Agamben, uma resposta. Artigo de Daniel Bogner

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12 Mai 2020

"'Toda vida importa', esse deveria ser o valor profundo daquele ethos cristão que os 'bárbaros' na Itália e em outros lugares seguem – diante dos quais Agamben se posiciona de maneira tão dura e glacial", escreve Daniel Bogner, professor de teologia moral e ética na Universidade de Friburgo, na Suíça, em artigo publicado por Settimana News, 09-05-2020. A tradução é de Luisa Rabolini. Uma versão alemã desta intervenção foi publicada por NZZ. O teólogo debate o artigo de Giorgio Agamben, "Uma pergunta".

Eis o artigo.

Claro que Agamben com seu discurso está pensando na Itália, mas o horizonte de seu j'accuse vai muito além dela: na verdade, atinge todos os estados que se entendem como Estado de direito liberal e democrático.

Mas ele está realmente certo? O grande gesto que ele realiza cai porque se refere a conceituações e suposições equivocadas. Em nome de um "risco que não era possível especificar", diz Agamben, foram limitados os direitos de nossas liberdades - e inclusive muitos "políticos abertos" concordaram com esses tons.

Para dizer a verdade, estamos enfrentando uma situação em que podemos prever relativamente bem o que aconteceria se não houvesse uma intervenção política. "Agir em uma condição de incerteza", em uma situação de pandemia, não é ignorância do princípio da forma de pensar filosófico-moral, mas apenas a procrastinação temporal com a qual as consequências de uma forma de ação posta em ato ou não, se tornam atualmente presentes.

É claro que é dramático não poder enterrar nossos mortos adequadamente; como é igualmente dramático ter que desistir de atos fundamentais de nossa liberdade. E ninguém pode dizer até que ponto será possível recuperar essas liberdades. No entanto, o estado de direito também funciona onde os direitos que foram limitados nos são devolvidos por meio de procedimentos jurídicos. Mas nós realmente temos que renunciar deliberadamente àquele saber epidemiológico que pode nos proteger de um mal maior?

Segundo Agamben, seríamos governados por epidemiologistas - mas ele vai além: política e administração advogaram para si uma autoridade que o Führer já havia reivindicado para si mesmo. Em primeiro lugar, pode-se argumentar que os virologistas não nos governam, mas nos aconselham. E é bom quando o saber é disponibilizado de forma transparente e compreensível - incluindo aqueles que são os processos de geração de saber e os limites do que se pode saber.

Enquanto isso, políticos (e filósofos) se retorcem com uma dor de estômago imaginária que seria devida ao fato de os cientistas parecerem mudar de opinião a cada dois dias. Mas, no caso de uma pandemia, a margem para uma distorção interpretativa dos elementos básicos da avaliação feita pela política, embora essa seja de bom grado retorcida toda vez que se lida com questões de mérito, é decididamente limitada.

Atualmente, os padrões éticos estão sendo aparados como jamais se poderia imaginar no passado. Contra essa tendência, devemos lembrar coletivamente, neste momento, que, na tradição europeia, permanecemos fiéis à herança cristã se considerarmos a vida como algo sagrado que tentamos proteger de todas as maneiras - de uma maneira contra intuitiva, como o distanciamento social, ou com aquelas maquinarias médicas que Agamben tanto abomina.

É claro que tudo isso tem seu preço: a economia sofre com isso e a cura de uma pessoa comporta um ônus para os outros. Mas a questão decisiva é se o status quo ante deva necessariamente ser a medida de tudo. Por que motivo não investimos mais para tornar suportável o bloqueio para aquelas pessoas que mais sofrem com isso - como as crianças que vivem em condições de dificuldades sociais, as pequenas empresas, pessoas que estão sozinhas para criar seus filhos - e começamos assim um mínimo de bem-estar coletivo em nossas sociedades? Não valeria talvez a pena fazer esse investimento para manter vivos os membros de nossa sociedade humana, mesmo que viessem logo a morrer por outros motivos?

Existe uma representação fictícia da avaliação dos bens que é perigosa. Certamente, a proteção da vida não vale de maneira absoluta porque, em algumas condições históricas e temporais, tal coisa não é possível. Caso contrário, deveríamos suspender a própria sociedade, pois nela circulam muitas convenções que reduzem as partes da vida.

Mas aqui não se trata de uma grande e abstrata questão, mas da pergunta muito mais concreta: fazemos tudo o que podemos, com todo o saber necessário disponível, para proteger o nosso próximo, os idosos e os vulneráveis, exatamente por que podemos fazê-lo?

Agamben amaldiçoa a "abstração" da medicina moderna de terapia intensiva porque trata o corpo humano como uma "vida vegetativa". Sem querer, isso traz à memória A Peste de Camus com seu principal protagonista: o médico Bernard Rieux. A peste, assim fala Rieux, é a "grande abstração", o tempo de privações e renúncias sobre-humanas. Mas Rieux, no final, chega a uma visão humanista, a uma solidariedade mais profunda entre os seres humanos. Ao contrário, Agamben cai na armadilha de sua abstração conceitual.

Sua arenga visa uma liberdade à qual não se pode sacrificar nenhuma das liberdades. Onde ele acusa a ponderação quanto aos direitos das liberdades como sendo um ato bárbaro, ele não apenas desconsidera a dramaticidade da situação, mas também oculta o fato de que a humanidade, em contextos de mudança, é algo que deve sempre ser de novo alcançado.

"Toda vida importa", esse deveria ser o valor profundo daquele ethos cristão que os "bárbaros" na Itália e em outros lugares seguem – diante dos quais Agamben se posiciona de maneira tão dura e glacial.

 

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