Sobre a “Carta aos Movimentos Populares” - Parte 2

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08 Mai 2020

"O papa convida os participantes dos Movimentos e Organizações Populares 'a pensar no ‘depois’, porque esta tempestade vai acabar e suas sérias consequências já estão sendo sentidas. Vocês não são uns improvisados, têm a cultura, a metodologia, mas principalmente a sabedoria que é amassada com o fermento de sentir a dor do outro como sua'", escreve Marcos Sassatelli, frade dominicano, doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP) e professor aposentado de Filosofia da UFG.

A primeira parte do artigo pode ser lida aqui.

Eis o artigo.

“Essa atitude de vocês
me ajuda, questiona e ensina muito”
(Francisco)

O segundo ponto, que destaco na Carta-Mensagem de Francisco, é: “Essa atitude de vocês (de não ficar só na denúncia, mas de arregaçar as mangas e continuar trabalhando para suas famílias, seus bairros e para o bem comum) me ajuda, questiona e ensina muito”. Quanta humildade e sinceridade nas palavras do papa!

Se hoje os cristãos e cristãs (inclusive padres e bispos) não estão - em sua maioria - do lado dos Movimentos e Organizações Populares e não participam de suas lutas (por não ser - dizem - papel da Igreja fazer isso), como poderiam dizer: “Essa atitude de vocês nos ajuda, questiona e ensina muito”? Além do mais, lhes faltaria a humildade necessária para tanto!

O papa, que conhece muito bem a realidade dos Movimentos e Organizações Populares, continua dizendo: “Penso nas pessoas, especialmente mulheres, que multiplicam o pão nos refeitórios comunitários, cozinhando com duas cebolas e um pacote de arroz um delicioso guisado para centenas de crianças, penso nos doentes, penso nos idosos. Elas nunca aparecem na mídia convencional. Tampouco os camponeses e os agricultores familiares, que continuam a trabalhar para produzir alimentos saudáveis, sem destruir a natureza, sem monopolizá-los ou especular com a necessidade do povo. Quero que saibam que nosso Pai Celestial olha para vocês, vos valoriza, reconhece e fortalece em sua escolha”.

E ainda: “Quão difícil é ficar em casa para quem mora em uma pequena casa precária ou para quem de fato não tem teto. Quão difícil é para os migrantes, as pessoas privadas de liberdade ou para aqueles que realizam um processo de cura para dependências. Vocês estão lá, colocando seu corpo ao lado deles (reparem: “ao lado deles”!), para tornar as coisas menos difíceis, menos dolorosas”.

Por isso, Francisco declara: “Congratulo a vocês e agradeço do fundo do meu coração. Espero que os governos entendam que os paradigmas tecnocráticos (sejam centrados no estado, sejam centrados no mercado) não são suficientes para enfrentar esta crise e nem os outros problemas importantes da humanidade. Agora, mais do que nunca, são as pessoas, as comunidades, os povos que devem estar no centro, unidos para curar, cuidar, compartilhar”.

E reconhece: “Eu sei que vocês foram excluídos dos benefícios da globalização. Não desfrutam daqueles prazeres superficiais que anestesiam tantas consciências. Apesar disso, vocês sempre sofrem os danos dessa globalização. Os males que afligem a todos, a vocês atingem duplamente. Muitos de vocês vivem o dia a dia sem nenhum tipo de garantias legais que os protejam. Os vendedores ambulantes, os recicladores, os feirantes, os pequenos agricultores, os pedreiros, as costureiras, os que realizam diferentes tarefas de cuidado”.

Diz também: “Vocês, trabalhadores informais, independentes ou da economia popular, não têm um salário estável para resistir a esse momento... e as quarentenas são insuportáveis para vocês. Talvez seja a hora de pensar em um salário universal (reparem novamente: “um salário universal”!), que reconheça e dignifique as tarefas nobres e insubstituíveis que vocês realizam; um salário capaz de garantir e tornar realidade esse slogan tão humano e cristão: nenhum trabalhador sem direitos”.

O papa convida, pois, os participantes dos Movimentos e Organizações Populares “a pensar no ‘depois’, porque esta tempestade vai acabar e suas sérias consequências já estão sendo sentidas. Vocês não são uns improvisados, têm a cultura, a metodologia, mas principalmente a sabedoria que é amassada com o fermento de sentir a dor do outro como sua (reparem mais uma vez: “sentir a dor do outro como sua”!)”.

E faz um apelo: “Quero que pensemos no projeto de desenvolvimento humano integral que ansiamos, focado no protagonismo dos Povos em toda a sua diversidade e no acesso universal aos três T que vocês defendem: terra e comida, teto e trabalho”.

Com convicção e confiança, afirma: “Espero que esse momento de perigo nos tire do piloto automático, sacuda nossas consciências adormecidas e permita uma conversão humanística e ecológica que termine com a idolatria do dinheiro e coloque a dignidade e a vida no centro. Nossa civilização, tão competitiva e individualista, com suas taxas frenéticas de produção e consumo, seus luxos excessivos e lucros desmedidos para poucos, precisa mudar, se repensar, se regenerar”.

E conclui: “Vocês são construtores indispensáveis dessa mudança urgente; além disso, vocês possuem uma voz autorizada para testemunhar que isso é possível. Vocês conhecem crises e privações ... que com modéstia, dignidade, comprometimento, esforço e solidariedade, conseguem transformar em uma promessa de vida para suas famílias e comunidades”.

Com a ternura e o carinho de irmão, termina pedindo: “Mantenham sua luta e cuidem-se como irmãos. Oro por vocês, oro com vocês e quero pedir ao nosso Deus Pai que os abençoe, encha vocês com o seu amor e os defenda ao longo do caminho, dando-lhes a força que nos mantém vivos e não desaponta: a esperança. Por favor, orem por mim que eu também preciso”.

Que testemunho bonito nos dá o nosso irmão Francisco! Peçamos ao Espírito Santo - o Amor de Deus - que nos conceda a graça de seguir o seu exemplo! O mundo espera isso de nós, seguidores e seguidoras de Jesus de Nazaré!

 

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