O projeto católico conservador se esgotou?

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23 Mai 2020

Ninguém deveria se deliciar com o “derretimento” público de R. R. Reno, editor da revista conservadora First Things. Seu pedido de desculpas por alguns tuítes verdadeiramente bizarros foi bem-vindo: eu suponho que alguém que o ama, entrou em contato com ele e o levou a perceber o quão bizarros e inúteis foram os seus comentários. Esta horrível pandemia atingiu pessoas diferentes de maneira diferente. Passemos o apagador na lousa de Reno como se fosse o primeiro dia do ano, pensei comigo mesmo.

O comentário é de Michael Sean Winters, publicada em National Catholic Reporter, 22-05-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eu fiquei chocado, portanto, quando Rod Dreher, famoso pelo livro A opção beneditina (Ed. Ecclesiae), se aproveitou da ocasião para expressar uma acusação mais geral da revista:

“A crise da First Things é um símbolo da crise mais ampla do conservadorismo cristão intelectual, na tentativa de se envolver com a modernidade e de participar da praça pública – e é exatamente por isso que a First Things foi fundada e esse é o modo como ela vê a sua missão. O que quero dizer é que a crise da First Things – se você pode chamá-la de ‘crise’, e eu acho que pode – não é apenas uma crise dessa revista, mas também simboliza uma crise mais ampla e profunda da direita cristã intelectual.”

A preocupação de Dreher não é apenas com a crise que o presidente Donald Trump e o trumpismo criaram para todos os conservadores moralmente sérios. Ele acha que houve um declínio vertiginoso nos primórdios dos anos 1990, quando a First Things começou a ser publicada:

“Essa era a época em que o Papa João Paulo II estava no auge dos seus poderes, e até muitos evangélicos o consideravam um símbolo do autêntico testemunho cristão ao mundo – não apenas em termos de piedade, mas também por causa das suas críticas intelectuais à modernidade. Nos EUA, pelo menos, o cristianismo conservador ofereceu uma visão coerente e forte – que muitas vezes se encaixava nas prioridades do Partido Republicano, ou assim muitos de nós acreditavam.”

Certamente, os anos 1990 também foram a década em que os bispos que queriam expulsar o clero pedófilo encontraram obstrução, e não encorajamento, no Vaticano do Papa João Paulo II.

Mais tarde, Dreher menciona que Richard John Neuhaus e George Weigel, respectivamente editor-chefe e principal colaborador da revista, eram muito próximos de clérigos poderosos pelo seu próprio bem e que o escândalo dos abusos sexuais clericais que eclodiu publicamente em 2002 prejudicou a sua credibilidade. Mas o verdadeiro escândalo, é claro, não era a queda da mídia, mas sim o encobrimento dos abusos sexuais, e isso ocorreu durante os anos 1990.

Dreher critica os primeiros líderes da First Things por apoiarem a Guerra do Iraque, mesmo quando seu herói, João Paulo II, se opunha a ela. Ele distingue entre eles e as figuras mais grosseiras da “direita religiosa” e, com certeza, eles tinham mais seriedade moral e intelectual do que, digamos, Jerry Falwell ou Pat Robertson, mas esse é um padrão muito baixo.

Mais importante, ele deixa de notar que a crítica deles à modernidade era sempre desequilibradamente partidária. O fracasso de Weigel em abraçar a plenitude do ensino social católico refletia uma incapacidade mais profunda de distinguir entre o envolvimento com o mundo e a cumplicidade com o mundo. Se a First Things caiu, não caiu tão mal quanto Dreher pensa, porque o ponto de partida para a queda não foi tão alto quanto ele acha.

Dois outros aspectos do comentário de Dreher são ilustrativos. Primeiro, depois de ressaltar a sua própria resposta ao mundo pós-cristão que ele discerne, a “opção Bento” – um esforço para se retirar para comunidades cristãs autofechadas, onde os fiéis podem se apegar às suas tradições –, ele observa que alguns membros da First Things propunham uma abordagem diferente: “Uma [abordagem] que chegou às páginas da First Things é o integralismo católico, a ideia de que deve haver uma relação formal mais estreita entre a Igreja Católica e o Estado, cujos princípios de governança devem estar de acordo com o ensino católico”.

Esse grupo seria assustador se suas propostas não fossem tão risíveis. Até mesmo Dreher observa que não são muitos os católicos que consideram o ensino da Igreja obrigatório para a conduta de suas vidas; portanto, a ideia de que o nosso governo civil possa seguir à risca a linha doutrinal é absurda.

No entanto, esse integralismo está por trás de algumas das defesas legais apresentadas por alguns, não todos, na brigada da liberdade religiosa, portanto vale a pena ficar de olho neles.

