“Uma crise como a atual faz as pessoas pensarem sobre a vida e a morte”. Entrevista com José Casanova

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29 Abril 2020

Uma pesquisa publicada por The Washington Post afirmava que, nas últimas semanas, mais da metade dos estadunidenses havia rezado pelo fim da pandemia. O dado, cruzado com outros produzidos na Europa (como, por exemplo, os mais de um milhão de espectadores da benção Urbi Et Orbi do Papa, no dia 27 de março, na Espanha) sinalizam um dos possíveis efeitos da crise da COVID-19: um possível ressurgimento religioso.

José Casanova (Zaragoza, 1951), professor de Sociologia da Religião, na Universidade de Georgetown, apresenta seu ponto de vista: “Não é que no resto do mundo haja uma revalorização da religião, mas, sim, que a vivência religiosa faz parte da modernização no resto do mundo e na Europa, não”.

A entrevista é de Javier Becerra, publicada por La Voz de Galicia, 26-04-2020. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

O que acontece na Europa?

A Europa secularizada chegou a um limite máximo. Era de se esperar um certo interesse em questões espirituais e religiosas, apesar da má imprensa. A Europa estava muito confiante em que era o modelo para o resto do mundo e agora se deu conta de que não é a regra, mas, sim, a exceção.

Onde existe essa ideia de modernidade ligada ao religioso?

Sempre foi o caso dos Estados Unidos. Está muito clara nas três últimas décadas de América Latina. É claríssima no mundo muçulmano, na Índia, na África subsaariana e, inclusive, em países do leste asiático. Por exemplo, a Coreia se tornou mais religiosa na medida em que se tornou mais industrializada. Também ocorre na China, onde há um renascimento religioso em todos os níveis. De estudantes às constantes publicações.

Como avalia que a crise do coronavírus pode influenciar em todo esse processo?

É evidente que uma crise como a atual faz as pessoas pensarem sobre a vida e a morte. Isto leva a questões de solidariedade, já não apenas da própria pessoa, mas de nos ver como humanidade: quem somos, para onde vamos e qual é a nossa situação no mundo. Essas são questões fundamentalmente religiosas. O que não quer dizer que as igrejas tradicionais tenham resposta a esse novo interesse que surge.

Qual o papel que o Papa desempenha nisso?

Abriu iniciativas que faz com que seja mais respeitado pelos não religiosos ou os ex-católicos do que pelos católicos tradicionais, que não o querem. Nesse sentido, tem uma visibilidade global muito forte. Desde João XXIII, o papado é o que melhor simboliza a unidade da humanidade no mundo. Falam e as pessoas escutam, porque não falam só para a igreja católica, mas para toda a humanidade de temas que interessam a todos.

Disse que na Europa essa modernidade passava por deixar a religião de lado. Nos Estados Unidos, é totalmente o contrário. Por que na Europa é quase inconcebível que um cantor mencione a Deus e nos Estados Unidos, no entanto, é normal?

Ou um atleta, não é verdade? Isso ocorre sobretudo nos países católicos em que entrou o modelo laicista francês. Nos países nórdicos, a fusão entre religião, sociedade civil e estado é muito mais forte. Não esqueçamos que as igrejas da Dinamarca, Noruega, Suécia e Finlândia são nacionais. Na Noruega, por exemplo, é o parlamento que elege os bispos da igreja ou o que passa os dogmas da igreja. Passou-se de que a religião do rei era a dos súditos a que, em um processo democrático, seja agora o povo da Noruega quem controla a igreja. E não há anticlericalismo.

O laicismo é um fenômeno puramente católico. Só aí há diferença entre leigos e religiosos. Nos países protestantes, não há essa diferença. Neles, o secularismo é algo positivamente religioso, que promove a própria religião. Os Estados Unidos são o país mais secular do mundo. Inclusive Marx disse que era um modelo de separação de igreja e estado. Mas, ao mesmo tempo, é o mais religioso.

Como se explica esse paradoxo?

Isso já foi dito por Tocqueville. Individualismo é uma palavra que ele inventou justamente para qualificar esse fenômeno da modernidade. Essa palavra não existia em francês. Surgiu para isso. Nos Estados Unidos, o individualismo é democrático, capitalista e religioso. Tudo caminha junto. As pessoas se tornam indivíduos livres para a religião, a política e a economia. Na Europa, tínhamos igrejas confessionais nas quais haviam nos forçado a ser membros dela, quiséssemos ou não. O individualismo moderno europeu é concebido como a libertação do indivíduo dessa religião imposta.

Nos Estados Unidos, as pessoas se tornaram religiosas, após a independência, por meio de movimentos de revivalismo religioso. No momento da independência, só 10 ou 15% das pessoas pertenciam às igrejas. Não era algo obrigatório. Só pertenciam a elas as elites, como a Congregational, em Massachusetts, a Igreja Presbiteriana, em Nova York, ou a Igreja Anglicana, na Virgínia. As pessoas comuns se tornaram religiosas por movimentos de renascimento religioso, que eram muito parecidos aos movimentos de mobilização política democrática. Em princípios do século XIX, iam em paralelo.

Portanto, a modernidade política, religiosa e econômica andam de mãos dadas e nunca se viram em conflito nos Estados Unidos. Na Europa, concebemos que a religião é algo da tradição, que a modernidade é incompatível com a tradição e que é necessário deixá-la de fora.

Certa vez, falou da importância da imigração latino-americana na Espanha. Influencia no interesse religioso?

Claro. Vêm os imigrantes e trazem consigo seu pluralismo religioso. O modelo europeu consistia em acabar com o pluralismo religioso. Para mim, a aconfessionalidade religiosa começa no ano 1492, com a expulsão de judeus e muçulmanos para fazer uma Espanha homogeneamente católica. Toda a Europa do norte é homogeneamente protestante, onde os católicos foram expulsos ou tiveram que se converter. Depois, há um sul católico, onde também foi preciso expulsar ou converter os protestantes à força. Só três nações no meio, biconfessionais: Holanda, Alemanha e Suíça. Mas as três estão divididas territorialmente ou em cantões, onde católicos e protestantes não se misturam.

As minorias religiosas tiveram que sair da Europa e encontraram refúgio na América. Na modernidade europeia, quando muda o poder absoluto monárquico pelo poder do povo, não há mudança religiosa. Na Europa, ninguém se converte de uma religião para outra. A única mudança é deixar a igreja para se tornar seculares. Nos Estados Unidos, 35% da população adulta mudou de religião alguma vez: de protestante a católico, de católico a judeu e de judeu a muçulmano. Isso é impensável na Espanha, mas na América é o que ocorreu, nos últimos 40 anos. Havia países homogeneamente católicos que agora têm uma porcentagem alta de protestantes, de 20 a 25%. Em casos como Honduras, de 50%. O Brasil, por exemplo, é o maior país católico, mas também o maior país pentecostal do mundo e muitas outras.

Os últimos movimentos sociais somados aos avanços tecnológicos geraram em alguns setores da população uma desorientação que os empurra a tomar posições mais tradicionais. Isto poderia favorecer o ressurgimento religioso, algo que Casanova não vê como factível no caso espanhol.

“Na Espanha, há uma enorme pressão social para nos fazer muito modernos. Antes, a Igreja nos dirigia, agora, Almodóvar nos dirige. Vejo isso na secularização das gerações jovens e no pouco interesse que há em pensar em tais coisas. É possível que sim, que existam pessoas que leiam, que pensem e que reflitam, mas na realidade são minorias. Há uma pressão em secularizar e anticlerical muito grande. A igreja não ajuda”, afirma.

No que falha?

Na Transição teve um papel muito importante, mas depois se tornou muito antissocialista. Depois passou por Aznar, apontando para uma posição política e, sobretudo, sob o confessionalismo moral em questões de sexo e de gênero. Isso alienou muitas pessoas. Só com a chegada do Papa Francisco houve um novo interesse em seu discurso. Mas não tem a força suficiente para que as pessoas voltem a levar a prática religiosa a sério. Ocorreu uma ruptura muito forte, quase como uma perda de memória. A geração dos filhos de meus irmãos já não conhece a tradição cristã.

No entanto, com essa situação de vulnerabilidade, muitos se refugiam na religião, conforme acontecia antes.

Como dizia antes, há uma inquietação e reflexão. O problema é saber se há respostas. Receio que as igrejas não estão preparadas para oferecer respostas que sejam credíveis. A fragilidade e a contingência nos abrem para perguntas. A resposta que se dava antes, moralista, dizia que é o castigo pelos nossos pecados. Isso já não funciona.

O que funciona?

Somos uma humanidade comunitária que precisamente necessita do distanciamento físico, mas de mais união social que nunca. Não somos autônomos, sempre dependemos de outros. Esta crise pode nos levar a questionar toda essa autonomia individualista. A Igreja deve se converter em uma comunidade de comunidades. É o que disse o Papa. Se não chega a isso, não chegará a nada.

E a família?

O familismo é muito importante na Espanha e mantém a sociedade. Isso explica que possamos viver com esses níveis de paralisação. Vê-se nos hospitais. A tragédia maior é que estávamos acostumados a viver com nossos doentes. Eu passei as últimas noites de meu pai no hospital, algo impensável nos Estados Unidos. Isso é algo muito positivo e esta pandemia o tornou impossível. As pessoas morrem sem seus entes amados, que não as podem enterrar.

 

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