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17 Junho 2020

"Enquanto na Europa se debatia sobre o legado de Francisco e sobre sua interpretação dentro da Ordem, produzia-se uma memória, também objeto de polêmica, de sua presença no Oriente Próximo e de seu significado para o franciscanismo e toda a cristandade: é a complexidade da história e os infinitos desenvolvimentos aos quais ela deu origem a explicar por que escrever hoje sobre o assunto ainda é relevante".

A opinião é da historiadora italiana Marina Montesano, professora da Universidade de Messina, em artigo publicado por Il Manifesto, 12-06-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Francesco Profeta: La Costruzione Di Un Carisma
Pietro Messa

A "questão franciscana" já lotou bibliotecas e o interesse extraordinário dos Mendicantes leva a pesquisa em mil direções diferentes: das fontes sobre a vida do fundador - um verdadeiro mistério - ao seu papel central para a mudança do cristianismo medieval, da expansão da Ordem às contínuas divisões internas, às reformas e às perseguições de seus ramos considerados heréticos; sem esquecer o papel dos franciscanos, do século XIII até o presente, na Terra Santa com a Custódia, e muito mais, no Oriente Asiático, onde se direcionaram por séculos como missionários. Tudo começa pelas fontes: "uma questão sempre a ser esclarecida", como Pietro Messa intitula o primeiro capítulo de seu Francesco profeta. La costruzione di un carisma (Viella, p. 224, euro 25), uma vez que, além dos escritos do próprio Francisco, existem hagiografias a partir daquela de Tomás da Celano, embora por muitos séculos a narrativa praticamente única por precisa vontade da Ordem de transmitir uma determinada visão do fundador tenha sido aquela fornecida por Boaventura de Bagnoregio na Legenda Maior. O texto da Vita beati Francisci de Tomás de Celano ficou conhecido sobretudo após sua reedição pelos Bollandisti, nos Acta Sanctorum, durante o século XVII.

O núcleo forte e novo do livro está na discussão do Francisco "profeta", um título que raramente é atribuído a ele pela historiografia. "Uma leitura profética desse personagem e de sua ação no mundo é, no entanto, legítima - esclarece André Vauchez no prefácio - na medida em que o próprio Francisco em seu Testamento enfatizou repetidamente que se beneficiou das 'revelações' de Deus, através das quais este último havia lhe dado a entender o sentido de sua missão, mostrando-lhe o modo de viver o Evangelho no mundo. Como depositário de uma revelação de Deus feita à sua pessoa, Francisco é, portanto, um profeta. Mas Messa tem motivos para sinalizar que, exceto por essas breves anotações no Testamento, ele nunca se apresentou como profeta e nunca reivindicou uma autoridade relacionada a esse status privilegiado na Igreja. Quanto a seus biógrafos, de Tomás de Celano a Boaventura, eles se contentaram em falar sobre seus dons proféticos a propósito de sua vida pessoal ou eventos episódicos, sem atribuir importância particular a eles”.

Após a morte do fundador, no entanto, o profetismo de Francisco foi discutido dentro da Ordem, muitas vezes por um viés polêmico, para demonstrar a traição de uma parte dos frades, aqueles que costumamos chamar de "conventuais", em relação ao espírito originário da mensagem confiada à Regra, atribuindo a Francisco profecias sobre a decadência da Ordem.

A complexidade das fontes sobre Francisco também deu origem a um romance no qual se questiona se as tantas censuras realizadas pela oficialidade da Ordem não teriam ocultado alguns detalhes importantes de sua vida. Foi escrito por Massimiliano Felli e é intitulado Vite Apocrife di Francesco d'Assisi (p. 386, Fazi, euro 17).

O ponto de partida é o seguinte: durante o Capítulo de Paris em 1266, foi decidido que todos os testemunhos da vida de Francisco deveriam ser eliminados, deixando apenas a Legenda maior de frei Boaventura; no entanto, algo deu errado: o amanuense Deodato não concorda, esconde algumas cópias dos textos proibidos e inicia uma jornada que o leva até o irmão Leão, primeiro companheiro de Francisco, que agora já idoso, ficou na Úmbria; os confrades o consideram louco, mas a loucura dele é lúcida e repleta de lembranças. Desse encontro, nasce outra história possível de Francisco e de seu movimento, romanceada com mão segura por Felli, que conhece as fontes, mas, embora não verdadeira, ainda assim plausível.

Uma questão que causou debates na historiografia é a da visita de Francisco ao sultão Malek-al-Kamil em 1219, durante uma expedição cruzada, quando os exércitos cristãos estavam sediados em Damietta. Aqui também as fontes são centrais, porque faltam as testemunhas diretas do encontro (embora Louis Massignon interprete uma fonte árabe que ele encontrou nesse sentido, mesmo que ela não identifique Francisco com seu nome), mas também porque a questão abriu um debate, muitas vezes ideológico, sobre a natureza da visita, imaginando um Francisco que propõe um diálogo em vez de um conflito armado com o Islã.

Quem recoloca o discurso nos trilhos filologicamente e interpretativamente corretos é Antonio Musarra em Francesco, i Minori e la Terrasanta (La Vela, p. 384, euro 20). Na realidade, o livro parte da questão da visita e de um possível trânsito de Francisco para a Terra Santa e Jerusalém: “depois de ver o mal e o pecado que estavam começando a crescer entre o pessoal do exército ele foi embora e ficou na Síria por muito tempo”, como escreve uma das continuações da crônica de Guilherme de Tiro; mas vai muito além ao reconstruir a presença dos Menores na Terra Santa, dos primeiros passos até a fundação da Custódia, passando pela interpretação de seu papel de missionários assim como foi discutido dentro da Ordem por seus intelectuais Raimundo Lullo na frente. Ou seja, enquanto na Europa se debatia sobre o legado de Francisco e sobre sua interpretação dentro da Ordem, produzia-se uma memória, também objeto de polêmica, de sua presença no Oriente Próximo e de seu significado para o franciscanismo e toda a cristandade: é a complexidade da história e os infinitos desenvolvimentos aos quais ela deu origem a explicar por que escrever hoje sobre o assunto ainda é relevante.

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