Mais alarmante é o papel central que o sexo desempenha no exame de Dreher sobre a cultura e o estado do pensamento católico conservador, e aqui ele está totalmente alinhado com Neuhaus, Weigel e Reno. Para a geração anterior, era a fidelidade à Humanae vitae, o documento papal sobre o controle de natalidade, que servia de marcador para o catolicismo robusto. Agora, é a resistência aos direitos LGBT.

Dreher cita um artigo de 2015 na – de todos os lugares possíveis – First Things, de autoria de Michael Hanby, que entendeu que “o triunfo da causa LGBT na lei, na política e na cultura estadunidenses é uma derrota metafísica”, diz Dreher. Ele cita Hanby:

“Essa rejeição da natureza se manifesta na distinção agora ortodoxa entre sexo, que é ‘meramente biológico’, e gênero, definido como um construto de normas sociais opressivas ou do sujeito livre e autodefinido – frequentemente encontramos protagonistas dessa revolução, oscilando entre esses extremos polares. E essa distinção entre sexo e gênero, por sua vez, tem como premissa um dualismo ainda mais básico, que bifurca o ser humano entre um corpo mecânico composto de coisas materiais sem sentido, sujeitas a leis físicas determinísticas, e a vontade livre e espontânea que preside tudo isso de modo indiferente.”

Isso é uma tolice construída em torno de um bicho-papão. Ninguém acredita que o gênero seja uma mero construto social, exceto alguns acadêmicos periféricos, ansiosos por serem publicados. O triunfo da causa dos direitos LGBT não estava enraizado em tais tolices conceituais. Ele estava enraizado na experiência de homens e mulheres gays que se cansaram de ter que esconder grande parte das suas vidas, da frustração à medida que suas carreiras eram arruinadas e sua segurança física era ameaçada, de ser chamados de pervertidos, quando ninguém experimenta ser gay como o resultado de uma escolha moral, pervertida ou não, mas sim como algo constitutivo.

Sim, alguns ativistas LGBT, como todos os ativistas, se empolgaram. Lembro-me da velha piada de Bette Midler dos anos 1980: “Por que dois gays não podem caminhar pela rua sem chamar isso de ‘parada’?”. Mas isso era uma piada. Acontece que era uma piada que alguns dos nossos amigos católicos conservadores não acharam engraçada.

A maioria dos meus amigos gays não está tão fixada em suas próprias vidas sexuais quanto Dreher, Hanby e outros da direita. A histeria “metafísica” em torno dos direitos gays sempre foi mal colocada por extremistas dos dois lados. Eu acho que é bom que as pessoas gays estejam cada vez mais livres da discriminação e de coisas piores. A minha fé católica não é ameaçada nem um pouco pelo fenômeno. Ouvir lições de pessoas que fecharam os olhos diante da violência da guerra e das injustiças perpetradas pelo capitalismo financeiro moderno é demais, quer elas tenham estado na geração de escritores fundadores da First Things ou na segunda.

Alguém deve ter se dirigido a Dreher, pois ele publicou um segundo comentário no dia seguinte, lamentando o fato de ter publicado a sua crítica naquele momento, não querendo parecer que estava repreendendo um amigo. Então, começou o sério retrocesso: “Para ser sincero, porém, a minha angústia é um elogio indireto à First Things, porque, há muito tempo, ela é inigualável entre as publicações religiosas conservadoras. Embora eu esteja chocado que seus editores a tenham levado além dos limites do fusionismo reaganista da era Neuhaus-Weigel, não quero vê-la atolada nas excentricidades trumpistas. Perder a First Things seria algo terrível.”

Sim, Trump introduziu as “excentricidades” na direita de uma forma nunca vista antes, mas o pecado cardeal da First Things, que se pensaria que o autor de “A opção beneditina” discerniria facilmente, estava lá o tempo todo: desde o começo, e apesar do seu nome, ela foi cúmplice na redução da religião à ética, daí à política e, finalmente, ao legalismo. Não é nenhuma desculpa que um fenômeno semelhante tenha ocorrido na esquerda.

O problema não é nada relacionado à questão LGBT. É que os EUA do pós-guerra – bem-sucedidos, indispensáveis, uma superpotência, a “maior nação da história do mundo” – tornaram-se, de fato, a cidade sobre a qual o Mestre advertiu os apóstolos: “Se alguém não vos receber, nem escutar vossas palavras, saí daquela casa ou daquela cidade e sacudi a poeira dos vossos pés” (Mateus 10,14).

Dreher e seus amigos da First Things estão se apegando à poeira.

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