Charles de Foucauld: um místico para o século XXI

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11 Junho 2020

“Vista pelos parâmetros habituais, a existência deste insólito personagem foi um total fracasso. Cem anos após tombar mártir em seu amado deserto argelino, somos mais de 13.000 pessoas no mundo que nos consideramos seus filhos espirituais. Agora a Igreja o reconhece. Reconhece como caminho o abandono nas mãos do Pai, a oração que Foucauld escreveu em 1896, ignorando que um século depois milhares de homens e mulheres a recitaríamos diariamente”, escreve Pablo d’Ors, padre, teólogo, escritor e conselheiro do Pontifício Conselho da Cultura do Vaticano, em artigo publicado por Alfa y Omega, 04-06-2020. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Foucauld é o padre do deserto contemporâneo. Assim que foi ordenado sacerdote, aos 43 anos, parte rumo ao Saara, onde residirá, primeiro em Beni Abbès e depois em Tamanrasset, até o seu assassinato, em 1º de dezembro de 1916, já há mais de um século. Tinha então 57 anos, embora por seu aspecto – tal era o seu desgaste físico – ninguém lhe daria menos que 75.

Foucauld não foi ao deserto em busca da solidão, pelo contrário, para estar próximo dos Tuareg. Foi lá para se encontrar com os pobres e se encontrou com a sua própria pobreza. Defendo que Foucauld é o continuador, em nosso tempo, da espiritualidade dos padres e mães do deserto e que, neste sentido, mais que o fundador de uma família religiosa, é quem traz para o Ocidente a necessidade de voltar ao deserto, o que hoje chamamos de silêncio e interioridade.

Foucauld foi um buscador espiritual. O primeiro capítulo de sua atribulada busca foi, provavelmente, uma expedição ao Marrocos, onde mostrou o temperamento que possuía. Curiosamente, foi a devoção aos muçulmanos que despertou nele o desejo de voltar à fé cristã. Em seguida, veio sua iniciação ao catolicismo, por meio de sua prima Maria Bondy, seu ingresso na Trapa, primeiramente na França e depois em Akbés (Síria), sua decisiva peregrinação para a Terra Santa, onde viveu em um miserável cubículo, trabalhando como serviçal das clarissas e, por fim, sua aventura no Saara.

Todas estas etapas são testemunhadas pelo próprio Foucauld. Suas cartas são milhares. É revelador como o paradigma da solidão (um ermitão..., e no Saara!) se converte no paradigma da comunicação. Este duplo movimento, tão eloquente no vertical como no horizontal, nos oferece uma imagem certeira de quem verdadeiramente era este homem.

Foucauld foi o protótipo do convertido. Quem agora será elevado aos altares foi em sua aristocrática juventude um envaidecido militar e um sofisticado boa-vida. A passagem da vida belicosa à venerável fica perfeitamente refletida em seus traços, que passam de sensuais e arrogantes a transparentes e bondosos.

Em vez de a homenagem oferecida pela Sociedade Geográfica Francesa - conferindo-lhe a medalha de ouro por seu admirável Reconnaissance au Maroc – o lançar para as vaidades do mundo, estimulou à solidão. Era o mês de outubro de 1886, quando Henri Huvelin, um pároco parisiense, ordenou-lhe a se ajoelhar, confessar e comungar. E foi ali que tudo começou para Foucauld. Tinha 28 anos e sua vida dava uma guinada definitiva. Para ele, compreender que Deus existia significou o mesmo que devia se entregar a Ele.

Foucauld foi um pioneiro do diálogo inter-religioso. Viajou ao norte da África disposto a converter os muçulmanos, mas Deus o concedeu o dom de não converter ninguém. Graças a não poder realizar seus planos, começou a cultivar a amizade com os destinatários de sua missão. E foi assim que este missionário ermitão entendeu a amizade como o caminho privilegiado para a evangelização. Graças a isso, empreendeu um belo gesto de amor a um povo: a elaboração de um dicionário francês-tamacheq, bem como a coletânea das canções, poemas e relatos do folclore dos Tuareg. Estas obras enciclopédicas revelam seu impecável respeito a uma cultura e a uma religião alheias e, enfim, sua paixão pelo diferente.

Foucauld foi um místico do cotidiano. O cotidiano que ele chamava de Nazaré. Para além da vida pública de Jesus, que tantos já que buscavam representar - anunciando o Evangelho, curando os enfermos, redimindo os cativos, criando comunidade... -, o que Foucauld quis representar foi sua vida oculta como operário em Nazaré. A vida em família, o trabalho na carpintaria, a existência simples em um povoado... Tudo isso, tão anônimo, foi o que o dominou até o ponto de se consagrar sempre e sistematicamente ao mais ordinário.

É paradoxal que uma vida, que vista de fora pode se julgar extravagante e aventureira, tenha sido alentada pela paixão pelo simples e insignificante aos olhos humanos. “Lembre-se que você é pequeno”, deixou escrito. E esteve convencido de que eram muitíssimos aqueles que poderiam seguir este seu carisma, tendo como prova o fato de que escreveu incansavelmente múltiplas regras de vida.

Foucauld é o ícone do fracasso. Embora seja verdade que escreveu muitas regras monásticas e laicais, também é verdade que não teve nenhum seguidor. Também não conseguiu converter sequer um muçulmano. Nem libertar sequer um escravo, por mais que se propôs enchendo a Administração francesa com suas reivindicações.

Vista pelos parâmetros habituais, a existência deste insólito personagem foi um total fracasso. Cem anos após tombar mártir em seu amado deserto argelino, somos mais de 13.000 pessoas no mundo que nos consideramos seus filhos espirituais. Agora a Igreja o reconhece. Reconhece como caminho o abandono nas mãos do Pai, a oração que Foucauld escreveu em 1896, ignorando que um século depois milhares de homens e mulheres a recitaríamos diariamente.

 

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