Dos satélites de Colombo às caravelas de Elon Musk

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23 Junho 2020

“As novas formas de capital-colonialismo serão mais complicadas (o complexo é outra coisa), mas vão pela mesma senda das caravelas de não muito tempo atrás. Que a curva não nos faça perder a visão de conjunto”, escreve Andrés Dimitriu, professor titular da Universidade Nacional de Comahue, Patagônia Argentina, em artigo publicado por Rebelión, 22-06-2020. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Quando Elon Musk e associados comerciais e militares partem com suas 40.000 caravelas ionosféricas (Starlink), aponta para outro tipo de continente, desta vez tridimensional, que compreende não apenas o espaço orbital de toda a humanidade - varrendo definitivamente as jurisdições nacionais -, como também inclui o acesso concentrado aos Big Data, isto é, ao presente e aos cenários preditivos (quando não anteriormente desenhados) de pessoas e comunidades em todos os continentes.

Mas a conduta de Musk é apenas um sintoma da época e do sistema, como antes Colombo e Hernan Cortés, porque não se trata de uma pessoa, seu ego ou lucros de sua empresa. O mesmo vale para Gates, Zuckerberg, Bezos e alguns outros, cujos caprichos são matéria para notas coloridas, fake news e teorias da conspiração.

Voltemos a Puerto de Palos/Cabo Canaveral: os avais e permissões desta vez não vêm do Vaticano e das casas reais do século XV, mas de centros quase privatizados, incluindo a FCC (Comissão Federal de Telecomunicações dos Estados Unidos) e a UIT (União Internacional de Telecomunicações), que decidem conceder outro bem comum porque o consideram lucrativo.

A distribuição de guloseimas a 99% da humanidade prometida pelos operadores da quarta revolução industrial é inversamente proporcional às incontáveis ramificações e múltiplas consequências que herde e mais do que provavelmente agrave exponencialmente. Na pirâmide concreta estabelecida no mundo, a natureza é a base, o plano seguinte, o trabalho de mulheres (em primeiro lugar, além da mais-valia emocional e o cuidado), escravos, agricultores e trabalhadores informais e depois - bem acima – se encontra a linha a partir da qual se fazem estatísticas (assalariados, empresários e output métrico).

Não existe o trabalho imaterial: cada clique do mundo, mesmo que ocorra em um escritório longe das montanhas e a semeadura extensiva, é constituído pela - e é o último elo - cadeia de atividades extrativas, incluindo nessa categoria o consumo de energia. Muitos economistas, presos a diferentes ramos do sistema, apresentam as coisas de cabeça para baixo, como os morcegos: o tangível é o dinheiro, enquanto o restante vai do estado sólido ao gasoso, está nas nuvens, ou é considerado uma “externalidade”.

Como o modelo está em permanente crise, seus patrocinadores procuram fugas que também sejam lucrativas, sendo uma delas a realização de simulacros ou entretenimentos em larga escala. É por isso que as fantasias, expectativas e promessas para a clientela cittadina são enormes e o mais distante possível da base material concreta e da empatia.

A palavra “produtividade” é agradável, mas esconde a maior parte do circuito de cada mercadoria, das montanhas, os campos, o mar e os laboratórios aos centros de consumo e ao que na modernidade se chama, com conforto insolente, aterros sanitários e lixões. Sem esse incalculável subsídio humano, energético, emocional, biodiverso, cultural ou o que for, mas sempre além desse domínio escorregadio do dinheiro, a economia predominante não funcionaria. Por isso, é necessário ocultar, negar, camuflar e despolitizar as consequências. O designar “inimigos” do progresso material, sejam pobres, migrantes, gênero ou origem geográfica, por meio de uma calculada engenharia social.

Mas não há mais espaço para desculpas: as dimensões das externalidades superam em muito a economia real e as leis da natureza. Tudo isso foi antecipado, embora sem total consciência do exponencial, há pelo menos dois séculos, com as críticas à modernidade e mais tarde pela ecologia política (não o ambientalismo corporativo, obviamente) e, muito antes, pelas advertências do Oriente (Buda) e tantos povos que a arrogância antropológica denomina primitivos para ignorá-los (excluir sua visão de mundo) e dá-los por extintos. Mas, agora, se somam outros mecanismos de apropriação mais complexos, imaginados e projetados por bebês ricos, mimados e sem escrúpulos, mas que desejam ganhar ainda mais dinheiro, com ninhos em diferentes partes do mundo, não apenas no Vale do Silício.

