No meio da selva peruana, a Igreja é um balão de oxigênio diante da COVID-19

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05 Mai 2020

Iquitos, capital do estado de Loreto, na Amazônia peruana, é uma das cidades da América Latina onde o coronavírus atacou com mais força, sobrecarregando um sistema de saúde já precário, afetado desde o final de 2019 por um forte surto de dengue.

Desde o início da situação, a Igreja Católica, através do Vicariato Apostólico de Iquitos, não hesitou em apoiar. No início de abril, o Vicariato disponibilizou às autoridades de saúde um grande centro de encontros com capacidade para cem pessoas, algo que nas semanas seguintes foi repetido com outras duas casas, sempre pensando no povo, tão vulnerável em uma cidade onde muitos vivem no limite.

A reportagem é de Luis Miguel Modino.

À frente desta grande obra, está Miguel Fuertes, desde novembro de 2019 administrador apostólico do Vicariato. Na época em que o primeiro centro foi cedido, ele declarou que “se a Igreja não fizesse essas coisas, não seria a Igreja de Jesus Cristo. O trabalho da Igreja é para que exista vida em todos os sentidos, no físico e no espiritual. Se a Igreja não é solidária, não é a Igreja. Isso é algo natural para a Igreja, estar ao serviço”.

Com o passar das semanas, a situação piorou e uma das coisas que se tornou uma necessidade extrema são os balões de oxigênio. Uma recarga, que há alguns meses custava 80 soles, pouco mais de 130 reais, na manhã do último domingo era de 2.800 soles, e na segunda-feira era praticamente impossível obtê-la. Essa era uma situação em que Miguel Fuertes pensava há alguns dias, pois desde o início de abril ele já havia deixado claro que "tudo o que possamos apoiar, faremos, somos claros sobre isso".

A falta de oxigênio para um paciente com pneumonia complica muito a situação e aumenta muito a possibilidade de morrer. Nessa situação, como relatou o próprio administrador apostólico, eles pensaram em comprar uma usina de oxigênio, algo que parecia uma utopia, já que o preço é de quatrocentos mil soles, uma quantidade inatingível para o Vicariato de Iquitos. Nos últimos dias, eles o propuseram ao governo regional, que em princípio disse que sim, mas que, no momento da verdade, não concretizava nada.

Amazônia Peruana (Mapa: Sínodo Amazônico)

Neste domingo, em que a Igreja celebrou o Domingo do Bom Pastor, aquele que cuida de suas ovelhas, o padre Miguel diz que “conversando com outro padre, pensamos que algo precisava ser feito, vamos fazer uma campanha e vamos ver quanto a gente consegue". A campanha foi lançada às 10 horas, horário do Peru, e nesta segunda-feira eles já haviam levantado um milhão e trezentos mil soles, mais de dois milhões de reais.

Dada essa generosidade transbordante, decidiu-se comprar duas usinas de oxigênio, com capacidade para produzir 60 balões por dia, o que satisfaz apenas apenas 12% da necessidade total, segundo cálculos do reitor dos médicos de Iquitos, que estima que seriam necessários 500 balões de oxigênio por dia. Também é verdade que o gesto da Igreja parece ter aberto os olhos do governo, que diz que trará outras usinas de oxigênio para a cidade, embora no momento não passe de boas promessas.

Questionado sobre o motivo dessa iniciativa, Miguel Fuertes afirma que surgiu da necessidade do povo, que constantemente vem às diferentes paróquias para solicitar oxigênio para seus parentes, também medicamentos, outra das grandes deficiências da cidade. Segundo o agostiniano, "o desespero do povo e a morte devido à falta de oxigênio são grandes". Por esse motivo, ele não hesita em dizer que "esse foi o motivo, não tínhamos dinheiro e dissemos: vamos procurar, para ver se alguém nos ajudam". De fato, nos últimos dias, como afirma o administrador apostólico, "havia alguns grupos de pessoas que se propuseram a realizar uma campanha de 5 soles cada e que a Igreja administraria", acrescentando que "aqui as pessoas confiam em nós, na Igreja ”.

O impacto da iniciativa foi rápido, chegando aos ouvidos do próprio governo. Na mesma segunda-feira, "um vice-ministro me chamou para ver e unir forças e me oferecer toda a ajuda para trazê-lo de Lima, precisamos trazê-lo de avião", disse Miguel Fuertes, que ao mesmo tempo afirmou que "várias pessoas ofereceram transporte”. Foi uma colaboração que veio de muitos países, "muitas pessoas de Loreto, do Peru, que estão fora do país, estão ajudando e colaborando", afirma o religioso.

Mas essa solidariedade também foi dada em Iquitos, mesmo entre os mais pobres, "muitas pessoas estão colaborando, há pessoas que trouxeram 5 soles", diz o administrador apostólico, que mostra o alto grau de compromisso que a iniciativa despertou entre a população local. Podemos até dizer que o Evangelho ganhou vida, tornando real a passagem da oferta da viúva. Uma senhora, de acordo com o agostiniano, disse: "hoje não vou comer, mas dou 20 soles", acrescentando que "a resposta do povo foi uma reação incrível".

Essa situação está sendo vista como um sinal de esperança para tantas pessoas, cada vez mais assustadas. Como aconteceu em muitos outros lugares do planeta, em Iquitos, como Miguel Fuertes relata, não foi diferente. “No começo, isso era visto como algo distante, eles disseram que não resistia ao calor, era apenas para quem viaja para o exterior, mas agora, quando vêem que um membro da família ou vizinho morre, falta oxigênio e você não consegue encontrá-lo, isso atingiu as pessoas". Nessa situação, o religioso afirma que "o povo estava esperando alguma iniciativa, então isso é um raio de esperança".

Impressionado com a situação, Miguel Fuertes destaca a colaboração com as demais instituições, a resposta do povo de Iquitos e de todo o Peru. Segundo ele, "isso teve uma incrível repercussão nacional, eu não esperava isso, não pensei nisso, nem imaginei, foi um boom nacional que nenhum de nós esperava", tornando-se notícia em vários canais nacionais. Dentro da Igreja peruana, o próprio núncio entrou em contato com o presidente da conferência episcopal.

A maior alegria para o administrador apostólico é que tudo isso está movendo as consciências, provocando ações mais concretas para que o sofrimento diminua um pouco. Encorajados pelo exemplo de Iquitos, na cidade de Pucallpa, no mesmo domingo, entraram em contato com o padre Miguel, interessando-se em como o haviam feito e promover algo semelhante. Isso fez com que, nesta segunda-feira, o bispo local, o salesiano Martín Quijano, juntamente com cerca de 30 cidadãos preocupados com a situação, que ameaça se tornar um novo Iquitos, tenham lançado uma campanha que deve ser canalizada pelo Vicariato local, mostrando mais uma vez uma Igreja a serviço do povo, ainda mais em um momento tão dramático.

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