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30 Abril 2020

“Já existem casos em Boca do Acre e estamos com muito medo. Estamos em quarentena, ninguém entra, mas não podemos ir a Boca do Acre para comprar comida devido ao perigo de contágio”, explicou-me o cacique da aldeia indígena de Camicuã, Manary Kankyty ou Francisco Apurinã, há três dias, em uma conversa por WhatsApp.

A reportagem é de Andy Robinson, publicada por Ctxt, 28-04-2020. A tradução é do Cepat.

Conheci Manary no final de fevereiro, quando visitei seu povo nas margens do imenso rio Purus, no estado amazônico do Acre, acessível de barco pelo município de Boca do Acre, a duas horas de Rio Branco.

Então, falamos cara a cara do perigo que representam para os povos indígenas os missionários evangélicos, normalmente ligados a alguma sorridente ONG americana, que traz dogmas e doenças às terras indígenas do Acre. A mãe de Manary, de oitenta e poucos anos, recordava daqueles tempos em que o serviço de saúde indígena não era de responsabilidade da organização neopentecostal Caiuá, mas do pajé (xamã). “Nós éramos mais saudáveis na época”, disse Manary, enquanto uma dúzia de jovens apurinã chegavam da colheita de frutos silvestres.

Foi então que o cacique Manary me explicou como os vírus trazidos pelos evangelizadores das grandes igrejas da Flórida constituem um perigo para os povos indígenas isolados no Acre. Mal sabia que, em apenas seis semanas, o perigo se tornaria uma ameaça direta, uma questão imediata de vida ou morte. Como se pode ver no vídeo, a Covid-19 já está na Amazônia e Manary está pedindo ajuda alimentícia para que ele e seu povo não sejam forçados a se expor ao vírus.

Para nós, a pandemia semeia um medo anteriormente desconhecido. Uma nova sensação de desamparo. Mas no Acre, ao sul da Amazônia brasileira, no cruzamento dos gigantescos rios Purus e Acre, se conhece há mais de cinco séculos o medo de estar desprotegido contra um vírus. As doenças contagiosas e letais procedentes do estrangeiro contra as quais os indígenas não tinham defesas são: gripe, sarampo, catapora, tuberculose e agora o coronavírus.

Em várias ocasiões, os vírus de fora chegaram quase ao ponto de acabar com os povos originários da Amazônia. Mas resistiram. Quase um milhão de indígenas vive na Amazônia e ainda existem centenas de povos isolados e que mantêm contatos mínimos com a sociedade majoritária.

Na densa floresta do Acre, quatro tribos indígenas, compostas por cerca de 600 pessoas, vivem sem contato. Mas, sob a presidência do ultraconservador Jair Bolsonaro, “os povos isolados estão ameaçados como nunca antes”, adverte Douglas Rodrigues, especialista em saúde indígena da Universidade de São Paulo.

E uma das ameaças mais sérias é a mesma que chegou pelo rio Amazonas no bergantim do frade dominicano Gaspar de Carvajal, em janeiro de 1542: a bíblia e o vírus.

Os últimos missionários são neopentecostais, enviados por ONGs internacionais como a Missão Novas TribosEthnos360, em inglês – e Youth with a Mission, financiadas pelos Estados Unidos e apoiadas pelo governo Bolsonaro.

Segundo uma análise do jornal O Globo, essas organizações evangélicas já tentaram nos últimos anos alcançar 13 dos 26 povos indígenas considerados totalmente isolados. Novas Tribos, fundada em 1953 na Flórida, acaba de financiar a compra de um helicóptero Robinson R66 que “ajudará a chegar às aldeias onde não há pistas de pouso”, conforme anunciado por seu diretor no Brasil, Edward Luz.

‘Novas Tribos’ foi um dos primeiros grupos evangélicos a usar aviões para estabelecer contato com índios isolados. Os missionários norte-americanos construíram, nos anos 1980, uma pista de pouso perto da aldeia de uma tribo conhecida como Zoés, no extremo norte amazônico, para seus trabalhos de evangelização. O resultado: surtos catastróficos de gripe, tifo e malária. Um em cada quatro zoés morreram entre 1982 e 1988. Foi um caso entre muitos.

Daí a atual preocupação das comunidades indígenas com a notícia de que Ricardo Lopes Dias, neopentecostal e ex-missionário da Novas Tribos no Brasil, seja o novo responsável das políticas de povos isolados da Fundação Nacional do Índio (Funai), órgão federal que supostamente zela pelos interesses dos povos originários.

“Um indígena pode morrer de pneumonia em 24 horas, após contrair uma gripe. Foi o que aconteceu com os zoés”, afirmou em entrevista ao O Globo, o ex-diretor da Funai, Sydney Possuelo, que certa vez proibiu as atividades da Novas Tribos, nos anos 1980.

A proteção de povos isolados é obrigatória, de acordo com a Constituição Brasileira de 1988, mas, como em muitas outras áreas de proteção da Amazônia, Bolsonaro considera a Constituição um obstáculo que deve ser superado.

A questão se torna crítica agora que o coronavírus chega à Amazônia. Embora a Covid-19 não seja necessariamente mais perigosa para um povo isolado do que a gripe (ambos são letais), a elevada virulência do coronavírus pode causar estragos tanto para os indígenas sem contato, como para os demais.

Na medida em que cresce o número de infectados confirmados no Brasil, a preocupação dos líderes indígenas se torna mais palpável. Na semana passada, foi registrada a primeira morte de um indígena pelo vírus, um jovem da etnia yanomami, no estado de Roraima. Também foram contagiados vinte e poucos indígenas do grupo étnico kokama, no norte do estado do Amazonas, perto da fronteira com a Colômbia.