A composição mista de técnicas (uso o termo pensando em Lewis Mumford, Jacques Ellul, Ivan Illich e Murray Bookchin, entre outros) é vertiginosamente próxima e os satélites são estratégicos para estratégias de concentração. Existem críticas, é claro, mas geralmente são parciais, focam no visual (ver estrelas sem interferência nos observatórios), no meio ambiente (multiplicação exponencial da poluição radioelétrica, na crescente demanda por metais ou minerais e energia, entre outros), mas sobretudo - e obsessivamente - na questão da distribuição de “benefícios”, outra face, cuja resposta já está reparada antecipadamente e é exibida como o espíritosocialistadas empresas: ‘todxs terão acesso bom e barato à Internet no mundo’. No entanto, ao reconhecer que haverá vencedores e perdedores, admitem que não estamos falando de democracia.

A pressão para subsidiar ainda mais esse tipo de aventura é justificada pela promessa de que é possível e, portanto, imperativo, ficar do lado dos vencedores. Uma verdadeira loteria. Quem quer que se oponha a esse esquema, defendem-se, é porque está contra sua vaca sagrada, o “progresso”, deslocado, ou seja, fora de lugar. Os meios de comunicação, as forças políticas, as associações empresariais e não poucas vezes a academia clientelizada consentem, de seu lugar na pirâmide, assegurando que entrar na competição e adotar a tecnolatria e o lucro como bússolas produtivas é o melhor. Objetam-se mais criticamente as técnicas de controle, apropriação da vida privada e do trabalho, ou seja, o capitalismo de vigilância, como bem define Shoshana Zuboff. Todos esses aspectos são reais, mas deixam de lado questões essenciais, por exemplo, quais são as raízes materiais e (crises) existenciais dessa corrida e quais são suas consequências?

O que hoje chamamos de capitalismo é uma moda passageira (o termo é utilizado por Polanyi) que amálgama uma enorme variedade de práticas anteriores de acumulação de poder e material, nem sempre com sucesso, mas com muitos conflitos, enormes sofrimentos e, principalmente, a fratura traumática da unidade do ser humano consigo e com a natureza. O voo permanente para a frente, além da ocultação e negação dessas raízes e de suas consequências, foi e é constitutivo de sua eco e genocida persistência.

A diferença entre o Cerro Rico de Potosí colonial e o atual sistema globalizado é a criação de um enorme e contraditório sensoriamento entre a extração automatizada em culturas industrializadas, mineração, hidrocarbonetos, pesca e limpeza de terras e a vida nas cidades. As formas de trabalhar e as condições de saque mudaram, com milhões de pessoas experimentando o horror urbano que ninguém sabe lidar sem recorrer, não por coincidência, a circuitos de capital fictícios e mais destruição ambiental como “fonte de riqueza”.

Quando a primeira Rota da Seda foi se saturando de pedágios, assaltantes, piratas e caravanas cada vez mais caras, as elites da Europa descobriram que o terraplanismo havia completado seu ciclo e se lançaram na conquista das Índias para financiar suas guerras, disputas poder, parasitismo administrativo e luxos palacianos. “Fernão de Magalhães”, escrito por Stefan Zweig, embora eurocêntrico, é uma das melhores representações dessa volta ao mundo, com os primeiros “satélites de madeira”. Mas depois, como ocorre com toda administração à distância de economias de rapina, surgiram novos custos. Tivemos que tecer cumplicidades locais, oferecer subornos de pessoas, governos e até classes sociais inteiras, empregar administradores e ‘capangas’, separar grupos étnicos e culturas com privilégios diferenciados e muralhas, seja com o modelo argelino, mais brutal, ou com o do Marechal Lyautey, no Marrocos, que mais tarde foi nomeado presidente da Exposition Coloniale, em Paris, 1931.

Se a alienação, tanto do trabalhador como do capitalista, e a divisão de tarefas entre país e cidade, foi terrível para a humanidade, o colonialismo adicionou outros ingredientes atrozes ao mesmo processo que, de longe, excede a quantificação - correta, mas no final apenas uma tentativa de um tit for tat - ao estilo do cacique Guaicaipuro Cuautémoc, de Luis Britto García. São cálculos que de alguma forma fomentam o nacionalismo dos recursos (“resource nationalism”), reconhecida fonte de tráfico de influência global, uma vez que o capital pouco se importa se alguém amarra um pedaço de pano chamado gravata no pescoço ou se usa penas coloridas na cabeça..., desde que não afete os negócios centralizados. Além disso, aplaude esses comportamentos porque indicam colorida diversidade, também conhecida como pluralismo.

