Igreja da Itália volta à ativa, mas não ao normal

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13 Mai 2020

Como se não bastasse a Itália ter passado por um imenso confinamento nacional imposto no dia 8 de março, com mais de 30.000 italianos mortos pelo coronavírus, os romanos foram acordados por volta das 5h da manhã desse domingo por um terremoto. Um forte barulho mandou as pessoas para as ruas em seus pijamas, debaixo de uma chuva matinal, esquecendo-se temporariamente das suas máscaras e luvas.

O comentário é de John L. Allen Jr., publicado em Crux, 12-05-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Felizmente, o tremor de magnitude 3,3 centrado no extremo norte da cidade não provocou nenhum dano real, mas o rude despertar foi outro lembrete de que estes são tempos estranhos.

Para muitos, um indicador de que as coisas estão melhorando gradualmente é o fato de que, a partir da próxima segunda-feira, 18 de maio, os católicos italianos poderão mais uma vez ir à missa. Após um acordo no dia 7 de maio entre a Conferência Episcopal Italiana (CEI) e o governo, as missas públicas serão permitidas, embora com uma série de condições.

(O protocolo contém nada menos do que 26 estipulações, juntamente com três “sugestões”.)

Embora permaneça incerto quando as liturgias públicas poderão recomeçar no Vaticano, a Igreja na Itália, mesmo assim, está voltando à vida ativa – mas é provável que esteja longe de ser uma vida normal.

Algumas indicações do que se pode esperar podem ser obtidas nas igrejas que estão experimentando serviços de Comunhão e de confissões, outras com instruções oferecidas pelos bispos, e outras ainda com anúncios e discussões online.

Enquanto isso, quatro vislumbres do “novo normal”.

1. Algumas igrejas não reabrirão

Antes da pandemia, havia um total de 25.689 paróquias na Itália, a maior quantidade do mundo, e sem dúvida o país está muito atrasado para uma rodada de fechamentos e fusões. No entanto, fechar uma paróquia não é nada divertido, uma vez que isso inevitavelmente gera ressentimentos e protestos de pessoas com laços sentimentais com o lugar.

Algumas igrejas podem usar a crise do coronavírus para tornar permanentes os fechamentos temporários.

É o caso de Cuneo, na região norte do Piemonte, na Itália, onde um pároco salesiano usou a sua missa dominical transmitida ao vivo para anunciar que uma capela ligada ao oratório paroquial de São João Bosco não reabrirá.

A capela foi construída em 1973 em uma antiga oficina de máquinas, destinada a ser uma solução temporária para a superlotação no oratório. Enquanto isso, uma nova igreja paroquial mais espaçosa foi construída, mas um pequeno grupo continuou aparecendo na capela.

“As novas normas que temos que seguir não nos permitem pensar em reabrir a capela, onde seria difícil respeitar as condições do acordo entre o governo e a CEI”, afirmou o padre salesiano Mauro Mergola.

De qualquer forma, sugeriu Mergola, a capela havia perdido a sua utilidade.

“A participação era escassa, incluindo alguns poucos idosos daquela parte da paróquia, mas a maioria vinha de fora, apenas porque os horários da missa eram convenientes”, disse Mergola. “Não sei quanto tempo nós, salesianos, poderíamos continuar.”

Indicações iniciais apontam que decisões semelhantes poderão ser tomadas por todo o país, especialmente em pequenas capelas e oratórios.

2. Uma igreja da acolhida, mas também com semáforos

Sob circunstâncias pré-pandêmicas, um típico pároco olhando para uma igreja lotada, com pessoas de pé, apenas para a missa dominical, provavelmente ficaria encantado. Agora, a mesma cena pode causar pânico.

Em vez de uma postura “venham todos”, é provável que os padres descubram que limitar o número de pessoas que entram na igreja passou a fazer parte da descrição do seu trabalho.

Tentando se antecipar, várias paróquias italianas já anunciaram planos de emitir ingressos, que seriam obrigatórios para entrar. Esse é o plano, por exemplo, na Basílica de São Filipe e São Tiago, em Belluno, capital de uma província autônoma na região norte do Vêneto.

Várias paróquias já têm emitido ingressos para funerais, que foram autorizados a recomeçar no dia 4 de maio, com a participação limitada a 15 pessoas. Na Igreja de San Martino ai Monti, em Roma, perto do Coliseu, o Pe. Lucio Maria Zappatore disse que está imprimindo os ingressos no computador e entregando-os às famílias para decidirem quem deve vir.

Antecipando possíveis dores de cabeça, o Pe. Donato Agostinelli, da Paróquia de Santa Croce sul'Arno, na Toscana, sugeriu que a Igreja italiana lançasse um aplicativo para que as pessoas reservassem um lugar na igreja online, como uma versão eclesiástica de “StubHub”. Ele apelou para que os desenvolvedores de software ajudassem.

Essa não é a única sugestão de Agostinelli – ele também gostaria de ver um sistema de entrada automatizado.

“A ideia seria criar uma espécie de semáforo para colocar do lado de fora das igrejas”, disse ele. “Estou pensando em uma pequena máquina que emitiria bilhetes para os lugares restantes. Um sinal verde indicaria que há lugares disponíveis, e um sinal vermelho significaria que não há mais lugares, e você precisa ir para outra igreja.”

