Papa não europeu monta defesa da União Europeia em meio a paralisia causada pelo coronavírus

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28 Abril 2020

Hoje, a Itália marca o 46º dia do seu confinamento nacional causado pelo coronavírus, o que pode ajudar explicar a impaciência com que muitos italianos assistem a cúpula, por videoconferência, de líderes da União Europeia para discutir uma abordagem compartilhada de recuperação pós-pandemia – cúpula que, segundo as reportagens publicadas na imprensa, nem será deliberativa.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 23-04-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

“Isso é um processo em curso”, disse um representante da União Europeia, portanto a reunião on-line “não dará as respostas sobre os números do próximo orçamento da União Europeia nem sobre quais instrumentos inovadores serão usados em sua resposta [à crise]”.

O fato de a União Europeia estar quase dois meses na maior crise em seus 63 anos de história e ainda não poder concordar com uma estratégia comum vem gerando uma grande frustração, especialmente entre estados do sul europeu – como Itália e Espanha –, que estão sendo desproporcionalmente mais afetados em relação às nações do norte, como Alemanha e Holanda.

Um dos resultados políticos mais imediato é que não são mais apenas os populistas de direita da Europa, como Marine Le Pen, da França, ou Matteo Salvini, da Itália, que têm questionado se a União Europeia tem futuro.

Por exemplo, o primeiro-ministro Giuseppe Conte, da Itália, recentemente foi entrevistado pelo jornal alemão Bild. Aí, declarou: “Se a Europa não estiver à altura do desafio, então vamos precisar abandonar o sonho europeu e dizer que cada um aja por conta própria”.

(Aliás, não é coincidência Conte escolher uma mídia alemã para deixar esta mensagem, visto que o principal antagonista vem sendo a Alemanha e a chanceler Angela Merkel.)

Conte vem pressionando a União Europeia na criação dos “coronabonds” [jogo de palavras significando “coronavírus e títulos financeiros”]: isto é, instrumentos para subscrever a nova dívida que os estados-membros vierem a contrair para estabilizar suas economias, oferecer alívio a curto prazo a trabalhadores desempregados e resgatar empresas em risco de falência devido à crise, empresas que sejam solventes e produtivas.

Até o momento, a Alemanha e a Holanda rejeitaram a ideia, com a Alemanha insistindo no Mecanismo Europeu de EstabilidadeMEE, programa criado em 2012 em resposta à crise da dívida europeia que eclodiu durante a crise global de 2008-2009, que viu vários países-membros da União Europeia, incluindo Grécia, Portugal, Irlanda, Espanha e Chipre, incapazes de pagar suas dívidas e necessitando de ajuda imediata.

Entretanto, Conte objetou que o MEE “vem com restrições”, uma vez que, em alguns casos, os seus empréstimos podem estar condicionados a programas de reestruturação financeira. Conte defende que a necessidade de dinheiro da Itália no momento não se deve a políticas fiscais irresponsáveis, mas a uma crise de saúde pública imprevisível.

As frustrações atuais com a União Europeia em países como a Itália e a Espanha, por causa da resposta ao coronavírus, agravam as queixas que já existiam com respeito à crise de migrantes e refugiados na Europa, onde os estados que fazem fronteira com o Mediterrâneo há muito sentem que foram injustiçados pela parcela maior que tiveram de carregar de pessoas recém-chegadas à zona do euro, embora muitos desses refugiados acabaram desejando se mudar para o norte.

Em outras palavras, o impasse quanto ao alívio financeiro por conta da atual crise corre o risco de transformar os sentimentos anti-União Europeia – sentidos por uma minoria populista em lugares como a Itália – em sentimentos comuns, institucionais, manifestados não apenas por demagogos e dissidentes, mas também por lideranças centristas respeitáveis.

Tudo isso nos leva ao Papa Francisco, que, apesar de ser o primeiro pontífice não europeu desde o século VIII, talvez seja o líder mais expressivo do Velho Continente a fazer uma defesa dos princípios da União Europeia.

Em sua missa diária, transmitida ao vivo direto da Casa Santa Marta, no Vaticano, Francisco rezou, na quarta-feira, pela união.

“Neste tempo no qual é preciso muita unidade entre nós, entre as nações, rezemos hoje pela Europa, a fim de que a Europa consiga ter esta unidade, esta unidade fraterna que os pais fundadores da União Europeia sonharam”, disse.

Este pensamento reflete a mensagem Urbi et Orbi, enviada no Domingo de Páscoa, quando o papa diz que “hoje, a União Europeia enfrenta um desafio histórico, do qual depende não apenas o seu futuro, mas o de todo o mundo”.

Os principais aliados de Francisco na Europa também vêm pressionando nesse sentido, reconhecendo frustrações com a incapacidade da União Europeia de agir em conjunto, mas sugerindo que a resposta adequada não é sobrecarregar o bloco econômico, e sim reforçá-lo.

Recentemente, o Cardeal Jean-Claude Hollerich, do Luxemburgo, presidente da Comissão dos Episcopados da Comunidade EuropeiaCOMECE, queixou-se de que a União Europeia parece “paralisada”.

Segundo Hollerich, os erros na crise dos refugiados “infligiram feridas profundas no ideal europeu”. Afirmou também que uma decepção semelhante, em decorrência da atual crise, “pode ser o ferimento fatal” da unidade europeia como um todo.

Recentemente, o economista italiano Stefano Zamagni, importante assessor papal em política econômica e social, disse que o coronavírus revelou a “impotência” da União Europeia e pediu que suas potências se fortaleçam.

“Devemos voltar a valorar os princípios fundamentais de uma comunidade”, disse.

É importante lembrar que o catolicismo é a instituição globalizada mais antiga em funcionamento no mundo e, teologicamente, a Igreja é universalista em princípio. Ela tem apoiado a ONU desde o início, bem como a União Europeia, a União Africana, a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos e outras tentativas de solidariedade transnacional, assim como tem promovido uma mesma caminhada dentro da Igreja, com a COMECE, com Conselho Episcopal Latino-AmericanoCELAM, com o Simpósio de Conferências Episcopais da África e MadagascarSECAM, com a Federação das Conferências Episcopais da ÁsiaFABC (na sigla em inglês), e assim por diante.

Quanto a Francisco, ele liderou a Igreja na Argentina durante a “Grande Depressão” de seu país, em 1998-2002, e entende como estados individuais muitas vezes dependem de instituições maiores em momentos de crise. Quando essas instituições estão frágeis ou não têm condições de responder, a resposta instintiva de Francisco não é se afastar, mas reformar.

Até agora, quando falou em defesa da Europa, presume-se que o papa estivesse se dirigindo aos eurocéticos e eleitores populistas. Hoje, no entanto, parece mais provável que esteja falando a Giuseppe Conte, aos principais líderes mundiais aparentemente tentados a levantar as mãos e desistir.

Na verdade, não está claro se o papa tem condições de salvar a União Europeia de si mesma. Talvez o mais importante aqui é que parece ser um pontífice “do fim do mundo” quem está lembrando o continente europeu de seus ideais, em uma época na qual o desencantamento com estes ideais parece estar prestes a tornar-se a norma.

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