“Os povos indígenas são um dos grupos humanos mais vulneráveis e precisam de atenção especial”, disse em uma entrevista Ailton Krenak, escritor da etnia Krenak e autor do livro Ideias para adiar o fim do mundo. “A gripe também pode matar muitas pessoas aqui, mas o contágio da Covid-19 é muito mais rápido”.

A entrada ilegal de milhares de mineradores artesanais e garimpeiros em busca de ouro e pedras preciosas em terras indígenas - sob a indiferença de Bolsonaro - é um sério perigo. Diante da passividade do governo Bolsonaro, indígenas como os yanomami, no estado de Roraima, e os munduruku, na região do rio Tapajós, afluente do Amazonas, fecharam vias de acesso para se proteger. Outros povos fecharam o acesso a visitantes. “Devido ao coronavírus, as aldeias paralisaram todas as atividades turísticas e visitas de estrangeiros”, disse Arison Jardim, que trabalha com os indígenas de Tarauacá, no oeste do Acre.

Mas os missionários são o maior perigo. Seu objetivo, afinal de contas, é precisamente fazer contato com povos isolados para evangelizá-los. Se suspeita que o missionário estadunidense Andrew Tonkin, oriundo da Carolina do Norte, da organização evangélica Frontier International, pretende fazer contato com tribos isoladas no vale do Javari, uma área com uma superfície semelhante à Áustria, perto da fronteira com o Peru, apesar do elevado perigo de contágio neste momento.

“Possuem drones e GPS para fazer contato”, afirmou Lucas Marrubio, um líder indígena do vale, em declarações ao site de notícias ambientais Mongabay. Dezesseis dos grupos indígenas no vale do Javari - que abrange os estados do Acre e Amazonas - são povos isolados.

“Eu conheci vários missionários da ‘Novas Tribos’ e não são as pessoas certas para fazer o primeiro contato”, explicou Antonio Apurinã, líder político da tribo apurinã.

Já havia causado consternação a decisão do governo Bolsonaro de enviar uma equipe de evangélicos para “investigar a saúde mental” do zuruahã, um povo semi-isolado que habita o território à margem do rio Purus. A Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), com o apoio da excêntrica ministra evangélica Damares Alves, incluiu dois zuruahãs já convertidos ao protestantismo na expedição para investigar uma série de suicídios na aldeia dos Zuruahã.

Um desses indígenas - missionários de Jocum, filial brasileira da Youth with a Missión - atribuiu os suicídios “à falta de esperança e à falta do evangelho”. (Na realidade, têm a ver com ritos tradicionais que, às vezes, incluem autoenvenenamento).

A expedição foi cancelada após avisos do Ministério Público Federal de que os missionários “não seguiram os protocolos de quarentena exigidos para atividades perto de povos indígenas recentemente contatados”.

Os evangélicos estão muito presentes nas tribos já contatadas. Cerca de 100 dos 451 habitantes da aldeia indígena apurinã/humanari, perto de Boca do Acre, já são evangélicos. No meio do povoado, está sendo construído um templo evangélico de tijolos. “É difícil. O povo está dividido. Não sou evangélico, mas temos que encontrar uma coexistência”, disse o chefe Manary, durante nossa visita.

Bolsonaro minimizou o perigo da pandemia em toda a sociedade brasileira, e seus aliados na direita evangélica qualificaram como “histeria e obra de Satanás” as advertências da Organização Mundial de Saúde. A única voz da razão no governo era a de Luiz Henrique Mandetta, o ministro da Saúde que acaba de ser defenestrado porque defendeu a ciência contra os fundamentalistas.

Da mesma forma, a Secretaria Especial de Saúde Indígena foi evangelizada. Cerca de 60% dos serviços de atenção primária em territórios indígenas já são prestados pela organização neopentecostal Caiuá.

Acredita-se que as epidemias genocidas na Amazônia tenham ocorrido centenas de anos atrás. Mas a verdade é que se intensificaram na segunda metade do século XX. Os projetos de mineração e grandes obras como a Rodovia Pan-Amazônica expuseram milhares de indígenas a vírus contra os quais não têm defesas.

O mal denominado Serviço de Proteção dos Índios (SPI) “praticou guerra bacteriológica ao introduzir entre as tribos da floresta amazônica sarampo, gripe, varicela e tuberculose”, explica Márcio Souza, em seu novo livro “Amazônia”. “Morreram em grande número e rapidamente”.

A população dos waimiri-atroari caiu de 3.000 para 300, após a abertura da Rodovia Transamazônica, nos anos 1970, muitos devido a uma epidemia de sarampo. (Os ataques de metralhadora de helicópteros militares completaram a operação.) Quando alguns indígenas foram para hospitais, “as autoridades médicas se recusaram a cuidar deles (...) sob o pretexto de que não havia hospitais em Manaus para atender o grande número de pacientes”, explica Souza.

O caso das aldeias nambiquara - muito perto da Rodovia Pan-Americana - foi ainda pior. Depois do primeiro contato (por meio de missionários), a população caiu de 10.000 para 1.000 habitantes devido às epidemias. Em 2014, quando a tribo dos xinane estabeleceu um primeiro contato com representantes da Funai, os vírus já haviam chegado. Os sobreviventes disseram que seus familiares tinham morrido de febre, tosse, diarreia e vômitos.

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