O acordo para permitir as missas públicas sobrecarrega o pastor local, que precisa decidir o número de pessoas que podem ser admitidas a fim de manter uma distância de pelo menos um metro e meio. Embora acrescentar mais horários de missa pareça uma solução, existe um limite máximo, em parte por causa do número de padres disponíveis e em parte por causa do intervalo necessário para limpar uma igreja depois de uma missa e antes de outra. Uma diocese italiana decretou um intervalo mínimo de duas horas entre as missas, a fim de higienizar completamente as igrejas.

Muitas paróquias já instalaram placas nos bancos indicando onde as pessoas serão permitidas.

Em Positano, no sul da Itália, por exemplo, a pequena Igreja de Santa Maria del Rosario colocou placas em suas 16 fileiras de bancos, em ambos os lados da nave, o que permitiria duas pessoas em cada banco, em vez das sete ou oito habituais. Uma missa dominical que normalmente poderia acomodar cerca de 100 pessoas, portanto, agora permitirá apenas 32.

Para muitos párocos, a ideia de um “semáforo” na missa, literal ou metafórico, pode contrariar seus instintos, mas é um sinal dos tempos inevitável.

3. Missas al fresco

Em provavelmente nove meses no ano, a maioria dos italianos, se pudessem, prefeririam jantar ao ar livre do que dentro dos limites das suas casas ou de um restaurante.

Agora, parece que muitos italianos também poderão celebrar a fé ao ar livre.

Os bispos da Toscana, por exemplo, emitiram uma carta às paróquias no dia 9 de maio, autorizando celebrações ao ar livre, especialmente onde o espaço dentro de uma igreja seja relativamente pequeno.

“Para as liturgias dominicais, pode-se considerar a possibilidade, se necessário, de utilizar outros espaços paroquiais maiores, ou de escolher, de acordo com as autoridades civis locais, espaços também externos, para realizar essas celebrações de maneira digna.”

Dom Piero Delbosco, bispo de Cuneo, no Piemonte, tem a mesma opinião.

“Precisamos pensar em aumentar o número das celebrações onde seja possível fazer do lado de fora, mesmo que seja um pouco arriscado”, disse Delbosco. “Existem muitas igrejas que têm um pátio grande, onde é possível celebrar ao ar livre, e esse é certamente o lugar ideal onde as pessoas podem manter distância.”

Nesse sentido, é uma sorte que o retorno às missas públicas esteja ocorrendo no verão, porque isso significa que as igrejas italianas terão vários meses para usar os espaços ao ar livre antes que o tempo comece a tornar essa solução impraticável.

4. Repensar a Comunhão e a confissão

A Basílica de Santa Maria in Trastevere, em Roma, confiada à Comunidade de Santo Egídio, retomou a oferta de serviços de Comunhão e confissões, e as precauções que eles adotaram dão uma ideia daquela que em breve será uma prática comum.

Embora isso possa não significar muito para os católicos estadunidenses, há muito tempo acostumados a formar filas ordenadas e bem coreografadas no momento da Comunhão, na Itália é uma revolução cultural ver pessoas respeitando as filas, ao invés de avançarem e se aglomerarem ao redor do padre. Alguns permaneceram em seus lugares aguardando a sua vez no domingo passado, enquanto outros se ajoelharam em seus lugares.

O padre que distribuía a Comunhão usava uma máscara cobrindo a boca e o nariz, além de luvas de látex, enquanto as pessoas eram instruídas a receber a hóstia com as mãos e depois voltar ao seu lugar, em vez de, como é o costume italiano, permanecer perto do altar por um tempo, talvez acendendo uma vela votiva para Maria ou a um santo favorito.

Enquanto isso, um segundo padre permanecia nos fundos da igreja para as pessoas que queriam se confessar. Elas não entravam no confessionário, mas permaneciam de pé em um canto privado, mantendo distância e com ambas as partes usando máscaras. Caso contrário, o trabalho do padre era dispensar as pessoas, de forma rápida e individual, para evitar a formação daquilo que os italianos chamam de assembramento, ou “aglomeração”.

A Santa Maria in Trastevere é uma igreja ampla, com muito espaço interno, que, antes da pandemia, podia acomodar facilmente multidões de várias centenas de pessoas. Igrejas menores que não têm tantos cantos e recantos privados podem ter que ser mais criativas sobre onde realizar as confissões, talvez organizando-as ao ar livre também, quando as condições permitirem.

Incertezas vaticanas

Enquanto isso, a situação permanece incerta no Vaticano.

Tem sido noticiado que a sua igreja paroquial de Sant’Anna, que atende principalmente a seus próprios empregados e suas famílias, retomará a missa pública no dia 18 de maio, seguindo as disposições italianas, mas isso ainda não foi oficialmente confirmado.

A situação referente ao acesso do público às liturgias papais, seja na Basílica de São Pedro, seja na praça do lado de fora, continua sendo estudada, em parte por causa da complexidade de determinar com precisão quantas pessoas podem ser admitidas e em parte por causa das dores de cabeça ainda maiores para manter as distâncias necessárias, evitando o cenário habitual das pessoas aglomeradas em locais onde elas acham que podem ter uma melhor visão do papa.

Até este momento, nenhum anúncio foi feito sobre quando ou como os eventos públicos do papa, incluindo não apenas as liturgias, mas também a Audiência Geral das quartas-feiras e o discurso do Ângelus dos domingos, poderão ser retomados.

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