A acumulação de dinheiro e o interesse próprio que os economistas insistem em vender como único objetivo da vida faz parte da matriz que levou à destruição global - até reconhecida pelo empresariado, com “Limites ao Crescimento” (Meadows Report del MIT, 1972 y 1992) - e é necessariamente um parente direto da proliferação de simulacros verdes, tentativas de cooptação, ocultação de evidências e renovados artefatos estatísticas e publicitários, incluindo nesta categoria o negacionismo da catástrofe ambiental e social. É onde se encontra o papel da indústria de entretenimento exponencial, ou “distrativismo” urbanizado, especialmente a partir da Guerra Fria, pois olhos que não veem, corações que não sentem, e o contrário também. É que não há economia de rapina sem uma cúpula simbólico-ideológica que tente legitimá-la. Miragens, especulação e espetáculo, incluindo guerras e ditaduras, andam de mãos dadas.

A invenção do telégrafo expandiu os mecanismos de aceleração e conectividade (a comunicação é outra coisa). A curva da concorrência, velocidade e conflitos hegemônicos, e agora sabemos o que significam as curvas, começaram a aumentar exponencialmente, tanto como o capital fictício. A telegrafia foi o necessário complemento às ferrovias planejadas para o saque. Seja por cabo ou por ondas, a informação concentrada é a mercadoria que a segue, em ordem de categoria, mas também é sinônimo de dinheiro e permite acelerar a formação dos primeiros monopólios, pois antecipava cotações, preços, rumores, condições e quantidades (não apenas cereais, mas todas as commodities imagináveis) nos mercados centralizados.

As ferrovias planificadas para saques, juntamente com o telégrafo, também contribuíram para a homogeneização dos territórios, promoveram monoculturas e economias de exportação (ou seja, dependentes), afetaram traumaticamente as culturas camponesas e indígenas e reduziram a biodiversidade.

Essa fase reorganizou em larga escala a divisão de tarefas, prioridades e agendas políticas em nível continental, uma vez que permitiu unir poder e dinheiro, excluindo intermediários, porque é disso que se trata, com eficácia e especialização. Principalmente, estabeleceu e fortaleceu hierarquias espaciais e sociais e formas de entender a realidade. Foi apenas mais uma etapa do frenesi contemporâneo.

Quais a diferenças entre os conquistadores do século XVI com os satélites do projeto SpaceX, seus concorrentes, as não tão teatrais lutas sobre 5G e os delírios da quarta revolução industrial? São conceitualmente poucas, se houver. É uma questão de dimensões e de aceleração.

Se cairmos na armadilha de uma história linear, tudo isso, assim como a história do dinheiro, a matematização do tempo e do espaço, ou a privatização e mercantilização das sementes (e de todas as manifestações humanas) parece “natural” e até desejável: estaríamos indo, agora com Astúcia Artificial propagada como Inteligência Artificial, da moeda de cerâmica ou metal, à cédula, ao dinheiro eletrônico, às cripto e daí ao blockchain. Do relógio dos campanários à vigilância com reconhecimento facial e técnicas preditivas. Da agricultura da biodiversidade à bioeconomia, um termo basicamente roubado do pai da economia ecológica, Nicholas Georgescu-Roegen, por agronegociantes e outros decoradores da imagem corporativa. Sem esquecer a economia circular e outros entretenimentos sociais para os jovens em ascensão de classes abastadas.

Mover as fichas permanentemente é muito mais do que o resultado da competição porque, principalmente, serve para evitar a apropriação por baixo e/ou controle social. “A” tecnologia (detestam o plural porque permitiria descartar ou rejeitar) é apresentada como uma panaceia salvadora... de um futuro representado por uma renovada cenoura virtual. Tempos modernos: a robotização e descentralização é um caso típico.

Quando a FIAT, para citar um exemplo entre muitos, se viu confrontada pelas massivas manifestações trabalhistas em Turim, no final dos anos 1960, recorreu à descentralização para que os trabalhadores não tivessem tempo para interagir e organizar paralisações. É resultado do medo de uma resposta dos trabalhadores, que potencialmente - e somente potencialmente - se opõe a essa incongruente “criatividade destrutiva” da indústria, fundida com as urgências do capital. Porque ou somos criativos ou somos destrutivos.

As novas formas de capital-colonialismo serão mais complicadas (o complexo é outra coisa), mas vão pela mesma senda das caravelas de não muito tempo atrás. Que a curva não nos faça perder a visão de conjunto.

 

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