Igreja precisa mostrar que proteger o ambiente é lucrativo. Entrevista com Bertrand Piccard

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16 Mai 2020

“Pioneiro da sustentabilidade” diz que há uma forma de ajudar até mesmo os céticos climáticos a abraçarem a Laudato si’.

A reportagem é de Nicolas Senèze, publicada por La Croix International, 15-05-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Bertrand Piccard se autodenomina “pioneiro da sustentabilidade”, e seu objetivo é ajudar a preencher a lacuna entre economia e ecologia.

O suíço de 59 anos, psiquiatra de formação e explorador da aviação por paixão, acredita que o mundo não chegará a lugar algum se tentarmos proteger o ambiente ameaçando o conforto humano, a mobilidade e o desenvolvimento econômico.

Ele diz que isso se deve ao fato de as pessoas não mudarem facilmente os seus hábitos. Portanto, quando os ambientalistas propõem soluções, eles devem levar em consideração a relutância das pessoas em fazer sacrifícios.

Piccard acredita na criação de uma economia “verde”. Ele e seu compatriota André Borschberg demonstraram que isso é possível, quando eles fizeram história em 2016, pilotando aviões movidos a energia solar, sem combustível, em todo o mundo.

Pouco tempo depois, ele estabeleceu a Fundação Solar Impulse, com base na sua convicção de que as mudanças climáticas só podem ser combatidas através das lentes da lucratividade e do apoio popular.

Piccard esteve recentemente em Roma, onde se encontrou com o Papa Francisco.

Ele conversou sobre o seu encontro com Francisco e seus pontos de vista sobre a Laudato si’, a encíclica de 2015 do papa “sobre o cuidado da casa comum”.

Eis a entrevista.

Por que você quis se encontrar com o Papa Francisco?

Eu nunca tinha me encontrado com um papa antes. Com a sua encíclica Laudato si’, Francisco é o primeiro a ter a coragem de enfrentar a questão da desigualdade, da pobreza, dos excluídos e do ambiente de peito aberto, querendo aproximar as pessoas, em vez de dividi-las. Isso é algo que eu admiro muito, e eu queria propor a ele que trabalhasse juntos em soluções concretas.

Como você se vê em relação à Laudato si’, que, de certa forma, previa aquilo que estamos passando com a crise do coronavírus?

Na Laudato si’, o papa enfatiza os ataques à humanidade e ao planeta a fim de enriquecer. Com a Covid-19, vimos as graves consequências dessa atitude: o consumo de certos animais dos mercados populares chineses degenerou; e as deslocalizações para ganhar um pouco de dinheiro com os salários necessários para a produção criaram interrupções no fornecimento. A encíclica fala da necessidade urgente de se ter uma atitude mais responsável em relação ao mundo, mas isso não é necessariamente entendido por quem não tem uma consciência elevada. Devemos ser capazes de ir ao encontro daqueles que enriquecem nas costas dos outros e do ambiente.

O que você quer dizer com isso?

Não basta dizer que devemos respeitar o mundo que Deus nos confiou. Junto com o nível espiritual, precisamos de outro nível mais pragmático, no qual mostremos que proteger o ambiente pode criar empregos e gerar dinheiro. Se nem todos adotarem a lógica da mudança, continuaremos tendo uma sociedade se movendo em duas velocidades.

O que mais a Igreja pode fazer?

Ela pode explicar que existem soluções economicamente rentáveis que podem resolver muitos problemas de desigualdade ambientais. Ela precisa convencer as pessoas de que, mesmo sem as mudanças climáticas, seria economicamente lógico implementar tais soluções. Os céticos climáticos não precisam de ideias, mas sim de projetos concretos que possam ser rentáveis. A Igreja pode ser um canal muito poderoso para demonstrar que tais soluções existem.

Desenvolvimento econômico e respeito pelo ambiente, portanto, são compatíveis?

Hoje, encontramo-nos em uma lógica do crescimento quantitativo, em que consumimos, desperdiçamos e jogamos fora, causando um declínio real que trará muita pobreza. O crescimento qualitativo, pelo contrário, é o crescimento que cria empregos. É onde as empresas lucram substituindo aquilo que polui o ambiente por aquilo que o protege. Eu acredito que essa é uma linguagem que pode tocar tanto aqueles que abraçaram a Laudato si’, quanto aqueles que resistem aos argumentos espirituais.

Como os políticos reagem a esse raciocínio?

Isso varia muito. Quando eu ouço o primeiro-ministro de Bangladesh acusando os países ricos de terem criado o aquecimento global e depois reclamando que eles o impedem de construir uma usina a carvão, é um absurdo! Em segundo lugar, eu sinto, por exemplo na nova Comissão Europeia, um novo impulso que é muito encorajador. Com o Green Deal, eles têm um mapa de verdade. A minha fundação também trabalha com as regiões francesas e europeias. Estamos apenas no começo, embora alguns ministros regionais digam que já estamos fazendo muito.

Não existe o risco de que a crise do coronavírus torne esse Green Deal uma letra morta?

Não é verdade que o Green Deal é um luxo que não podemos nos permitir: ele é, acima de tudo, uma estratégia de crescimento favorável ao ambiente. Inundações, secas, incêndios, aumento dos níveis de água e desertificação vão continuar, e, junto com o recuo da natureza e o derretimento do permafrost, teremos que enfrentar outros vírus desconhecidos. A parada repentina da produção e dos transporte de massa, embora prejudique a nossa economia, nos deu uma ideia de como seria se eletrificássemos os nossos meios de transporte e reduzíssemos os combustíveis.

 

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