O infectologista Paul Garner: “20% dos pacientes permanecem positivos para o vírus por 40 dias”

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21 Mai 2020

Paul Garner, professor de doenças infecciosas na Escola de Medicina Tropical de Liverpool, sete semanas após o primeiro teste continua positivo. E não é um caso isolado. Andreoni, Tor Vergata: "Com este vírus ainda não conseguimos ter respostas definitivas".

A reportagem é de Elena Dusi, publicada por La Repubblica, 20-05-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

"Os sintomas aumentam e diminuem. Mas o coronavírus não desaparece. Sete semanas após o primeiro teste, Paul Garner está exausto. Professor de doenças infecciosas na Escola de Medicina Tropical de Liverpool, ele publicou em um blog no British Medical Journal a história de sua interminável "montanha russa". Os novos sintomas continuam aparecendo, um por dia, "como se fosse um calendário do advento". E somente no Facebook o especialista descobriu que não era o único que pensava que não conseguiria mais se recuperar após mais de dois meses de positividade. São muito mais que as duas semanas indicadas como duração média da forma leve da doença, de acordo com a Organização Mundial da Saúde. “O mundo está cheio de histórias como a minha, de pessoas que não conseguem se recuperar nem depois de semanas. Com os parentes próximos a você que começam a pensar que você não vai aguentar", diz Garner.

Muitos pioneiros de uma doença que descobrimos dia a dia que têm a vida cadenciada pelos testes positivos. Prisioneiros há meses entre o banheiro e o quarto, eles se encontram nas mídias sociais. No Slack, existe o grupo #60plus-days, que ajuda pelo menos a não se sentir muito estranho e a compartilhar ansiedades e depressões. "Não temos dados sólidos, mas acho que não estou errado se disser que 20% dos pacientes permanecem positivos por 40 dias", confirma Massimo Andreoni, chefe do departamento de doenças infecciosas da policlínica da Universidade de Roma Tor Vergata. E ainda não termina aí. "Porque, se examinarmos os sintomas que persistem, percebemos que as cicatrizes do vírus podem permanecer de maneira crônica sob forma de fibrose nos pulmões, falta de força, déficits cognitivos e depressão", acrescenta Moreno Tresoldi, chefe de medicina geral do San Raffaele de Milão e coordenador do ambulatório que faz o acompanhamento dos ex-pacientes da Covid.

Muitas das histórias daqueles que demoram a se curar, além das mídias sociais, são relatadas a jornais locais ou aos relatos pessoais. Bianca Dobroiu é famosa por ter sido a paciente número um de Bolonha, modelo, 23 anos, recebeu o segundo teste negativo após 75 dias. O jogador de futebol Paulo Dybala conviveu com o vírus por um mês e meio. Depois, tem uma pessoa de 63 anos de Codogno, atendido em 18 de fevereiro devido a sintomas antes da descoberta do "paciente um", e que ainda está preso no quarto com o oxímetro na mesa de cabeceira.

Peter Piot, virologista da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, esteve entre os descobridores do Ebola, mas hoje ainda está doente de Covid depois de um mês. O site da Science o entrevistou: "No momento, mal consigo subir as escadas", ele relata. Andreoni tem um paciente positivo há 60 dias, Tresoldi um assintomático com o vírus há 70 dias. Cristina Mussini, que ensina doenças infecciosas nas universidades de Modena e Reggio Emilia, também teve um caso de família, além daqueles da enfermaria: “Minha irmã: 55 dias quase sem sintomas. Mas ela teve que ficar presa na casa e pensou que estava ficando louca." A história de Lorenzo Veronese, de Porcia (Pordenone), é contada pelo Messaggero Veneto: o homem teve alta do hospital após 67 dias. Em seu retorno para casa, foi recebido com palmas por toda a vizinhança.

Os médicos não esperavam uma doença tão obstinada. "As pneumonias virais são geralmente mais rápidas", explica Andreoni. Mas também é verdade que "o vírus tem um bom tropismo para as células do nosso corpo". Isso parece complicado, mas quer dizer uma coisa simples: "Depois de entrar, ele fica confortável e não quer sair". O mecanismo pode explicar em parte o fenômeno dos eternos testes positivos. "Não sabemos - continua o especialista em doenças infecciosas - se os traços do vírus que encontramos com o teste são apenas fragmentos que não são mais viáveis e estão apenas esperando para serem expulsos ou se são microrganismos vivos, replicantes e com capacidade infecciosa". A suspeita é que se trate da segunda hipótese. "Por esse motivo, os Centros EUA de Controle de Doenças autorizam o retorno ao trabalho e à vida normal dez dias após o término dos sintomas, independentemente do teste", explica Giuliano Rizzardini, chefe do departamento de doenças infecciosas do hospital Sacco em Milão.

Na Itália não, vence a prudência. Precisam ser dois testes negativos antes de retornar a sair de casa. “E não é um caso simples - confirma Mussini - porque pode acontecer que um teste negativo, se repetido, resulte positivo. Estamos tentando entender o porquê ". No entanto, a recidiva com sintomas graves permanece rara. “Em geral - diz Tresoldi - quem sai do hospital está se encaminhando para a recuperação. Talvez aconteça que retorne um pouco de febre e a pessoa se assuste. Mas esse não é o problema. Em vez disso, precisaremos estudar melhor os sintomas que se tornam crônicos, inclusive aqueles relacionados ao sistema nervoso central, como os distúrbios cognitivos e a depressão. Casos graves de Covid envolvem em média 20 a 25 dias de hospitalização. E a recuperação após um período tão longo não é simples. Não apenas para os idosos".

Há uma suspeita muito sutil de que os casos mais longos e extenuantes sejam aqueles com os menores sintomas. "Mas é difícil estabelecê-lo, porque longos períodos em terapia intensiva acabam se associando a toda uma série de complicações, incluindo o surgimento de novas infecções ou à dificuldade de recuperação da ventilação assistida", explica Andreoni. "É difícil, nesse momento, destrinchar os vários problemas e entender onde uma doença termina e onde outra começa". Gostaríamos de ter respostas brancas ou pretas. “Mas com esse vírus - Tresoldi balança a cabeça - parece que não é possível. No momento, tudo ainda está muito cinza." E se continuar assim, alerta Mussini, “com os bares cheios de gente, arriscamos que a segunda onda chegue em uma semana. Muito antes do outono."

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