS
  • Pantanal: “Já queimaram uma área tão grande que os bichos não têm mais para onde correr”

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


25 Junho 2020

"Durante essa pandemia, alguns membros de nossas comunidades terão experimentado uma atração, ou vivido um despertar, da  cristã. Outros verão a fé que possuem sendo testada pelo sofrimento que testemunharam", escreve Andrew Downie, presbítero da Diocese de Hexham e Newcastle (Inglaterra) desde 2002, pastor da Paróquia de St. Cuthbert’s, em Durham e capelão da Universidade de Durham. Possui licenciatura em teologia fundamental pela Pontifícia Universidade Gregoriana, de Roma e é doutorando na Universidade de Durham. O texto foi publicado por La Croix International, 23-06-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

No final de março deste ano, o governo inglês impôs regras de isolamento social para controlar a propagação do coronavírus. As igrejas foram ordenadas a fechar as portas, e as celebrações públicas foram proibidas. Os bispos orientaram os padres de suas jurisdições a continuarem celebrando diariamente a missa, sozinhos com igreja vazia. Os fiéis foram convidados a se juntarem às missas em oração e a realizarem o ato de comunhão espiritual.

Alguns padres optaram por transmitir ao vivo, via internet, as suas celebrações eucarísticas como uma forma de manter contato com aqueles a quem servem.

A igreja onde eu ministro, no centro da cidade de Durham, na região nordeste da Inglaterra, carece de equipamentos para transmissão ao vivo, e pareceu não haveria escassez de missas on-line aos que desejariam assisti-las, o que acabou se confirmando.

A Reflexão do Evangelho On-line

Eu logo soube que os paroquianos estavam assistindo a missas celebradas de lugares tão distantes como Roma e San Francisco. Mas era importante descobrir um modo de manter a comunidade paroquial unida enquanto não podíamos nos reunir em nossa igreja.

Após algumas semanas de confinamento social, ocorreu-me a ideia de propor uma “Reflexão do Evangelho On-line”. Atualmente, essa reflexão virou um evento regular nas manhãs de domingo.

Utilizamos a plataforma de videoconferência Zoom, que dá aos usuários uma tela cheia com os rostos dos participantes. Os paroquianos fazem as leituras das Escrituras da missa de domingo, eu ofereço uma homilia e todos, em seguida, são convidados a responder. Terminamos com as Orações dos Fiéis.

O sucesso da iniciativa foi além das minhas expectativas. Mais de trinta pessoas participam toda semana, incluindo paroquianos, estudantes e amigos que estão no exterior.

A St Cuthbert’s é uma comunidade paroquial universitária e conta com muitos fiéis com formação acadêmica. A partilha das experiências de vida é poderosa, independentemente de quem esteja falando. Na realidade, esse formato virtual parece atuar como um equalizador, capacitando a falar aquelas pessoas que, por algum motivo, se sentem menos confiantes em se manifestar em uma sala cheia de pessoas.

Os mais velhos compartilham as lembranças de como era a Igreja antes do Vaticano II e do impacto das reformas conciliares. Professores e pais refletem sobre a tarefa de passar adiante a fé cristã aos mais jovens.

A sabedoria das pessoas a que sirvo

Em geral, os fiéis falam do desafio de ser um testemunho aos colegas e amigos. Os alunos trazem a perspectiva – por vezes, inquietante – de uma geração mais jovem.

Para mim, essa experiência tem sido frutífera, pois tem me permitido perceber a sabedoria das pessoas a que sirvo. As nossas reflexões duram mais de uma hora geralmente.

A Reflexão do Evangelho On-line não é exatamente uma alternativa às missas transmitidas ao vivo, mas uma resposta a uma pergunta diferente. Não tem a ver com perguntar “O que pode substituir as missas de domingo?” e sim com “o que sustentará a nossa comunidade na ausência das missas?”

Estes nossos encontros virtuais parecem ter desencadeado o poder da Palavra de Deus, vivo e atuante no meio de nós. É um espaço virtual, e não físico. Mas o Espírito Santo tem, realmente, atuado aí. Teologicamente falando, os sacramentos fazem a Igreja, diz o Catecismo da Igreja Católica (n.º 1118, citando Santo Agostinho). E os sacramentos são os canais privilegiados e certos da graça de Deus.

Mas Deus pode conceder a graça em todos os tempos e circunstâncias. Quando, por boas razões, não podemos celebrar a Eucaristia juntos, o Espírito Santo, infinitamente criativo, encontrará os meios para agir.

Uma missa on-line põe os fiéis como espectadores passivos, ou mesmo os torna consumidores, os quais podem “comprar à vontade” até achar uma celebração que lhes convenha.

Por outro lado, uma reflexão compartilhada sobre as Escrituras permite que se envolvam ativamente com a Palavra, canalizando a sabedoria que esta palavra traz para dentro da vida de cada um e permite que aprendamos uns com os outros.

Preciosa demais para se perder

Dentro das restrições impostas nestes tempos de pandemia, a atividade que realizamos ajuda a manter o espírito comunitário, em vez de ampliar o sentimento de isolamento. Essas reflexões on-line me desafiaram a desenvolver um modo de pregação apropriado para o formato virtual. O que funciona no púlpito pode não funcionar no monitor do computador ou celular. Conduzir uma meditação compartilhada exige habilidades diferentes.

Várias pessoas já me disseram: “Temos que encontrar uma forma de continuar com essa atividade depois que o isolamento acabar”. É preciosa demais para se perder.

A Igreja reservou a tarefa de pregar aos ministros ordenados. Mas que recursos poderemos descobrir se abrirmos um espaço para os leigos e leigas serem ouvidos também?

Certamente, a fé sem obras está morta (Tiago 2,17). Fui igualmente encorajado pela resposta prática dos paroquianos à pandemia: o trabalho voluntário com os bancos de alimentos, as compras feitas para os vizinhos em autoisolamento, a busca por se manterem em contato regular com mais vulneráveis.

Isto, também, é obra do Espírito Santo. Isto, também, é Igreja.

Quando começarmos a sair deste isolamento social, a Igreja enfrentará, não um retorno aos costumes antigos, mas uma “nova normalidade”, um novo normal. Os desafios serão muitos.

Reabrir as igrejas com segurança será uma tarefa logística enorme. Os paroquianos de mais idade e vulneráveis ​​podem se ver obrigados – ou podem escolher – a continuar, durante algum tempo, participando virtualmente da vida da Igreja.

Durante essa pandemia, alguns membros de nossas comunidades terão experimentado uma atração, ou vivido um despertar, da cristã. Outros verão a fé que possuem sendo testada pelo sofrimento que testemunharam.

Isso tudo exigirá uma resposta do povo e dos pastores, e uma resposta apropriada exige que reflitamos e aprendamos com as experiências proporcionadas por este isolamento social.

Esta minha experiência de partilha das escrituras com uma comunidade on-line tem sido um presente inesperado e de valor inestimável.

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Uma experiência de valor inestimável - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV