O Papa, o sentimento religioso e o apelo pelos “últimos”

Revista ihu on-line

Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

Edição: 546

Leia mais

Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

Edição: 545

Leia mais

Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

Edição: 544

Leia mais

Mais Lidos

  • Francisco desafia Trump com primeiro cardeal afro-americano

    LER MAIS
  • Surgem provas de que o Vaticano censurou o Papa Francisco em 2019

    LER MAIS
  • Sem reformas, não somos mais Igreja. Entrevista com Martin Werlen

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


20 Mai 2020

"Disso tudo decorre a minha observação a respeito do Papa Francisco: porque me parece que qualquer discurso a favor dos "últimos" que, no entanto, coloque a obrigação aqui mencionada em segundo plano - uma obrigação que significa a necessidade da conversão e, ao mesmo tempo, uma relação pessoal com a verdade da transcendência - torna-se puramente ideológico. E, portanto, inevitavelmente tenderá a fazer da Igreja um partido: que, como é próprio de cada partido, agradará a alguns e desagradará a outros, agradará a esquerda e desagradará a direita ou vice-versa, mas não produzirá o nascimento de um sentimento religioso de nenhum tipo em ninguém, absolutamente nada que tenha a ver com Deus".

A reflexão é de Ernesto Galli Della Loggia, historiador, jornalista italiano e professor do Instituto Italiano de Ciências Humanas de Florença (SUM), em artigo publicado por Corriere della Sera, 19-05-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Sobre a relação da Igreja Católica com a política sempre pesou uma suspeita: que essa relação fosse, na prática, equivalente a uma traição do evangelho. Mais ou menos grave, mais ou menos consciente, mas ainda assim uma traição. Uma traição, portanto, da missão da própria Igreja. Embora antiquíssima, a ideia desse contraste tornou-se mais forte nos últimos dois séculos. Ou seja, desde que os católicos se dividiram em dois lados politicamente opostos: aqueles orientados em sentido genericamente conservador (que aceitaram a maneira pela qual a Igreja sempre costumou gerir seu relacionamento com a política), e aqueles de orientação progressiva (antes liberal, depois democrática e/ou socialista) que sempre criticaram à Igreja uma excessiva politização e uma escassa atenção à mensagem do Evangelho.

Com o Papa Francisco, estes últimos pensam que finalmente encontraram quem realiza seu ideal. De fato, ele certamente faria política, sim, mas colocando o Evangelho em primeiro lugar: como demonstraria sua referência constante aos "últimos", considerados os principais destinatários da mensagem do Evangelho.

Pois bem, ora acontece que Adriano Sofri e Gianni Vattimo, aprovando totalmente essa orientação, declaram sua total discordância com um dos meus artigos (Corriere, 10 de maio), no qual eu argumentei que a escolha de Bergoglio precisamente com sua insistência nos "últimos” quase nunca acompanhada por igual insistência nos aspectos religiosos, na realidade acaba sendo mais uma escolha ideológica e, consequentemente, politicamente ineficaz. Na realidade, a discussão sobre esses temas seria mais clara e, portanto, mais útil, se fossem esclarecidas anteriormente algumas premissas. No que me diz respeito, tentarei fazê-lo, é claro, da maneira bastante sumária e peremptória, inevitável aqui.

1. A Igreja, como organismo histórico desenvolvido ao longo dos séculos, não nasceu apenas para pregar o Evangelho, mas para uma empreitada muito mais árdua, ou seja, mediar entre o Evangelho e o mundo: a política consiste precisamente, neste caso, no espaço exigido por essa mediação. Se o grupo dos primeiros discípulos de Cristo não tivesse contado com personalidades extraordinárias, Paulo em primeiro lugar, capaz de realizar a escolha geopolítica fundamental de vir a Roma e - depois de três séculos de ardente proselitismo religioso marcado pela perseguição - realizar a escolha ainda mais decisiva ( e difícil) de entrar em um acordo intimamente político com o Império, a Igreja não existiria.

Quem leu alguns livros de história sabe que, desde então, esse tem sido o caminho percorrido por Roma: o Evangelho, mas sabendo que se chegaria à política mais cedo ou mais tarde, e política para ganhar espaço para a Igreja e o Evangelho. Quando, por exemplo, no Natal dos 800 d.C. Carlos Magno foi coroado pelo papa Sacro Imperador Romano, presumo que ninguém pediu a ele explicações pelo massacre feito de 20.000 saxões para convertê-los ao cristianismo. A Santa Sé simplesmente compreendeu a vantagem que tinha e estava convencida de que o mundo e sua história não são exatamente um idílio. Que, caso se queira estar dentro de um e da outra, nem sempre é possível fazê-lo obedecendo aos dez mandamentos. Com muito mais frequência, é necessário buscar um compromisso entre eles e o princípio da realidade, entre as razões de Deus e as razões dos homens, isto é, do poder (como, aliás, sabe muito bem a própria Igreja de Francisco, quando para chegar àquele acordo com o poder comunista chinês tão importante para ela, fecha tranquilamente os olhos sobre suas inúmeras transgressões).

É desse reconhecimento realista que surgiu a obra do mais alto equilíbrio intelectual que resume os dois mil anos de experiência da Igreja Católica. Cuja moralidade me parece consistir nisso: até os limites mais amplos do possível, nunca afastar de si aqueles que pretendiam representar um ponto de vista diferente, aqueles que ao princípio da realidade opunham justamente o Evangelho. Evangelho que, ao longo da história da Igreja, nunca deixou de representar o formidável princípio da contradição, impossível de eliminar e nunca eliminado. Também porque, em última análise era a ela, à sua mensagem de salvação, que a Igreja sabia muito bem que devia sua massa de seguidores e, portanto, sua própria força política.

2. Quanto ao Evangelho, se posso me atrever a dizer algo, parece-me que ele contenha não apenas uma predileção pelo pecador, como Sofri escreve, mas em igual medida o anátema pela hipocrisia, pela crueldade hipócrita daqueles que se apressam a condenar o pecador, tendo prazer em sua própria falsa observância da lei, falsa porque, na realidade, eles também são pecadores. Por outro lado, é verdade que o cristianismo significou uma extraordinária reavaliação histórica, se assim posso dizer, da figura dos pobres, dos "últimos". Fez isso, no entanto, não porque seu texto inspirador, o Evangelho, fosse um texto de resgate social ou porque seu fundador, Jesus, estava interessado em tal resgate, mas simplesmente porque o cristianismo colocou a obrigação do amor e da piedade como obrigação dos crentes para com Deus, como a essência de sua mensagem religiosa.

Disso tudo decorre a minha observação a respeito do Papa Francisco: porque me parece que qualquer discurso a favor dos "últimos" que, no entanto, coloque a obrigação aqui mencionada em segundo plano - uma obrigação que significa a necessidade da conversão e, ao mesmo tempo, uma relação pessoal com a verdade da transcendência - torna-se puramente ideológico. E, portanto, inevitavelmente tenderá a fazer da Igreja um partido: que, como é próprio de cada partido, agradará a alguns e desagradará a outros, agradará a esquerda e desagradará a direita ou vice-versa, mas não produzirá o nascimento de um sentimento religioso de nenhum tipo em ninguém, absolutamente nada que tenha a ver com Deus. E, portanto, nem servirá para fazer a própria Igreja alcançar algum objetivo político. Certamente aumentará a popularidade do Papa junto à opinião que importa, e certamente permitirá que Vattimo, como ele mesmo nos disse, se sinta menos acabrunhado de se dizer cristão, mas dificilmente produzirá algo a mais.

 

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

O Papa, o sentimento religioso e o apelo pelos “últimos” - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV