Seguimos ferindo, com nossas palavras, a ternura infinita de Deus Pai-Mãe. Artigo de Andrés Torres Queiruga

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17 Abril 2020

"Como é possível que em nossas orações, em vez de tratar esse nome com sumo cuidado e amoroso respeito, sigamos invocando a Deus de maneira tão injusta e desviada? Em vez de nos darmos conta de sua imensa ternura que somente pensa em nosso bem e agradecer sua veemente preocupação pelo mal, seguimos imaginando-o – ainda que saibamos que não é possível ser assim – distante e inativo, deixando de exercer sua capacidade de auxilio e de remédio. E continuamos repetindo fórmulas e palavras que feririam a sensibilidade de qualquer mãe ou de qualquer pai: se atente, tenha compaixão, escuta e piedade...", escreve o teólogo espanhol Andrés Torres Queiruga, em artigo publicado por Religión Digital, 14-04-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Eis o artigo.

 

Diga-me como é tua oração, e te direi como é teu Deus; ou melhor: te direi como é a tua imagem de Deus. Diga-me como é teu Deus, e te direi como é tua oração; ou melhor: te direi como está anunciando a Deus na cultura atual; ou melhor: te direi como está configurando nossa sensibilidade cristã. Diga-me como é tua oração ante o mal, e te direi se contribui a converter a imagem do teu Deus em “prol do ateísmo” ou em garantia de confiança incomovível.

 

Transcender a oração de petição

As perguntas são sérias, porque tocam o núcleo da fé cristã. Concretamente, aqui interessa a dificuldade concreta que apresenta a oração de petição, quando se faz ante o Deus anunciado por Jesus. Por isso convém ir à fonte. Por sorte, antes de nós, os discípulos já fizeram: “Mestre, ensina-nos a orar, como João ensinou aos seus discípulos. Respondeu-lhes: quando rezeis, diga: Pai, seja santificado teu Nome! Venha o teu Reino!” (Lc 11, 1-2).

 

Pai, santificado seja teu Nome

Desde que Jesus de Nazaré orou e viveu entre nós, o verdadeiro nome de Deus é Pai, Abbá: pai-mãe, no amor dedicado e ternura atenta e sem descanso. Preocupado diante de todo o sofrimento, o medo e a angústia que em momentos como o atual assaltam suas filhas e filhos.


Pai-Nosso. Fonte: Sagrada Família

Vem à memória suas palavras: se inclusive sendo maus, os pais humanos querem apenas o bem para seus filhos, “mais ainda” o vosso pai celestial! Se as notícias de contágios e de mortes nos assustam a cada dia; se levantando a vista, se nosso ânimo se encolhe ao pensar no que pode estar acontecendo entre os desamparados da rua, os imigrantes sem lar; se mais além, nos países pobres e em todo um continente podem morrer milhares, talvez milhões, de pessoas... o que podemos pensar de Deus? É óbvio que a partir de Jesus, somente podemos conceber esse coronavírus como uma terrível coroa de espinhos que dilacera cruelmente seu coração de Pai.

 

Um amor maior que se possa pensar

Pobre metáfora, certamente; antropomorfismo balbuciante. Porém seu significado é pobre, não porque exagera; mas sim porque atua “em baixa”. Nós que temos sorte de ter vivido a experiência de que, se fosse preciso, nosso pai e nossa mãe estariam dispostos a morrer em nosso lugar, temos aí um ligeiro cuidado do que pode ser – misteriosa, porém certa – a preocupação divina pelo sofrimento humano: o cuidado ativo, o empenho firme de Deus diante do mal terrível que atormenta o seu mundo. Antes do próprio Evangelho já havia dito Isaías: ainda que uma mãe se esqueça de sua criatura, que nosso Deus nunca se esqueça de nós.

Jesus, comovido, quase me atrevo a dizer obcecado, pela intuição abissal desta preocupação absolutamente prioritária de Deus pelos sofrimentos de seus filhos e filhas, animou a proclamar: “santificado seja teu nome”. Era respeito e adoração. Era a ação de graças que surgiu, íntima e ardente, no “hino de júbilo” ante o mistério entranhável desse nome santo. Essa era a notícia que quis transmitir à humanidade, não como mensagem esotérica, reservada a sábios, mas sim aberta e compreensível para todos, começando pelos mais pequenos e mais simples.

Diante desta constatação me surpreende mais uma vez o assombro que há muito tempo me acompanha: como é possível que em nossas orações, em vez de tratar esse nome com sumo cuidado e amoroso respeito, sigamos invocando a Deus de maneira tão injusta e desviada? Em vez de nos darmos conta de sua imensa ternura que somente pensa em nosso bem e agradecer sua veemente preocupação pelo mal, seguimos imaginando-o – ainda que saibamos que não é possível ser assim – distante e inativo, deixando de exercer sua capacidade de auxilio e de remédio. E continuamos repetindo fórmulas e palavras que feririam a sensibilidade de qualquer mãe ou de qualquer pai: se atente, tenha compaixão, escuta e piedade...

 

Transcender conservando os valores

Nunca é, certamente, essa a nossa intenção; porém isso é o que dizem nossas palavras e que depois, em consequência fatal, se traduz em nossas práticas: buscar convencer a Deus com intercessores e advogados, ganhar a seu favor com oferendas e preces ou movê-lo a compaixão com sacrifícios.

É difícil pensar na facilidade constante e inconsciente com a qual, em vez de ouvir em profundidade o chamado de Jesus – “santificado seja o vosso nome” – continuamos a ferir com nossas palavras a infinita ternura evocada pelo santo nome do Pai.

Esse é o único nome verdadeiro de Deus anunciado por Jesus. Do Deus que “é amor” ou, numa tradução mais exata, que “consiste em estar amando”: que “não dorme nem cochila”, cuidando do amor pelo seu povo. Do Deus que não sabe, não quer, e nem pode fazer mais do que amar, preocupado apenas e exclusivamente com o bem de cada uma de suas criaturas. Do Deus que nos criou não para a sua glória, mas para o nosso bem; não para nós servi-lo, mas para nos ajudar, nos proteger e, ousemos dizer, para nos “servir”.

Curar as “doenças da linguagem” tornou-se uma das grandes preocupações da filosofia moderna. Curar as doenças das palavras com as quais formulamos nossas orações representa uma urgência que bate fortemente nas portas da teologia... e até do senso comum. Lembrando-se de Jesus, sem se esconder em literalismos fundamentalistas e, acima de tudo, por respeito a Deus e pela ternura de seu infinito amor, não valem desculpas ou qualificações, nem subterfúgios linguísticos ou teológicos. Não vale a pena argumentar que nossas orações não dizem o que suas palavras significam: “quando pedimos, não queremos perguntar; quando, de maneira em coro e insistentemente, exortamos a Deus para ser compassivo e misericordioso, não pretendemos afirmar que ele não seja...”. Sem falar de tantos textos teológicos que, de maneira falsa e fundamentalista protegem-se pelo livro de Jó, afirmam que podemos nos rebelar contra Deus, responsabilizá-lo, repreendê-lo com palavras ofensivas ou até ousar tolices piores, até blasfêmia. Com menos razão, Karl Barth falou uma vez de “piedosa vergonha”.

Já está entendido que não pretendo julgar intenções subjetivas. E muito menos, que quero incentivar o abandono da oração. Orar sem descanso ou intervalo deve ser a água que fertiliza cada minuto da vida. É sobre orar bem. Não abandonar – como seria possível? – a oração, mas limpá-la de falsas adesões, rotinas ou pressupostos humanos demais, que obscurecem seu verdadeiro significado e perturbam os valores profundos e autênticos que estão nela.

Então, eu falo de transcender a petição. Seria injusto não reconhecer que, se está nas próprias Escrituras e persiste na história, é porque existem nela valores muito profundos e inalienáveis: humildade diante de Deus, sentir-se necessitado de sua ajuda, assumindo sua bondade, compaixão e solidariedade com os que sofrem, desejos de melhorar a nós mesmos e ajudar os outros... Seria tolice tentar negar tudo isso, e um verdadeiro crime religioso tentar cancelá-lo. É exatamente o oposto: reconhecer esses valores e proclamá-los como tais; mas limpá-los da escória, involuntário, mas corrosivo, que os contradiz e perverte com a enorme força que a linguagem exerce sobre o espírito humano.

Porque essa corrosão opera toda vez que convertemos a exposição limpa desses valores em uma petição dirigida a Deus, em palavras que, sem depender de nossa intenção, pervertem seu significado. Não fazem mal a Deus, porque a boa intenção não está escondida deles. Mas eles fazem isso conosco, porque, como disse Sócrates, falar mal “machuca almas”. Algo que hoje uma atenção mínima à filosofia da linguagem apenas confirma e aumenta em uma medida que não é facilmente calculada.

Sem danos sérios, tanto pela fé como pelo seu anúncio, não se pode insistir em pedir aos que se dedicam apenas a ajudar; em convencer aqueles que já são, sempre e sem descanso, dedicados ao nosso bem; movendo-se para a compaixão quem, com infinita preocupação, está tentando mover nossos corações para que colaboremos com Ele: o Misericordioso, na busca do bem para seus filhos e filhas. É um investimento tão flagrante e retumbante que, se não fosse por rotina, inadvertência e até boas intenções, seria uma monstruosidade religiosa. Porque não só atrapalha a ordem da criação, mas também e acima de tudo supõe um ataque cruel e doloroso contra o amor de Deus. “Estou na porta e bato, se alguém abrir para mim, entrarei...”, diz o livro do Apocalipse. Um símbolo, quase um apelo, que sugere a magnitude do investimento.

Se alguém ainda suspeitava ou temia que negar o pedido implicaria arrogância ou autossuficiência, negando a humildade da condição humana diante de Deus, você deve entender o que significa exatamente o oposto: nenhuma confissão mais profunda da verdadeira pobreza humana do que reconhecer que tudo vem de Deus, absolutamente tudo, da existência ao próprio desejo de orar. Qualquer sentimento de compaixão e toda tentativa de ajudar os outros é sempre uma resposta a uma iniciativa divina que nos funda, nos precede, nos rodeia e nos convoca. A oração deve consistir em permitir-nos ser inundados, convencidos e movidos por essa onda infinita de ação criativa e amor salvador.

Aí reside a verdadeira humildade, que não infantiliza ou rebaixa, mas encoraja e promove. Lutero, maravilhado com a gratuidade absoluta da graça, exclamou com espanto: “somos mendigos; essa é a verdade”. Felizmente, é apenas meia verdade. Porque nossa pobreza é apenas a marca de nossa finitude, de uma criatura que precisa ser gerada no tempo e feita na história. Mas não é finitude marcada por abandono ou desprezo. Não somos escravos ou mendigos: somos filhas e filhos, infinitamente amados e definitivamente amparados.


"O Retorno do Filho Pródigo", de Rembrandt van Rijn (1661–1669).

Venha o teu Reino

Iluminados pela palavra, pelo exemplo e pela vida de Jesus, temos certeza de que não falta o amor de Deus. Mas não é o mesmo com a nossa fé nesse amor. Nossa capacidade é muito pequena para acomodar sua grandeza. Está sempre a caminho e nunca termina. A oração deve ser o grande remédio que assegura a e encoraja sua realização.

Invocar Deus como Pai (Mãe) é fácil e reconfortante; ele até gosta de evidências espontâneas. Mas não é tanto quando colide com a realidade de nossos limites: tanto com nossa impotência para ser tudo o que queremos ser, como com as feridas de sofrimento e injustiça. Então surge a dúvida e a resistência aparece.

Portanto, acreditar verdadeiramente que somos filhos e filhas não é tão evidente. Quando nos sentimos culpados diante de Deus, agimos como o filho pródigo: somos incapazes de acreditar em seu amor e o tornamos um juiz – “me trate como um servo” – que nunca deixa de ser pai. Acreditar verdadeiramente que somos irmãs e irmãos é talvez menos evidente, e nem sempre acreditamos na realidade efetiva. Dada a necessidade de outras pessoas, podemos “fechar as entranhas” ou, na melhor das hipóteses, sempre sentimos nossa incapacidade de ajudar.

Jesus, para a invocação de Deus como pai, imediatamente se junta ao segundo: “Venha o teu Reino”. Há uma duplicidade fina nas invocações da Oração do Senhor: nem sempre é claro se elas representam uma proclamação afirmativa do que Deus está fazendo ou um pedido que ele faça. As duas valências estão presentes no idioma. Na primeira invocação – “Santificado seja o teu nome” – é fácil se inclinar para a afirmação. Não é assim na segunda – “venha o teu Reino” – que facilmente se torna em um pedido.

É bem possível que também na linguagem de Jesus dentro de sua cultura religiosa, a dualidade estivesse presente. É por isso que é importante transferir as palavras, para ir ao fundo genuíno de sua intenção. Nisso, o que é decisivo é a absoluta primazia de Deus, como aparece claramente em sua proclamação inaugural: “O tempo está cumprido e o Reino de Deus está chegando: convertam-se e creiam na Boa-Nova” (Mc 1, 15). Anuncia o que Deus está realizando e solicita nossa resposta, chamando-nos a acreditar e mudar o comportamento, entrando no dinamismo divino para que o Reino se realize.

 

Vale a pena confirmá-lo, lembrando o “Hino de júbilo”, quando Jesus, maravilhado de êxtase com a gratuidade infinita do amor divino, exclama: “Bendito seja você, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeu essas coisas dos sábios e dos prudentes, e as revelou ao povo humilde”. A experiência de Jesus não se inclina para a súplica, mas proclama a todos o espanto com o que Deus está fazendo. E o evangelista – que falou de Jesus já ressuscitado com total transparência divina – coloca em sua boca palavras que encorajam plena confiança em Deus: “Vinde a mim, todos os que estão cansados e oprimidos, para que eu te alivie” (cf. Mt 11,25-27; Lc 10,21-22).

Essa é a intenção mais profunda e genuína do anúncio de Jesus. Chegar a ela, reavivar a fé e a confiança na atividade salvadora de Deus e nos encorajar a obedecê-la, acolhendo-a e transformando-a em realização histórica, é isso que define o significado autêntico da oração. Mas não é fácil entendê-lo, sem se deixar levar pela tendência espontânea, desviando sua verdadeira orientação, de transformá-la em um pedido. Ou seja, remitamos: transformamos o chamado que Deus nos faz em uma súplica que nós fazemos a Deus.

 

A oração e o problema do mal

Certamente, na realidade viva da oração tudo se mistura, e já dissemos que, felizmente, na mesma petição, pode estar implícito o reconhecimento da iniciativa divina. Mas isso não deve esconder a importância do problema, tanto por respeito ao santo nome de Deus, como por gratidão e cuidado para não ferir a incrível ternura de seu infinito amor. Para aumentar a sensibilidade e compreender com mais precisão onde estão as diferenças, a análise de dois exemplos bem conhecidos no mesmo Evangelho pode ajudar. O primeiro fala da oração quando experimentamos os limites de nossa impotência humana. A segunda, mais profunda e delicada, refere-se a uma oração colocada na boca do próprio Jesus, diante da questão do sofrimento, tantas vezes incompreensivelmente terrível, imposto pela injustiça humana.

 

Orar partindo da própria impotência

Creio, Senhor, mas aumentai a minha fé” (Mc 9, 24).

Aqui não vamos considerar a cena tal como aconteceu no evangelho, onde o que é dito pode fazer total e correto sentido: o pai de uma criança epilética pede a Jesus que o ajude a avançar na fé. Foi o que Jesus fez durante sua vida, governado pela interação normal, de instrução, exemplo e ajuda, dentro dos funcionamentos da história humana. Vamos considerar a situação atual, quando, graças ao evangelho, oramos diante de Deus invocando-o como Pai.

Então o reflexo muda. Estamos conscientes de que acreditamos, mas não acreditamos com toda a força, com toda a confiança e com toda a dedicação que gostaríamos de ter. Assim nasce o desejo de melhorar. Como tal, a reação é justa e correta. A questão é como gerenciar esse desejo. Acostumados às relações humanas, tendemos a pedir ajuda espontaneamente, como geralmente acontece entre nós, porque muitas vezes aqueles que podem ajudar ou não sabem disso ou mesmo se sabem, podem não estar dispostos a fazê-lo. Mas na oração o relacionamento é com Deus, que “já sabe o que precisamos antes de pedir”, como Jesus ensinou; que, como um puro ato de amor, embora uma mãe possa esquecer, ele nunca esquece, como Isaías havia dito; e que, como o Evangelho de João lembrou, “ele está sempre trabalhando desde o começo do mundo”.

Aqui está o ponto preciso em que a “linha vermelha fina” aparece. Porque, sem conhecê-lo, podemos aplicar simplesmente critérios humanos ao relacionamento com Deus, ignorando seu caráter único e invertendo completamente seu significado: reagimos perguntando, assumindo que Deus age como nós. Então, querendo ou não, o verdadeiro relacionamento é invertido, porque dessa maneira a realização do desejo depende de Deus: se não é cumprida, é porque Ele não quer fazer algo que está em suas mãos.

Daí a reação de pedir, suplicando, lembrando-o... Mas é claro que esse não é o relacionamento que deve ser estabelecido com a mesma fé que, embora imperfeitos, temos e professamos. Graças a ela, sabemos que de Deus tudo não é mais apenas oferecido, mas generosamente entregue. O que quer que esteja faltando, seja o que for, está apenas do nosso lado: ou porque não sabemos ou não somos capazes, ou porque resistimos ou, o que é pior, não queremos.

Uma vez que esse investimento se torna claro, fica claro que o que é verdadeiramente correto e saudável, “nosso dever e salvação”, é respeitar a fina linha vermelha. Hoje, nossa oração já não pode – nem deveria poder – consistir em repetir ao pé da letra diante de Deus as palavras que o pai do menino disse diante de Jesus. Agora estamos expressamente conscientes de que Deus já está nos ajudando sempre e que o que falta depende apenas de nossa resposta, de receber sua ajuda e realizá-la na medida do possível. A oração bem orientada deve, portanto, consistir em: a) animar a fé na certeza de que contamos com sua ajuda divina, que nunca falta e está sempre pronta e oferecida; b) tentando discernir onde Deus está nos guiando e encorajando; c) estimular nossa vontade de colocar em prática o que consideramos ser a resposta fiel. (E como diremos mais adiante, aceitar a finitude: nem sempre é possível que o desejo seja realizado, apesar da ajuda divina e de uma resposta humana positiva).


"Visão de Santo Agostinho", de Sandro Boticcelli, 1488

Por esse motivo, a consequência será formular nossa oração de maneira a expressar com palavras verdadeiras a relação viva assim estabelecida. Ou seja, procurar palavras que evidenciem e preservem a verdade do relacionamento com Deus, abrindo nosso ser à sua luz e buscando acolher e deixar-se ajudar por Ele. Mais uma vez, se trata de que chamemos nós. É Deus quem chama e pede que abramos a porta ao seu chamado. Isso é tão grande, tão contrário à nossa cultura de desinteresse, egoísmo, desperdício e passividade, que é literalmente incrível para nós. Por algo que Santo Agostinho disse: “si comprehendis, non est Deus”.

Mesmo assim, bem considerado, não é difícil perceber a verdadeira orientação. A dificuldade vem da imaginação. Carregado como está com fórmulas repetidas, mesmo desde a infância, tudo o inclina na direção oposta, dificultando a formulação correta da frase. Inicialmente, pode acontecer que as palavras estejam faltando, sendo deixadas sem saber o que dizer. Portanto, o que é necessário não é desanimar, mas mobilizar a consciência expressa da situação: nós diante de Deus, diante do Deus de Jesus, que nos rodeia com seu amor e nos apoia com sua graça.

É urgente começar a trabalhar e levar muito a sério o significado do que está em jogo: a imagem autêntica de Deus, respeito por seu santo nome, gratidão por sua ternura, o “bem de nossas almas”. Também – e cada vez mais, em uma cultura crítica e secularizada – o destino da fé em nosso mundo. Um mundo que, não mais educado em catecismos ou sermões, escuta e interpreta sentenças no significado normal e correto, no que é expresso em letras e é explicado em dicionários. Não é de surpreender que muitas pessoas hoje achem quase impossível acreditar no “Deus” cuja imagem se reflete em tantas orações.

De fato, não escondo minha surpresa de que os cristãos, especialmente os teólogos e teólogas, não sintam a urgência do problema e continuem a negligenciar a tarefa de formular novas frases, buscando palavras, fórmulas e expressões que digam a verdade. Talvez no momento eles possam ser um pouco desajeitados ou pouco elegantes. Mas não é tão difícil perceber para onde você pode ir. Acima de tudo, perceber que tudo pode ser dito, desde que expresse verdadeiramente o relacionamento com o Deus-Pai. Claro: agradecimento, adoração, confiança; e também as necessidades, carências e desejos, para fazê-lo sempre com a condição de envolver tudo com o que poderia ser chamado de “o porém da fé”: não somos capazes, sentimos pena, queremos ajudar e nos provamos impotentes, não apenas decidimos agir... mas sabemos que Tu, Senhor, está conosco, que és Tu mesmo que nos lembra estas necessidades e desperta em nós estes desejos, que estás a apoiar e encorajar tanto quanto for possível...; apoiados em ti, confiamos, queremos seguir em frente, trabalhar pela chegada do teu Reino...

As palavras sempre ficam aquém, mas é fácil ver que aqui se abre uma ampla porta para a iniciativa, a comunicação de experiências e, como prioridade, a generosidade fraterna das pessoas especialmente criativas neste campo. Criar novas orações, inventar novas expressões e sugerir palavras justas pode ser um instrumento precioso para renovar a fé, alimentar a esperança e reconfigurar uma imagem de Deus um pouco mais alinhada com o Abbá anunciado por Jesus.

Contando com o dito a esse propósito, podemos abordar agora o segundo exemplo, “retraduzindo” as palavras de uma oração que o Evangelho põe em seus lábios.

 

Orar frente ao sofrimento e a injustiça

Abbá, Pai, tu podes tudo, afasta de mim esse cálice. Porém não faça o que eu quero, mas sim o que tu queres” (Mc 14, 36).

Essa cena chocante, justamente famosa e comentada há muito tempo, constitui uma delicada pedra de toque para afinar o sentido da oração. A angústia que o coronavírus está causando na humanidade nos permite capturar com força especial parte do terrível drama vivido por Jesus de Nazaré na escuridão daquela noite no Monte das Oliveiras. Um dos evangelistas começa a falar sobre suor de sangue. E as palavras dessa oração ainda estão se movendo profundamente hoje. Neles, o problema humano do mal é mostrado em toda a sua dureza, como impotência diante do sofrimento físico e perplexidade incompreensível diante do mal humano. Por outro lado, o aspecto religioso, como uma péssima experiência diante de Deus, oferece aqui um caso limitante – o pensamento do protagonista, talvez o caso limitante – da pergunta sobre o significado da oração diante do mal: por que Deus não age? É porque consente?

A cena é real, assim como a angústia vivida ali. Em vez disso, não temos certeza se as palavras vêm diretamente de Jesus. Pelo contrário, é improvável, pois a mesma cena indica que ele estava sozinho, longe, sem ninguém para ouvi-lo; e depois os eventos não deixaram tempo para confidências. O que podemos ter certeza é que o significado dessa oração responde à pregação e à vida de Jesus. De qualquer forma, ele poderia ter pronunciado isso, uma vez que chegou até nós.

Para a interpretação, essa circunstância é um tanto afortunada, porque facilita distinguir entre a experiência vivida no jardim e as palavras que a interpretam e tentam expressá-la nos Evangelhos. A hermenêutica moderna destaca o caráter delicado e nunca totalmente discernível dessa distinção, que não é simplesmente aquela entre frutas e cascas ou entre pessoa e vestimenta. Toda experiência já é sempre uma experiência interpretada. Na medida em que pertencem à interpretação, as palavras levam inevitavelmente a marca da língua, da cultura e até da mentalidade religiosa da tradição e do tempo em que são pronunciadas ou escritas.

Estamos, portanto, diante de uma oração “teológica”. O que significa que interpretar seu significado não significa ter que interpretá-lo literalmente. Em vez disso, convida você a abordar a experiência refletida nela, mesmo sabendo que a nova interpretação só pode ser formulada na medida em que é modulada nas condições da atual situação religioso-cultural. Nesse empreendimento difícil consistem, como já foi dito, o risco (Geffré) e o conflito (Ricoeur) das interpretações, que exigem ao mesmo tempo extrema modéstia e rigor estrito.

Mas a dificuldade não significa sem mais ceticismo ou relativismo, porque não é intransponível. O que ele pede é aumentar o rigor e alimentar a responsabilidade. Para dar um exemplo elementar, considere a tradução de um texto difícil e profundo. As traduções serão inevitavelmente diferentes e a interpretação perfeita nunca será alcançada. Mas, mesmo assim, e simplificando um pouco o raciocínio, sabemos que é possível chegar a uma tradução que seja aceitável e retorne o significado fundamental. E com uma certeza ainda maior, podemos ter certeza de que uma certa interpretação é claramente falsa.

Mesmo assim, já se entende que, neste caso, a dificuldade é imensa, pois envolve abordar a experiência abissal que se expressa na oração das Oliveiras. Mas fazer isso também não está totalmente além do nosso alcance. Porque, qualquer que seja o mistério da pessoa de Jesus, ele não anula dois fatos certos e fundamentais. Quem sofre e reza, existe um homem real, feito de nossa própria carne, que sente e pensa com um coração e cérebro verdadeiramente humanos. Em segundo lugar, a realidade que ele vive e interpreta é a mesma que vivemos: seres humanos que, nascidos e protegidos pelo Deus Pai em que acreditamos, precisam enfrentar o mesmo problema subjacente. Como Jesus, somos feridos pela cruel mordida do mal em sua dimensão dupla e feroz: sofrimento físico e mal moral. Portanto, a lição de Jesus pode ser, e é realmente, válida também para nós. Por essa razão, o Vaticano II, em uma de suas mais altas intuições, pode afirmar que no mistério de Cristo também é revelado o mistério de toda pessoa humana (cf. Gaudium et Spes, 22).

Em suma, aceitar e tentar seguir seu evangelho significa enfrentar o mesmo problema e, portanto, o sentido da oração deve ser o mesmo. O sentido, não necessariamente as palavras. Porque não só é inevitável que estas levem a marca daquela situação, mas, precisamente por esse motivo, nosso dever é atender às possibilidades, problemas e demandas que nos permitem atualizar o mesmo sentido, mas de maneira que a interpretação seja compreensível e fértil na situação atual.

Felizmente, o significado fundamental se reflete admiravelmente nas palavras que abrem e fecham a oração de Jesus: “Pai” e “o que quiseres”. Eles refletem univocamente tanto a segurança no amor de Deus quanto a decisão de se identificar com sua vontade. Essa percepção é segura nos dois extremos. De fato, isso é tão perceptível que a cena continua a nos falar hoje, movendo nossos corações e tornando a chamada frutífera. Portanto, a interpretação pode alimentar esse significado e deve permanecer dentro de seu horizonte.

O problema está neste segundo nível: o da interpretação atual, isto é, como devemos entendê-lo hoje, iluminado e apoiado pelo que foi feito então por Jesus. Para isso, é essencial levar em consideração a “distância temporal” (Gadamer), reconhecendo os pressupostos religioso-culturais ou pré-julgamentos presentes nessa abordagem, porque eles não são mais e não podem ser nossos. A seção anterior deixou claro, espero, que isso aconteça com as duas premissas fundamentais que aparecem: 1) “tu podes fazer tudo, afasta de mim esse cálice”, 2) “mas não faça o que eu quero”. Ambos são típicos de uma cultura ainda não marcada pelo sentido expresso da autonomia criatural.

Mostra acima de tudo no primeiro. Nessa mentalidade bíblica, o “intervencionismo” de Deus no mundo, tanto físico para fazer chover ou enviar secas, quanto moral para impor punições ou conceder vitórias, era algo evidente e bem conhecido. O mal representava um problema, porque também nos fez sentir o que chamamos agora de “dissonância cognitiva” clara: se tudo foi causado por Deus, o mal também foi, e isso colidiu de frente com a fé em sua bondade. Mas nessa cultura, os crentes se mudaram para um ambiente que não questionava a fé na existência de Deus ou em seu senhorio sobre o mundo e a história. Assim, apesar de crises tão duras quanto as de Jó já terem surgido na Bíblia, a dissonância era integrável em uma visão global: se Deus ordenou, era seu direito; de um jeito ou de outro, se o fizesse, “era necessário” e tinha que fazer algum sentido.

A oração de Jesus se moveu nessas coordenadas teológico-culturais. Não podemos ter certeza da maneira concreta em que ele teoricamente resolveu a dissonância; mas tudo se inclina a pensar que ele fez isso nessa linha tradicional. Com a peculiaridade de que, no caso dele, a dissonância alcançava o grau máximo de nitidez. Por um lado, ele compartilhou a ideia de que Deus poderia evitá-lo: “tu podes tudo” e, portanto, ele implora: “afasta de mim esse cálice”. Mas, por outro lado, no cerne de sua mensagem estava a proclamação específica de Deus como Abbá do amor infinito e incondicional, de quem somente o bem e as bênçãos poderiam vir, mesmo para aqueles considerados maus e pecadores. Lembre-se: “se vós sois mau, quanto mais é o vosso Pai celestial!” . O grande e admirável está em que, apesar disso e de que o mal que o ameaçava era literalmente assustador, ele não confiou, mas afirmou sem condições: “faça-se o que queres tu”.

O processo íntimo de sua interpretação permanece para todo o sempre fechado no mistério daquela cena sublime. Muito provavelmente, ele foi ajudado pela piedade sálmica e pela tradição profética; também poderia ser iluminado pela figura do Servo sofredor, em Isaías. De qualquer forma, assumindo, aprofundando e recriando em sua experiência total confiança no Pai e infidelidade infalível à sua vontade, ele foi capaz de superar a dissonância pensando que tudo acontece porque “era necessário” (refletido no dei dos evangelhos em língua grega) e que, por caminhos talvez misteriosos, ele entrou no plano divino da salvação.

Levando em conta a conjunção ocorrida em seu caso entre a afiação da dissonância devido à natureza horrível do perigo e a insuficiência da solução teórica para o condicionamento cultural, longe de anular ou enfraquecer o valor exemplar e a profundidade reveladora da oração de Jesus, eles apenas os reforçam ao máximo. É por isso que essa oração continua a ser vista como um exemplo vivo de confiança que é prova de todas as crises: aconteça o que acontecer, mesmo nas angústias mais extremas e nas situações mais injustas e incompreensíveis, é possível confiar em Deus. A tarefa atual é aceitar a lição intransponível de confiança e fidelidade, mas atualizar o plano teórico em que devemos interpretá-lo e vivê-lo hoje, nas demandas e possibilidades de nossa cultura.


Foto: Vatican News

O papa Francisco e a oração

É possível que nenhum papa tenha falado tanto sobre oração como Francisco. Desde que ele chegou ao pontificado, sua exortação a orar por ele ressoa constantemente, e ele a repete toda vez que é importante. A insistência não se reduz à linguagem espontânea, mas também entra nos documentos. No número 154 da Exortação Apostólica Gaudete et exsultate, ele faz o aviso: “Não diminuamos o valor da oração da petição, que muitas vezes acalma nossos corações e nos ajuda a continuar lutando com esperança”. E ele continua: “O pedido de intercessão tem um valor particular, porque é um ato de confiança em Deus e, ao mesmo tempo, uma expressão de amor ao próximo”. Em uma ocasião anterior, ele escreveu: “Negar que a oração da petição seja superior a outras orações é o orgulho mais refinado, porque somente quando somos pedintes nos reconhecemos como criaturas” (Mente aberta, coração crente, Madri, 2013, 20).

 

Entre as palavras e o sentido

Se apenas prestarmos atenção às palavras, parece que o que digo aqui deve ser considerado como uma espécie de crítica ou desqualificação de sua doutrina. Você já entende que de maneira alguma é a minha afirmação. Não foi nas páginas anteriores, quando, “com medo e tremor”, cheguei à oração do Monte. Muito menos pode ser agora. E também neste caso, acho que submeter a letra a uma análise crítica representa a melhor maneira de recuperar e preservar a intenção autêntica nela expressa. Basta ler as quatro páginas que, segundo suas confidências, F. Prado Ayuso dedica em seu livro, simples, mas lúcido e empático, à práxis oracional de Francisco, para entender a autenticidade evangélica e a profunda verdade do espírito – do Espírito – que move suas palavras. É bem expressado por aqueles que o autor escolheu como título do livro mencionado: “No podemos dejar de respirar” (Madri 2019), a oração é o verdadeiro alento de sua vida.

Uma leitura minimamente atenta pela distinção entre o registro de confiança e o que se move na lógica abstrata não deve demorar um segundo para mostrar que toda a ênfase de Francisco está no primeiro. Nas mesmas frases em que afirma a necessidade da petição, ele imediatamente mostra que o que ele tenta garantir são os valores do primeiro registro: acalma o coração e alimenta a esperança. Quanto à intercessão, que no registro lógico poderia introduzir a oração no mundo sombrio de recomendações ou até subornos, ele a defende porque expressa amor pelo próximo e incentiva o compromisso fraterno. E as palavras estranhamente duras – orgulho refinado – contra as críticas da petição, baseiam-se na preocupação de que isso implica em não reconhecer criaturas.

Estou confiante de que, após as reflexões acima, é óbvio que desistir do pedido – apenas ele! – longe de negar ou enfraquecer esses valores, afirma-os expressa e diretamente. Além disso, ele não apenas limpa-os de excrescências falsas, mas hoje representa a única possibilidade real de defendê-los contra abusos internos ou acusações externas fáceis e severas. A prova é que a persistência na petição está causando muitos atos e celebrações diante da terrível situação que a humanidade está passando, que eles não escapam de um milagre anacrônico ou sempre escapam do perigo de se aproximar de uma caricatura da verdadeira fé.

Um resultado que, com toda certeza, contraria o sentido autêntico e a verdadeira intenção do que Francisco busca promover. Para verificar isso, basta contemplar com um olhar limpo e cordial sintonia seu chamado à oração. É fácil perceber que tudo isso consiste em uma exortação incessante e apaixonada para promover a confiança na compaixão amorosa de Deus, sempre e inextricavelmente ligada ao compromisso com os irmãos, especialmente com o sofrimento, desamparado e descartado.


Papa Francisco consagra a Eucaristia na quinta-feira santa, ao fundo o "Cristo que salvou Roma da Grande Peste". Foto: Vaticano News

Nesse sentido, a homilia dada na bênção Urbi et orbi sobre o coronavírus é um exemplo quase intransponível. O simbolismo da cena escolhida se prestava a isso, com Jesus no barco, aparentemente dormindo, e os discípulos agoniados em meio à tempestade. A homilia coloca a ênfase da oração em sua verdadeira perspectiva: um chamado à confiança em Deus e à solidariedade com os irmãos. Nota-se: é Jesus, e nele é Deus, que tem toda a iniciativa, chamando, questionando e convidando a acordar, pedindo solidariedade e esperança, confiar e não ter medo.

Falo de um exemplo “quase intransponível”, porque, na forma, ainda existem traços cujo movimento parece ir de nós para Deus, não de Deus para nós. Esclarecemo-lo com uma observação, um tanto banal, mas significativa, em relação a um parágrafo curioso: começa no registro da confiança, pois é Jesus quem, presente, encoraja e exorta: “Por que tens medo? Ainda não tens fé?”; mas depois, sem aviso prévio e sem respeitar o requisito mínimo do registro lógico, ele inverte a perspectiva, colocando Jesus fora do barco e atribuindo a iniciativa aos discípulos: “Vamos convidar Jesus para o barco de nossa vida”.

A simplicidade puramente ocasional do exemplo indica que, na realidade, o problema não é de substância, mas de forma ou, se quisermos, de inércia teológica. A prova é que, quando a experiência real prevalece, o vocabulário recupera seu verdadeiro significado: “O Senhor nos desafia e, no meio de nossa tempestade, nos convida a acordar e ativar essa solidariedade e esperança”. Vale a pena insistir, para ver como, apesar das muitas expressões verbais que parecem ir contra, esse é o dinamismo substancial que move a oração de Francisco. Vale citar dois parágrafos que, devido ao seu caráter reflexivo expressivo, confirmam isso de forma clara e convincente:

“Rezemos sempre, mas não para convencer o Senhor com a força das palavras! Ele sabe melhor do que nós do que temos necessidade! Ao contrário, a oração perseverante é expressão da fé num Deus que nos chama a combater com Ele, todos os dias, em cada momento, para vencer o mal com o bem” (Angelus, 20 de outubro de 2013).

“A oração cristã é antes de tudo dar lugar a Deus, deixando que ele manifeste a sua santidade em nós, fazendo com que se aproxime o seu reino, a partir da possibilidade de exercer o seu senhorio de amor na nossa vida [...] Insistir com Deus não serve para o convencer mas para fortalecer a nossa fé e a nossa paciência, isto é, a nossa capacidade de lutar juntamente com Deus pelo que é deveras importante e necessário. Na oração somos dois: Deus e eu, lutando juntos pelo que é importante” (Angelus, 24 de julho de 2016).

 

Papa pastor, na paróquia do mundo

Francisco é um papa pastor e entende-se que nele o registro de confiança é “primeree”. Ele quer incentivar o contato com Deus, experimentar a alegria de sua bondade, a confiança em sua compaixão e o compromisso de amor com os irmãos. Ele é dedicado de corpo e alma a promover esses valores. Sua atitude lembra um livro escrito por Yves Congar, nos anos 1960, dizendo que sua paróquia era, para ele, um vasto mundo (Vaste monde, ma paroisse). O sopro do Espírito trouxe Francisco da outra extremidade do planeta, fazendo dele o verdadeiro pastor do mundo.

De um mundo cuja fé ele é chamado a educar na nova cultura, muito trabalhada pela crítica da religião e submetida a um intenso processo de secularização. É necessário um novo equilíbrio que, mantendo a confiança, não negligencie a lógica. Caso contrário, será cada vez mais difícil para os fiéis manter intacta a imagem de Deus Abbá anunciada por Jesus. Francisco reúne a fé aberta de João XXIII e a sensibilidade modernizadora de Paulo VI, e ele é o proprietário de uma criatividade expressiva sem precedentes. Ele seria capaz de, pelo menos, iniciar uma renovação na maneira de orar.

É certamente impossível levar a cabo agora e imediatamente. Mas seria bom se a preocupação fosse reconhecida e se iniciasse um desses grandes “processos”. Pessoalmente, graças à força radiante de sua confiança e à vivacidade de sua linguagem, faz mais do que poderia parecer à primeira vista. E é claro que ele não tem medo de recorrer a expressões surpreendentes, como faz, por exemplo, com o símbolo de Deus batendo à nossa porta no Apocalipse. Com um golpe de eloquência genial, inverte, alegando que Deus não está realmente fora, mas está chamando de dentro. Sintonizando-se com a atual superação do dualismo sobrenaturalista, isso não apenas destaca a iniciativa divina, como a expressa em seu nascimento a partir da imanência criativa, amorosa e sempre rendida de Deus, solicitando ser acolhida. Ou seja, afirma a mensagem com ainda mais energia: seria absurdo pedir que ele entrasse.

De qualquer forma, duas coisas importantes estão na sua mão. A primeira: iniciar a renovação dos livros litúrgicos, atualizar as orações e fazer a revisão urgente das leituras (termino a redação dessas páginas depois de participar da emocionante celebração papal nesta estranha quinta-feira santa; mais uma vez fiquei abalado como podemos continuar proclamando leituras que retratam Deus matando todos os primogênitos no Egito.) A segunda é incentivar os teólogos e as próprias comunidades a participarem da criação de novas orações e novas celebrações que reconfigurarão uma imaginação coletiva em relação ao santo nome do Pai (Mãe) e na alegria de sua compaixão e a ternura dele.

Mas, pároco do mundo, Francisco, por sua dedicação sem reservas à causa dos desfavorecidos, também é hoje a voz mais viva e autêntica da consciência ética e moral da humanidade. Nesse sentido, o cuidado especial na linguagem da oração se torna mais urgente, de modo que a dissonância no registro da lógica não oculte a transparência universal de sua mensagem. Com uma limpa e comprometida sintonia, ele está reconhecendo e proclamando a grandeza humana da explosão de generosidade em tantas pessoas que estão expondo suas vidas em nome de outras. Sua palavra estaria em uma posição melhor para ajudar muitos a descobrir a alegria de saber que nesta entrega eles são movidos e acompanhados pelo amor de um Deus que não busca nada além de vida e felicidade para esta humanidade em um transe tão duro e doloroso.

 

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