O Vaticano planeja, depois de meio milênio, revogar a excomunhão de Lutero

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10 Junho 2020

Como um gesto ecumênico sem precedentes para a unidade. Um grupo de teólogos dirigiu-se a Roma e à Federação Luterana Mundial para pedir uma declaração formal que acabe com 500 anos de condenações e incompreensões mútuas.

A reportagem é de Jesús Bastante, publicada por Religión Digital, 08-06-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Em 03 de janeiro de 1521, o papa Leão X excomungava Martinho Lutero mediante a bula Decet Romanum Pontificem. Um texto que o agostiniano alemão responderia chamando o Papa de Anticristo. Meio milênio depois, e ainda que uma excomunhão possa ser levantada apenas em vida, Francisco poderia estar planejando revogar o castigo eterno para Lutero, a quem já prestou reconhecimento em numerosas ocasiões como “um reformador” que quis mudar a Igreja, e não a destruir.

A decisão seria um gesto histórico para o ecumenismo, e um chamado às consciências dos crentes de todo o mundo. Um “Sim, se pode” entre os seguidores de Jesus. Assim solicitou o “Grupo de discussão ecumênica de Altenberg”, no dia de Pentecostes. O coletivo de teólogas e teólogos ecumênicos também se dirigiu à Federação Luterana Mundial para que retire a declaração de “Anticristo” de Lutero ao pontífice que o excomungou.

Um ato simbólico, porém particularmente importante

“O ecumenismo vive de atos simbólicos e a retirada da condenação contra Lutero seria particularmente importante”, destacou a teóloga Johanna Rahner, ao portal katholisch.de, destacando que uma decisão assim “permitiria à Igreja Católica expressar seu apreço aos protestantes de hoje”. Dito de outro modo, a consequência de um caminho que arrancou com força no Concílio Vaticano II e que hoje é mais possível que nunca.


Teóloga Johanna Rahner. Foto: Katholisch.de

Para a teóloga de Tübingen, algumas passagens do decreto conciliar “Unitatis redintegratio” poderiam ser interpretados como a abolição da excomunhão de Lutero, porém dado que a bula relaciona-se com o conteúdo dos ensinamentos do reformador, das quais depende parte das igrejas evangélicas hoje, a retirada da excomunhão seria de grande relevância.

O tempo, ademais, joga a favor da medida, uma vez que, em 2017, pelos 500 anos da Reforma – ou das 95 teses postas na porta da igreja de Wittemberg –, a Federação Luterana Mundial mostrou-se crítica com a condenação que Lutero fez a Leão X e sugeriu que fosse retirada.

Comemorar a separação unidos

Esse fato, unido à “cultura da memória” que vem se desenvolvendo desde 2017 e que culminará em 2030 – 500 anos da Confissão de Augsburgo, a ruptura definitiva e a criação da igreja luterana –, faz-se mais provável um avanço definitivo no “caso Lutero”.


Bula de excomunhão de Lutero "Decet Romanum Pontificem", de Leão X, 03-01-1521. Fonte: Wikicommons

De fato, tanto a Federação Luterana Mundial, quanto o Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos, estão planejando um evento conjunto para recordar a excomunhão de Lutero no próximo 03 de janeiro. Um encontro que poderia ocorrer em Roma e cuja cereja do bolo poderia ser o levantamento das mútuas excomunhões.

E onde quer que Lutero e Leão X estejam (ou Adriano VI, ou Carlos V, ou Frederico da Saxônia, ou tantos que tinham muito a dizer naqueles tempos), a verdade é que todos nós, que cremos na fé de Jesus Cristo, estamos cada vez mais próximos.

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